O canto do Questor


Deste canto do Parlamento vê-se o Parlamento e os deputados de outra maneira. Não com outros olhos, não com outros critérios (no meu caso!), mas de outra maneira. Um pouco como Brecht dizia quando falava do efeito em V. Como quando estamos num restaurante e escolhemos a mesa e a cadeira que fica no canto da sala, naquele lugar que, de costas para a parede, nos permite observar o que e como, se estivéssemos numa mesa do centro, não poderíamos ver.

E é interessante o que vemos, embora nem sempre seja positivo ou agradável. Num lado, temos os deputados, alguns deles convencidos que, por terem sido eleitos, passaram a ser outra coisa, "eleitos" ou "elites" para tudo dizer. E que, aliás, para assim serem olhados, se candidataram, talvez pré-convencidos de que eram mesmo diferentes dos outros homens, predestinados para serem... os "eleitos". Noutro lado, temos a administração, todo o pessoal que aqui trabalha, embora com os questores só tenham trato os responsáveis, os de elevado grau hierárquico, porque a gestão do pessoal é da própria administração e não tem a ver com os questores.

Teoricamente, deveríamos ser os deputados eleitos — pelos seus "pares" — encarregados de fazer a ligação com a administração relativamente aos problemas correntes dos deputados. Ser uma espécie de pára-raios e para que os "senhores deputados" tenham colegas escolhidos por si para organizarem ou lhes tratarem dos problemas que possam ter com a administração. Mas, por vezes, a dificuldade está em encontrar a melhor forma de orientar o tal pára-raios porque os raios (e os coriscos) chovem de muito lado. Às tantas, de onde menos se espera.

Fazendo também parte da Mesa, orgão onde têm assento o presidente e os catorze vice-presidentes, apesar de não terem voto, somos por vezes confrontados com a desagradável tarefa de receber a incumbência de apresentar propostas que, de antemão, se sabe que não têm viabilidade mas que servem para "mostrar serviço" ficando para os questores o trabalho — e o odioso...

Por exemplo, não tendo os questores nada a ver com a gestão do pessoal do PE, sempre que há promoções ou mudanças de funcionários, há quem olhe para nós e nos exija a seriedade que os que a deveriam ter não revelam. Particularmente neste momento em que é vergonhosa — é o termo! — a forma como os dois enormes partidos "europeus", o PSE e o PPE, trocam influências a modos de "toma lá este lugar para ti, dá cá aquele lugar para mim". As peças deste jogo são trabalhadores...

Com os questores, connosco, tem a ver o caso da deputada que partiu um salto do sapato durante as mudanças de gabinete e quer (queria...) ser indemnizada.

Um dia, como já o disse, hei-de escrever umas "memórias de questor", ou umas "crónicas de viagem às profundezas de um parlamento...e seus parlamentares". Vindos de diferentes partes (países, nações, Estados) de uma Europa que não há moeda nem federalização que possam tornar única politicamente e, sobretudo, culturalmente.

Sérgio Ribeiro