A crise económica internacional
e a União Europeia



Sérgio RibeiroEstava, o mundo, posto em sossego. Relativamente, mas em sossego.
Os capitais circulavam pelas auto-estradas da comunicação de que se apropriaram. Nuns lugares a jogarem nas bolsas e a aliciarem as poupanças para participarem em privatizações através de bem propagandeadas operações bolsistas; noutras paragens a trazerem para o modo de produção capitalista massas de trabalhadores produtores das mais-valias que nos lugares primeiros deixaram de ser fáceis de criar e apropriar. Mais-valias que não são as dos impostos mas dum arsenal conceptual, bem fornecido pelo aparentemente esquecido Marx, e cuja dificuldade em criar e apropriar nos lugares do «centro» se explicaria por outro conceito do dito arsenal, o da composição orgânica do capital, e pela luta social.
Nos extremos do oriente havia os chamados «dragões», paridos dessas desloca(liza)ções do capital sobretudo financeiro, e do casamento ou relações menos estáveis com burguesias nacionais emergentes de situações pré-capitalistas. Com o apadrinhamento do FMI, sempre vigilante e interveniente.
Esses «dragões», depois de terem sido os NPI (novos países industrializados), eram uma espécie de «jóias da coroa» do capitalismo em fase de transnacionalização. Tinham indicadores de crescimento económico invejáveis, sindicatos colaborantes, calma social nas ruas. Serviam de exemplo.
Havia, como há sempre — e são sempre os mesmos — os que «diziam coisas». Que era uma economia de casino porque tudo se baseava na acumulação de capital financeiro à margem da criação de riqueza, assim a modos de encher um balão a testar a resistência dos materiais; que as estruturas bancário-financeiras periféricas não tinham nenhuma consistência nem para a economia real nem para as «massas» financeiras em acelerada circulação; que a acalmia social era enganadora porque as massas (outras) ao assalariarem-se ganham consciência por mais que os queiram manter pré-capitalistas na mentalidade e atitude e capitalistas na criação de mais-valia; que o padrinho FMI, em vez de ajudar à resolução dos problemas reais, só os agravava apesar do efeito anestésico que pudesse provocar.
Diziam essas e outras coisas, acusados da evidente má vontade e do catastrofismo que os caracterizaria.

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De repente, algumas das coisas (mal)ditas começaram a confirmar-se.
Do ano passado para este, os problemas surgiram nos tais ditos «dragões» revelando toda a fragilidade das suas estruturas económico-financeiras. O FMI reforçou a sua intervenção — ou ingerência... — e nada melhorou. Pelo contrário! As situações económicas e sociais foram-se tornando explosivas.
Da Europa, e de outros «centros», começou por se olhar para a periferia com alguma displicência. O que por lá se passava era por lá que se passava. Seria ultrapassado e, para mais, por cá, a União Europeia até se estava a dotar duma moeda única capaz de servir de euro/escudo protector dos potenciais efeitos desses problemas longínquos.
Os do costume... tiveram a reacção do costume. Chegaram ao ponto de lembrar que o escudo/euro protector ainda nem sequer estava criado, pelo que era cedo para afirmar e comprovar essas virtudes que eventualmente virão a ser as suas. E até disseram que os problemas podiam vir a ser crise e chegar à Europa. Ou não fosse a globalização, quando nasce, para tudo.
Afinal, era mesmo crise.
Viajou pela América Latina e deixou por lá sinais e, pior, ameaça regressar breve. O que seria particularmente grave se viesse a entrar e a instalar-se num país como o Brasil. Encontrou um ambiente propício para se passear na Rússia, em que a selvajaria do capitalismo tem devastado tudo e, sobretudo, (quase) todos. E estando, assim, às portas da União Europeia, também aqui, na Europa e nos tais outros «centros», deu um ar da sua (des)graça.
O que se afirmava ontem, é desmentido hoje, não se faz a mínima ideia do que se irá decidir amanhã.
As taxas de juro que não deviam descer passaram a dever descer, os bancos que não deviam submeter-se a nenhum controlo passaram a talvez dever ter um «certo» controlo político, a circulação de capitais que não devia ter quaisquer peias passou a dever encarar a possibilidade de admitir umas «pausas», até porque alguns países, com ou sem beneplácito do FMI e de outras instâncias, já tinham começado a impor «pausas» por sua conta e risco, ou para evitar contas e riscos ainda maiores.
O mês de Outubro foi verdadeiramente frenético. Várias reuniões e conferências de imprensa, sobretudo dos G7 e do FMI, vieram promover e apresentar essas mudanças com discussões e debates reveladores de uma (mal) contida e (pior) escondida desorientação.
Num certo vazio de intervenção norte-americana, por razões subjectivas relativas ao presidente absolutamente lamentáveis e por razões de responsabilidade objectiva quanto à estratégia que, por simplicidade, se pode chamar do FMI, e no quadro das recentes mudanças de perfil político nos Estados europeus, com predominância incontestável da social-democracia, e em que, para mais, a Alemanha aparece em transição, tudo foi aparentemente posto em causa.
A imagem de um barco a precisar de reparações, com problemas de comando e à procura de um rumo, foi muito utilizada.
Resumindo, parece que os Estados Unidos pretendiam que tudo se ficasse apenas por umas pequenas reparações de manutenção e, no máximo, uma pintura nova do casco, enquanto a França se teria batido por alterações na «torre do comando», com a introdução de pilotos que, sendo políticos, pudessem travar o crescente domínio dos técnicos, particularmente financeiros e bancários, a coberto da chamada independência, mas ao serviço de estratégias ou rumos transnacionais.

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Nestas grandes negociações e manobras o papel da França aparece fundamental. Pode ilustrar-se este facto também com a posição relativa ao célebre AMI. O governo francês retirou-se das negociações em meados de Outubro, e o primeiro ministro Jospin, ao anunciar essa decisão, afirmou: «quando se vêem as recentes perturbações, os movimentos precipitados e tantas vezes irracionais dos mercados, não nos parece sensato deixar que os interesses privados possam morder a esfera das soberanias dos Estados que devem continuar a ser os principais actores da vida internacional».
Serão dispensáveis comentários sobre esta posição francesa e os termos em que é justificada. No entanto, há limitações objectivas derivadas da evidente preocupação em não se ir demasiado ao fundo dos problemas, isto é, à natureza capitalista, e também algumas resultantes de maneiras muito próprias, nacionais, idiossincráticas ou, no caso, «chauvinistas».
Assim, parece significativo que, após o fim de semana da cimeira ibero-americana realizada no Porto, em que houve posições tão importantes sobre a questão da globalização, nomeadamente sobre a situação no Brasil e a crise ou os riscos de crise, nenhuma referência se encontre a essa importante reunião na comunicação social francesa, salvo um par de linhas em três páginas dedicadas à prisão de Pinochet em Londres com a reacção do presidente do Chile... «em visita a Portugal por ocasião da cimeira ibero-americana»!
Pois nessa reunião, que a França pareceu ignorar, muito se debateu a crise (ou os riscos de crise, em versão soft) e foi resolvido que a cimeira do próximo ano, a realizar em Cuba, terá esse tema. A propósito, é de sublinhar que Fidel Castro, no discurso de encerramento do Encontro Economia’98, de Julho (publicado pelas Edições Avante, com o título Por um mundo justo e unido), adjectivou uma certa globalização como neoliberal (ou imperialista), expressão de classe da globalização objectiva em contraponto à globalização socialista, expressão do internacionalismo. Assim, a crise está ligada, intrinsecamente, à globalização neoliberal e uma resposta (de classe) passa pela consideração de uma globalização socialista.
Aliás, na sequência desse Encontro Economia’98, de Havana, foi decidido promover um outro encontro, em Janeiro, dedicado ao tema da globaliza- ção. O que corresponde a uma feliz antecipação ao que foi decidido no Porto, na cimeira ibero-americana, parecendo que não deve, a globalização socialista, deixar de malhar no ferro enquanto está quente e deve obrigar a falar da revisão do sistema financeiro internacional. Mas não só como mudança indispensável para que tudo fique na mesma até que venha a próxima crise. Sempre com as mesmas vítimas. Com mais excluídos, mais pobres, mais desempregados, mais aplicadores de pequenas poupanças que as vêem voar para as (grandes) bolsas.

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Neste momento em que se escreve, que de crise é mas para que se podem encontrar atamancadas soluções, é significativo que o Prémio Nobel da Economia venha advertir, no Libération de 19 de Outubro — onde nada vinha sobre a ibero-americana... — para o facto do euro «reduzir sensivelmente as margens de manobra dos governos quando têm de fazer face a problemas como a subida do desemprego ou uma recessão temporária», apetecendo perguntar onde é que já se leu isto sem ter por baixo a assinatura de um Prémio Nobel.
No Guardian do dia seguinte, 20 de Outubro, uma chamada da primeira página e a totalidade da capa do suplemento, com um desenho enorme duma cara conhecida com as sempre presentes respeitáveis barbas, dizia em parangonas que He’s back e remetia para um longo artigo de duas páginas e meia no interior, de autoria de Eric Hobsbawm.
«Ele», o que teria voltado, é Marx, como já teriam adivinhado! Calcule-se a satisfação de quem acha que «ele» nunca partiu.

E ainda há quem hesite em falar de crise na globalização neoliberal!...

Sérgio Ribeiro
21 de Outubro de 1998


Portugal e a CE - Nº 32 - Julho / Agosto / Setembro 1998