Prefácio à (segunda) edição russa de 1882 (13) A primeira edição russa do Manifesto do Partido Comunista, traduzido por Bakúnine, apareceu no começo dos anos 60 (10) na tipografia do Kolokol (14). Então, o Ocidente só podia ver nela (na edição russa do Manifesto) uma curiosidade literária. Tal concepção seria hoje impossível. E agora a Rússia! Durante a revolução de 1848-49, não só os príncipes europeus como também os burgueses europeus viram na intervenção da Rússia a única salvação perante o proletariado que precisamente só então começava a despertar. O tsar* foi proclamado chefe da reacção europeia. Hoje é prisioneiro de guerra da revolução, em Gátchina (15), e a Rússia forma a vanguarda da acção revolucionária na Europa.
O Manifesto Comunista tinha por tarefa proclamar a inevitavelmente iminente dissolução da propriedade burguesa moderna. Mas na Rússia encontramos, face à trapaça capitalista em rápido florescimento e à propriedade fundiária burguesa que precisamente só agora se começa a desenvolver, mais de metade do solo na posse comum dos camponeses. Pergunta-se agora: poderá a Obchtchina russa* uma forma, ainda que fortemente minada, da antiquíssima posse comum do solo transitar imediatamente para a [forma] superior da posse comum comunista? Ou, inversamente, terá de passar primeiro pelo mesmo processo de dissolução que constitui o desenvolvimento histórico do Ocidente?
A única resposta a isto que hoje em dia é possível é esta: se a revolução russa se tornar o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, a actual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida de um desenvolvimento comunista. Karl Marx, F. Engels
Quão limitado era ainda então (Dezembro de 1847) o terreno que o movimento proletário ocupava mostra-o, do modo mais claro, o capítulo final do Manifesto: Posição dos comunistas para com os diversos partidos da oposição nos vários países. Ora aí faltam precisamente a Rússia e os Estados Unidos. Era o tempo em que a Rússia formava a última grande reserva de toda a reacção europeia; em que os Estados Unidos absorviam pela imigração o excedente da força [Überkraft] proletária da Europa. Ambos os países abasteciam a Europa de matérias-primas [Rohprodukten] e eram simultaneamente mercados de escoamento dos produtos industriais desta. Ambos os países eram então, portanto, dum modo ou doutro, pilares da ordem europeia vigente.
Como tudo hoje é diferente! Precisamente a imigração europeia habilitou a América do Norte para uma produção agrícola gigantesca, cuja concorrência abala a propriedade fundiária europeia a grande como a pequena nos seus alicerces. Além disso, permitiu aos Estados Unidos explorar os seus imensos recursos industriais com uma energia e numa escala que dentro em breve terão de quebrar o monopólio industrial da Europa Ocidental até aqui, nomeadamente o da Inglaterra. Ambas as circunstâncias reagem revolucionariamente sobre a própria América. A pouco e pouco a propriedade fundiária mais pequena e média dos lavradores [Farmers*], a base de toda a constituição política, vai sucumbindo à concorrência das quintas gigantescas [Riesenfarms]; simultaneamente, desenvolvem-se pela primeira vez nos distritos industriais um proletariado maciço e uma concentração fabulosa dos capitais.
* Em inglês no texto: lavradores, rendeiros. (N. Ed.)
* Nicolau I. (N. Ed.)
* Obchtchina: comunidade aldea. (N. Ed.)
London, 21 de Janeiro de 1882.