Plenário do PE
A sociedade da informação e os interesses de alguns




Intervenção do deputado Sérgio Ribeiro no debate dos relatórios sobre a sociedade de informação:

No fundo, o que se chama sociedade de informação é o resultado de um processo objectivo, da revolução tecnológica que se tem vindo a concretizar, principalmente ao nível de técnicas de informação e de comunicação. É o resultado da introdução de novas tecnologias, serviços e inovações, a ritmo quase alucinante. É, indubitavelmente, o resultado de conquistas da Humanidade.

No entanto, essas conquistas, tendo sido aceleradas por interesses egoístas e pelo motor dos negócios, têm sido apropriadas por quem as acelera, e a sua utilização está muito longe de ter em intenção o benefício de toda a Humanidade.

Bem pelo contrário! E preocupa-nos muito o papel que pode ter todo este processo na acentuação, mesmo no agravamento, das já tão graves clivagens sociais. Na verdade, parece-nos evidente que, tal como está a ser construída, a sociedade da informação agrava e acentua essas clivagens através da dualidade entre os que a ela têm acesso e os que dela estão longe, estão dela excluídos.

As emendas que subscrevemos para o relatório da colega Boogeerd-Quaak procuram reflectir esta preocupação e, a serem aceites, farão com que votemos favoravelmente o relatório como o faremos relativamente aos relatórios dos colegas Hendrick, Rubig e Ahlqvist, cumprimentando todos pelo trabalho que realizaram.

Para terminar, não posso, nem quero, calar um alerta quanto à ameaça de compatibilização de vários tipos de analfabetismo que está no bojo da sociedade de informação, tal como está a ser construída.

O analfabetismo dos que não aprendem sequer a ler, escrever e contar porque estão obrigados a viver ainda num século passado, de há já muitos séculos, e que serão parte significativa dos muitos e crescentes extractos sociais centrifugados do acesso às novas tecnologias; o analfabetismo dos que desaprendem rapidamente de ler, escrever e contar porque passaram a só saber fazer «clic» com um rato electrónico (de certo, de forma excelente...), e que já viverão num tempo futuro.

Num tempo futuro que desejo e luto para que não seja assim, pois dividirá ainda mais os homens, tendo na base cada vez mais larga do espectro social os infra-humanos e, num outro extremo, os super-homens informáticos que desconhecem Rimbaud e são indiferentes aos horrores económicos.

(28-06-97)