| O reforço do PCP é necessário para o povo português |
A Festa do Avante! 2000 foi, de novo, um grande êxito. Esta importante
iniciativa anual do PCP, voltada abertamente para todos, conti nua a ganhar
o interesse e a participação de nova gente. Aqueles que a conhecem
pela primeira vez - e há sempre muitos casos desses - dizem, normalmente,
que não esperavam o que se lhes depara, porque não há qualquer
outra realização com as características da Festa na Quinta
da Atalaia. Sempre com aspectos novos, com uma convivência sã e
com uma grande diversidade de espectáculos, de desportos, de debates,
de exposições, de artesanato, de muito variada gastronomia e de
milhentas coisas mais, a Festa vai prosseguindo a sua função de
esclarecimento cultural, social e político.
O comício de domingo mobilizou muitos milhares de pessoas e foi mais
acompanhado e apoiado que em anos anteriores. A Festa marca claramente a grande
diferença do PCP em relação a todos os outros partidos.
Uma reunião do Comité Central teve lugar em 9 de Setembro para
decidir sobre o candidato do PCP à Presidência da República.
Foi aprovado um documento que esclarece a posição do Partido a
esse respeito e que se publica, em documentos, no final deste número
de O Militante.
A apresentação pública do candidato do PCP foi extraordinariamente
concorrida e atraiu não só muitos membros e simpatizantes do Partido
como outros democratas. Cabe a cada português que deseje que a esquerda
passe a ter uma maior influência no nosso País um esforço
continuado de esclarecimento junto do eleitorado para elevarmos o mais possível
o número de votos no candidato António Abreu. Todas
as organizações do Partido devem mobilizar-se para esta batalha
por votos que pode desempenhar um importante papel na actual conjuntura política.
Nos dias 1 e 2 de Outubro realizou-se uma outra reunião do Comité
Central que discutiu longamente propostas que irão ser apresentadas ao
XVI Congresso bem como questões da situação e da intervenção
política do Partido. Para além das propostas do Regulamento do
Congresso, que incluímos em documentos, e da sua Ordem de Trabalhos,
foi também aprovado o Projecto de Resolução Política,
documento que acompanhou o Avante! do dia 5 de Outubro. Esse texto, de que foram
ulteriormente distribuídos mais exemplares, está já a ser
debatido nas organizações o que permite tornar muito amplo o seu
conhecimento e conduz à recolha de muitas achegas que deverão
melhorar e enriquecer o documento final. É muito importante que a
sua discussão mobilize muitos camaradas e consiga atrair mesmo aqueles
que têm estado menos interessados.
A situação política nacional continua uma evolução
que coloca cada vez mais a nu a incapacidade do Governo PS em dirigir os destinos
deste país. As apreciações feitas por comentadores muito
diversos arrasam a direcção política do Governo de Guterres
(1). No próprio interior do PS, levantam-se muitas vozes contra a orientação
que tem sido seguida pelo Governo (2). É possível que algum pensamento
de esquerda possa influenciar tais protestos mas é natural que se tenha
tornado muito saliente a preocupação de se perder um poder que
tem servido bem os interesses dos que governam e se governam e de uma ampla
e crescente clientela.
A remodelação do Governo realizada por Guterres mostrou que ele
se viu obrigado a tomar decisões que, três semanas antes, afirmara,
em Esposende, que não faria. Entretanto vão-se agravando os males
existentes em diversas áreas. A situação da saúde,
que tanto necessitava de ser melhorada, está cada vez mais inquinada.
A juntar à grande escassez de médicos, descobre-se
agora que faltam mais de 11 mil enfermeiros e o Governo desculpa-se
dizendo que encontrou uma situação má a esse respeito.
E que foi feito para a contrariar durante os quase cinco anos de Governo PS?
Não terá ainda piorado mais?
Recentemente o PCP protestou na Assembleia da República contra a destruição
do Serviço Nacional de Saúde (SNS), afirmando que a mudança
de protagonistas no ministério e a sequente substituição
de quadros representa uma inversão de rumo e uma maior cedência
aos interesses dos lobbies do sector e que a degradação
crescente nesta área tão importante será aproveitada para
a sua privatização. A recente demissão do médico
Artur Osório, director do Hospital Pedro Hispano (Matosinhos), é
um evidente sinal do protesto que grassa cada vez mais entre os muito diversos
trabalhadores da saúde. Aquele médico afirmou que o SNS caminha
para um caos, onde os pobres vão cada vez sofrer mais e os ricos se governam
porque têm dinheiro para ir às clínicas (DN,
14.10.00).
A CGTP, a mais importante organização social do nosso País,
que fez em 1 de Outubro 30 anos de existência, desempenha um grande papel
na luta dos trabalhadores. Mais uma vez vai-se travar um difícil combate
na discussão do aumento dos salários para o próximo ano.
No ano de 1999 essa discussão foi totalmente desvirtuada em virtude da
imposição de um aumento de 2,5% na base de uma informação
enganosa de que a inflação atingiria somente 2%. No começo
de Outubro, o ministro das Finanças reviu o valor da inflação
e apontou 2,7% para este ano e para o ano seguinte e, nessa base, avançou
que teria de se ter em conta uma compensação de 0,2 quando, evidentemente,
o que ele deveria dizer era uma compensação de 0,7. Estas incríveis
habilidades de um ministro classificam-no. Aliás, nunca se
assistiu a uma crítica, em palavras, tão persistente e clara,
da UGT ao Governo como recentemente e a propósito destas falsas percentagens
do ministro das Finanças. Lembra-se aqui, para os mais novos, que a UGT
foi constituída, em 1978, com o apoio directo dos então dirigentes
dos três partidos - Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas
do Amaral - e de muitos patrões que até dirigiam circulares aos
seus trabalhadores para que se inscrevessem na nova organização
sindical.
Entretanto, estes últimos números, para a inflação,
do citado ministro para a inflação, também não serão
correctos. Uma equipa do Banco Espírito Santo afirma que a inflação
este ano chega aos 3,0% e, para o ano, atingirá 3,1% (Expresso,
14.10.00).
Interessa saber que o Conselho Económico e Social (CES) aprovou um parecer
(os representantes do Governo abstiveram-se) em que se afirma que, nos
últimos três anos as metas da inflação nunca foram
cumpridas, tendo-se registado um desvio total de 1,8 percentuais entre a inflação
prevista e a verificada, o que evidentemente conduz a uma perda
de poder de compra para um elevado número de trabalhadores portugueses,
nomeadamente os funcionários públicos (DN, 14.10.00).
A mesma notícia diz que em relação ao futuro, o Governo,
associações sindicais e patronais concordaram que os salários
reais devem evoluir em consonância com a produtividade, mas a verdade
é que, com o Governo PS (e com os anteriores governos desde 1976) os
salários reais nem sequer têm acompanhado o valor da inflação.
É por isso que o actual salário mínimo tem um valor real
menor do que quando foi instituído (1974) e a parte do rendimento nacional
que vai para o trabalho, depois de ter passado por valores notáveis em
1974 e 1975, decresceu muito e tornou-se ainda mais pequena do que no tempo
do fascismo. São verdades que é preciso reter e que denunciam
plenamente de quem são os interesses que os partidos que nos têm
governado servem - uma minoria de exploradores a enriquecerem à custa
de milhões de pobres e explorados.
Em 15 de Outubro realizaram-se eleições nas duas Regiões Autónomas, Açores e Madeira. Ao contrário do que muitos vaticinam, a CDU fortaleceu-se com o aumento do número dos seus eleitores e das suas percentagens. Nos Açores deu-se um passo muito importante porque se elegeu um segundo deputado e isso representa a existência de um grupo parlamentar que nunca se tinha conseguido nesta Região. Na Madeira, onde impera um poder discricionário, consolidou-se a influência da CDU, assente no reforço do Partido e na atracção de outros democratas que lhe dão o seu apoio.
A preparação do XVI Congresso deverá mobilizar o maior
número de membros do Partido para que, num ambiente - que não
existe em nenhum outro partido - de liberdade de expressão, de respeito
pelas opiniões e pelas votações, se debata o Projecto de
Resolução Política e se elejam os delegados e os suplentes
das muitas organizações que constituem o Partido.
A realização do XVI Congresso, nos próximos dias 8, 9 e
10 de Dezembro representará um passo importante para o fortalecimento
do Partido Comunista Português, fortalecimento que é indispensável
para que o nosso povo conquiste uma verdadeira democracia, uma democracia avançada
no século XXI assente em quatro vertentes inseparáveis - política,
económica, social e cultural.
(1) Um exemplo: O jornalista Fernando Madrinha escreve
(Expresso, 30.9.00): (...) a opinião pública apercebe-se
cada vez melhor de que os dramas da existência portuguesa têm muito
menos a ver com a exiguidade dos recursos do que com o desastre em que se traduz
a sua administração a todos os níveis do Estado.
(2) Exemplos: Numa reunião tempestuosa da Comissão Política,
o ex-ministro Alberto Costa caracterizou o seu partido dizendo que o PS
está moribundo e João Cravinho, deputado e ex-ministro,
foi muito aplaudido quando exclamou que não é
possível qualquer mobilização na base de um partido pidesco
(DN, 5.10.00). O empresário Henrique Neto, membro da Comissão
Política do PS, afirma numa entrevista (Expresso, 7.10.00) que o Governo
é incoerente e justifica essa opinião com um conjunto de
razões muito críticas.
«O Militante» - Nš 249 - Novembro/Dezembro 2000