Porto 2001/Capital Europeia da Cultura

Casa da Música


Pianista.
Membro da Área da Programação Musical do Porto 2001/Casa da Música.
Membro da DORAveiro

1. Canas de foguete com raízes

Para haver festa tem que haver foguetes!

Só que em campos de penúria, ideal seria que as canas dos foguetes, depois de extinto o seu efémero aparato visual e sonoro, ganhassem raízes após o regresso ao solo, germinando e frutificando posteriormente.

Pensamos que esta imagem, aplicada às linhas mestras da acção da Sociedade Porto 2001, é positiva para a futura Capital Europeia da Cultura e para a sua região, tão parca de correspondências infraestruturais e logísticas à sua irrequieta vida cultural.

Poucos apreciarão tanto como os portuenses um merecido folguedo (que tanto jeitinho também vai dar em ano de eleições autárquicas...), o que não impede a Cidade de sentir a premência do aproveitamento desta benesse única dos céus (ler Poder Central!) para, sem sacrifício do necessário aspecto lúdico dos festejos de 2001, tentar que os investimentos tenham, sempre que possível, um cunho estruturante.

E se dentro das plurifacetadas vertentes culturais da Região escolhermos uma, em especial e para esse efeito, pela gritante desproporção entre a dinâmica demonstrada ao longo de décadas e os meios postos à sua disposição, ajuizaremos positivamente a escolha da Música para ninho da obra paradigmática da Sociedade Porto 2001: a Casa da Música.

2. Muita música, poucas condições

Realmente foi criado desde muito cedo pelos meios musicais burgueses portuenses todo um precioso património sócio-cultural, através do cultivo doméstico da Música de Câmara, no apoio entusiástico às importantes Sociedades de Concerto e aos sempre esgotados espectáculos de Ópera, obrigando por diversas vezes os Poderes Local e Central a sustentarem um Conservatório de Música e, indirectamente, uma Orquestra Sinfónica, veículos preponderantes no definitivo alargamento e democratização da base de usufruidores e de entusiastas musicais. A Cidade gerou vultos como Guilhermi-na Suggia, Helena Costa ou Pedro Burmester, entre outros intérpretes e criadores, ou agrupamentos como o histórico Quarteto de Cordas do Porto ou como a Oficina Musical, para não citarmos coros, bandas e tunas ou os excelentes agrupamentos e solistas nas áreas da Música Popular, da Pop-Rock ou do Jazz.

A este caudal de actividade nunca houve uma correcta correspondência de estruturas, quer físicas, quer orgânicas, que facilitassem ensaios, concertos e produções, que potencializassem esforços isolados e voluntaristas, que automatizassem actualizações e inovações de técnicas e de estéticas dos agrupamentos ou das instituições que, por natural autodefesa ou por envelhecimento solitário, muitas vezes cristalizaram ingloriamente.

Sobretudo faltava o espaço dos músicos: de trabalho, de actuação, de encontro com o público e consigo próprios, independente de apertadíssimos compromissos com outras artes de palco.

3. Casa da música: um projecto...

E para além do espaço físico, um projecto moderno, sedimentador e condutor. Ponto de chegada e de nova partida revigorada para tantos autênticos milagres musicais que a história do Porto nos legou, quer em obras e intérpretes, quer em instituições e em público melómano.

Antes de tudo, a Casa da Música vai tentar desmistificar a sala de concertos parnasiana burguesa - apenas acessível a alguns iniciados que aí buscariam os nirvanas sociais com que condimentariam o sofrido e, por instantes, esquecido lufa-lufa diário... - contrapondo-lhe uma definição de um espaço aberto a todos os gostos, a todas as músicas, a todos os públicos. Colocado em local de passagem do dia-a-dia portuense, será ponto de encontro e de lazer, agradável em qualquer momento do dia, e possibilitará contacto com o inopinado trabalho diário dos músicos que aí encontram locais para ensaiar, gravar, conviver e apresentar, em condições técnicas ideais, o seu contributo social artístico.

4. ...Com habitantes...

Constituindo natural albergue da Orquestra Nacional do Porto - actualmente sem local fixo acusticamente apropriado para se apresentar e, desde o seu regresso a sinfónica, nem mesmo para ensaiar -, a Casa da Música vai criar no seu seio outros agrupamentos, a saber:
· o Estúdio de Ópera do Porto - pequena equipa técnica que avançará para projectos de ópera de reduzidas dimensões, nomeadamente nos géneros barroco e contemporâneo, recrutando jovens cantores recém-diplomados e ministrando-lhes simultaneamente uma formação vocal e cénica; possibilidades de tournées, mas também de co-produções exteriores com os palcos de ópera já existentes no Porto.
· o Remix Ensemble - agrupamento de Câmara já formado por jovens músicos de alta craveira e que se estreará ainda em 2000, vocacionado para a prática da Música Contemporânea, tendo como maestro e director artístico Stefan Asbury; os seus elementos poderão desdobrar-se em pequenos conjuntos camarísticos.
· uma Orquestra de Jovens - a formar posteriormente, tendo como núcleo central os elementos do Remix Ensemble, aos quais se virão juntar jovens músicos recém-diplomados em busca de um primeiro emprego; assumirá o papel de ponte entre a formação académica e a vida profissional orquestral, dentro de elevadas condições técnicas; terá uma formação clássica que virá ocupar as características de mobilidade e de repertório deixadas vagas pela Orquestra Nacional do Porto no seu regresso a formação sinfónica; haverá ainda a possibilidade de, em colaboração com as escolas, crescer pontualmente para formação sinfónica através da junção de alunos em estágios de curta duração, culminados com apresentações públicas.
· um Coro semi-profissional - inexistente no Porto, apesar da tradição coral da região e da qualidade e prestígio de alguns (Coral de Letras da Universidade do Porto ou Coro da Sé do Porto); será o último agrupamento a ser criado à base de jovens cantores profissionais e em formação de câmara; alargar-se-á sempre que necessário, por concurso e em função de cada obra coral-sinfónica programada; para além de circuitos externos e internos de concertos a-capela, poderá colaborar com qualquer dos agrupamentos da Casa da Música, salientando-se os concertos corais-sinfónicos a efectuar com a Orquestra Nacional do Porto.

Por outro lado a Casa da Música irá apoiar grupos externos já existentes, pela sua qualidade e pertinência do género cultivado, como é o caso de grupos de Jazz, de Música Antiga ou de Percussão.

Arcando com a pesada responsabilidade de criar novos públicos e cruzar os já existentes, muitas vezes guetizados em áreas estanques, o Departamento Educativo da Casa da Música começou já a dar os seus primeiros passos na Programação Musical da Porto 2001. A ligação às escolas foi desde logo distinguida com cursos para animadores musicais oriundos de todos os níveis de ensino, com ou sem quaisquer formações musicais prévias. Este corpo funcionará como interlocutor privilegiado na organização da ida dos alunos aos espectáculos musicais da Porto 2001 e mais tarde à Casa da Música, mas também na recepção nas próprias escolas de agrupamentos ou solistas que, em sentido inverso, a elas se deslocarem. Estão--se a organizar ateliers e seminários para todas as idades e, já este ano, fizeram-se as primeiras experiências de um Serviço de Baby-Sitting Musical para bebés/crianças durante os eventos musicais com que a Porto 2001 decidiu, ainda em 2000, lembrar os vultos de Guilhermina Suggia e de J.S.Bach na passagem dos 50 e 250 anos da morte, respectivamente, ou no lançamento prévio das primeiras produções do Estúdio de Ópera do Porto.

5. ...Para um edifício de eleição

O consagrado arquitecto holandês Rem Koolhaas, autor do projecto escolhido unanimemente por um júri que na sua constituição continha nomes como Siza Vieira ou Souto Moura, para além de outras personalidades das artes, abraçou o conceito programático atrás descrito e inerente ao programa obrigatório de construção, enriquecendo-o inquestionavelmente através de uma obra arrojada e controversa a inaugurar no primeiro semestre de 2002 numa cidade de grande historial arquitectónico.

O edifício conterá:
· um Grande Auditório (1 300 pessoas), destinado prioritariamente à música sinfónica, com órgão e palco para concertos corais-sinfónicos, sendo a área destinada ao coro passível de ocupação pelo público.
· um Pequeno Auditório (300 pessoas), vocacionado para a Música de Câmara, para o Estúdio de Ópera ou para formas musicais mais experimentais (palco amovível, cadeiras do público orientáveis).
· oito salas de ensaio com variadas dimensões, duas das quais passíveis de funcionar como estúdios de gravação.
· espaço para o Departamento Educativo, com sala para ateliers e pequeno anfiteatro com vidro, dando acesso visual ao Grande Auditório.
· espaço de Cibermúsica, destinado ao estudo e à criação de Música eletroacústica.
· Centro de Documentação (Arquivo, Biblioteca e Mediateca), espaço de consulta, estudo e investigação dos
materiais bibliográficos de apoio a todos os agrupamentos da Casa da Música ou de espólios e colecções adquiridos ou legados.
· lojas musicais, restaurante, café-concerto e bares, formando um conjunto de apoio logís-tico a músicos e
público, e um espaço de lazer que, por si só, justificará a visita de muita gente; a salientar que o restaurante e o café-concerto, possuindo esplanada ao ar livre, localizar-se-ão no último andar do edifício.
· parque de estacionamento subterrâneo.

6. Atenção às ... vacas?!?!

Estando a construção e o conceito que a gerou dialéctica e umbilicalmente ligados, dimensionados para o meio musical portuense nas vertentes escolar, profissional e artística, e com uma gestão financeira pensada subsidiariamente entre as suas componentes o que permite aligeirar a dependência estatal sem sacrifício da qualidade nem dos deveres públicos para com a Cultura, qualquer alteração imposta a este equilíbrio poderá vir a ter efeitos desastrosos.

Sabendo-se dos cuidados e dos estudos a que foi sujeita a proposta da Casa da Música, nomeadamente sob o ponto de vista económico; tendo em conta a experiência de gestão das grandes instituições musicais nacionais; conhecendo-se o entusiasmo com que, quer a Sociedade Porto 2001 (na pessoa dos dois presidentes que já teve), quer o anterior Ministro da Cultura souberam acolher este projecto inovador e inadiável, difícil será, para o Porto e para o País, aceitar a sua descaracterização ou mesmo o seu esvaziamento por cegos (?) critérios economicistas, fartos de fazer recair sobre a estafada cultura os malefícios da inépcia do sistema.

Será que as canas dos foguetes, prontinhas a germinar, poderão ser pasto - graças a bovina miopia - de vacas... magras?

«O Militante» - N.º 249 - Novembro/Dezembro 2000