Perguntas e Respostas
Acções Estruturais:
A Grundig e os seus (des)investimentos, ou
Rabo escondido com gato de fora




A Grundig — Indústria de Portugal viu recusado o financiamento comunitário para a realização de um misterioso «substancial projecto de investimento» anteriormente à divulgação da sua intenção de despedir os trabalhadores do complexo de Braga. Esta informação foi obtida pelo deputado Honório Novo junto da comissária Wulf-Mathies após uma longa troca de correspondência mantida entre os dois.

Fiel a uma tradição de persistência, da qual dera provas com outra comissária europeia com quem manteve correspondência durante meses, o deputado do PCP começou por levantar o problema em Dezembro de 1996, confrontando a Comissão com informações tornadas públicas na altura, segundo as quais a Grundig se estaria a preparar para vender a sua fábrica de Braga e deslocalizar a produção para a Hungria. Novo perguntava então se a Comissão «tenciona intervir nesta tentativa de deslocalização, por forma a que a Grundig venha a ser eventualmente obrigada a devolver as verbas comunitárias e nacionais que recebeu» e se houve, depois de 1994, «novos projectos da Grundig candidatos a financiamentos comunitários?».

Após responder primeiro em Janeiro que ainda se encontrava a recolher elementos, a comissária Monika volta a entrar em contacto com Honório no final de Março de 1997 dizendo que não tinha conhecimento de qualquer projecto de deslocalização da Grundig para a Hungria. Na mesma missiva enumerava alguns pequenos projectos da Grundig financiados pelo Pedip II e acrescentava que «um substancial projecto de investimento» havia sido considerado ilegal pelo comité nacional de selecção.

Estava avistado o fumo, havia que ir procurar o fogo. Na sua carta seguinte o deputado português evoca o caso da Renault-Vilvoorde, na Bélgica, para saber se a Comissão «está disposta a aprovar qualquer regime de ajuda de co-financiamento comunitário à Grundig caso se venha a verificar a intenção desta empresa multinacional em encerrar a unidade de Braga e efectuar uma deslocalização para a Hungria?». E pela primeira vez coloca o dedo na ferida: «que o substancial projecto de investimentos apresentado ao Pedip II fora rejeitado pelo comité nacional de selecção».

Eis senão quando, em Maio de 1997, Wulf-Mathies arrepia caminho e, aparentemente arrependida por ter ido longe de mais dá o caso por encerrado: «A Comissão não detém qualquer informação relativa a projectos considerados inelegíveis pelos comités nacionais de selecção». Que é como quem diz: «disse mais do que devia, mas lavo daqui as minhas mãos».

A responsabilidade era do comité nacional de selecção, logo era do governo português. Logo, para se saber mais alguma coisa teria que ser junto das autoridades portuguesas ou da própria Grundig, o que aconteceu. Os resultados foram mais que parcos. Recorrendo a evasivas ou tentando confundir este caso concreto entre outros em curso nem o governo português, nem a empresa alemã permitiram que se soubesse muito mais sobre o assunto.

Assim, e apesar dos esforços desenvolvidos, um manto de silêncio se foi abatendo sobre o assunto, com a comunicação social a desinteressar-se progressivamente sem que tenha chegado a haver um cabal esclarecimento do que estaria realmente em causa.

Aparentemente a coisa morreu. Mas as dúvidas que subsistem são suficientes para que se continue a tentar apurar que projecto era esse cuja anulação pode ter precipitado a decisão da Grundig de abandonar Portugal.