| Relatório sobre o Algarve (Agosto de 1952) (1) |
O presente Relatório foi terminado em Agosto de 1952, tendo dele sido tiradas, segundo informações do autor, 13 cópias dactilografadas em papel de 2ªs vias. O original está assinado por Vg., abreviatura do pseudónimo de Carlos Costa nessa época (Viegas).
Com apenas 24 anos de idade, funcionário do Partido há um ano e também há apenas um ano responsável pela organização no Algarve, Carlos Costa redigiu o seu Relatório num período de tempo muito curto e em difíceis condições, como são sempre as da clandestinidade. Mas neste caso agravadas, como o leitor se aperceberá, por exemplo, pelas frequentes referências à falta de informações sobre o que se estava a passar relativamente a situações concretas no momento da sua redacção. Tanto quanto o autor se recorda passados mais de 47 anos, tal facto deveu-se à circunstância de, tendo começado a escrevê-lo numa casa clandestina em Tavira, por motivos de defesa teve de passar a viver temporariamente num quarto nos arredores de Olhão, tendo então aproveitado o «descanso» para escrever grande parte do Relatório. Mas durante esse período foi obrigado a suspender muitas ligações à organização do Partido e daí a referida falta de informações. O Relatório viria a ser acabado de passar à máquina noutra casa clandestina em Albufeira, para onde em seguida se mudara.
O texto do Relatório que agora se publica foi estabelecido segundo uma cópia, só encontrada em 1999 no espólio do camarada Octávio Pato, contendo diversas anotações do autor. Para além delas, foram introduzidas correcções de gralhas de dactilografia e pequenas incorrecções gramaticais, absolutamente compreensíveis nas condições de trabalho da altura.
O leitor poderá notar a falta de referência das fontes, nomeadamente dos dados estatísticos utilizados. Tal facto não é contudo de admirar dado que se tratava de um texto, não para publicação (hipótese que nem sequer se colocava na altura), mas para servir como documento de trabalho visando fundamentalmente, como o autor nos explicita logo na abertura, três objectivos: preservar e transmitir aos dirigentes e militantes do Partido os conhecimentos e experiências adquiridos, sempre em risco, se tal não fosse feito, de se perderem devido às prisões pela PIDE; habilitar com mais rapidez e facilidade os funcionários acabados de chegar à região com os conhecimentos indispensáveis à realização das suas tarefas; e dar uma perspectiva política mais ampla ao trabalho dos quadros intermédios do Partido (2).
Documento do Partido para o Partido, nele se conjugam - numa análise de notável finura e competência científica num quadro tão jovem - a pesquisa rigorosa das estatísticas, da legislação do trabalho, dos contratos colectivos e das disposições orgânicas das instituições de carácter social, da imprensa clandestina e legal (esta, apesar de tudo, não podia deixar que certas verdades transparecessem numa leitura avisada de classe...), com a procura de informações directas e insubstituíveis dos próprios trabalhadores. O conhecimento aprofundado das especificidades da estrutura económica e social da região em questão, das particularidades das diversas actividades profissionais aí desenvolvidas, dos problemas que afectavam a vida dos diferentes núcleos populacionais, permitem ao autor, combatendo ideias feitas erróneas, discernir perspectivas de acção fundamentadas e apontar formas e orientações de luta apropriadas à realidade objectiva.
Em resumo - e quem ler o Relatório não poderá deixar de o constatar - trata-se de uma obra de um revolucionário profissional, na autêntica acepção leninista, e de um exemplo vivo do estilo e do método de trabalho caracterizadores do nosso Partido.
A sua grande importância para a história do Partido, da influência deste nas classes trabalhadoras e entre as massas populares (sem deixar de ser como é simultaneamente fonte de interesse de modo algum menosprezável para a história económica e social do Algarve daquela época), conferem pleno cabimento à publicação deste Relatório numa colecção dedicada à história do PCP.
(1) Nota da Editora ao livro de Carlos Costa - Relatório
sobre o Algarve (Agosto de 1952), Edições "Avante!",
Lisboa, 2000.
(2) Objectivos idênticos aliás aos que nortearão a elaboração
de um outro relatório, 20 anos depois, na qual o autor teve participação
destacada: referimo-nos ao Relatório sobre a Manifestação
de 15 de Abril no Porto contra a Carestia de Vida (1972), da DORN do PCP, publicado
pelas Edições «Avante!» em 1996 na colecção
cadernos de História do PCP.
«O Militante» - N.º 249 - Novembro/Dezembro 2000