Plenário do PE
A Renault nos anais da história (e do PE)




A decisão da Renault de encerrar a sua fábrica de Vilvoorde, na Bélgica, provocou uma viva onda de protestos que atravessaram vários países europeus e chegaram, a Estrasburgo, ao Parlamento Europeu. Aí, no dia em que no plenário se debateu, e aprovou, uma proposta de resolução sobre o assunto, esteve presente, a convite do Grupo da Esquerda Unitária Europeia, uma delegação de sindicalistas da Renault provenientes de Portugal, Bélgica, França e Espanha, que tiveram reuniões com os diferentes grupos políticos.

Na sua intervenção em plenário o deputado do PCP, Sérgio Ribeiro, chamou a atenção para a importância que «a palavra Renault» terá quando, «daqui a décadas, historiadores e estudiosos do tempo que hoje se vive tentarem descodificá-lo».

«Através da Renault ver-se-á o que foi um tempo em que se flexibilizou e precarizou a prestação do trabalho, se reduziram direitos sociais, se modernizou, e quando os trabalhadores — que tudo isso foram levados a aceitar e a participar — julgavam que iriam ter a sua quota-parte na modernização encontraram desemprego e exclusão social.

Através da Renault perceber-se-á também — se é que tal se poderá então perceber — como é que, no princípio de 1997, uma transnacional da indústria automóvel encerrou unidades e lançou milhares de trabalhadores no desemprego porque estava em dificuldades e, ao mesmo tempo, as suas acções subiam significativamente na Bolsa de Paris.

Através da Renault ilustrar-se-á ainda como neste tempo de construção europeia entre Estados-membros, uns são muito mais iguais que outros. Porque o que aconteceu em Portugal, em Setúbal, mereceu piedosa resolução sem consequências, e o que ocorre na Bélgica suscita fortes reacções, solidariedades, manifestações, greves e até há comissário que não esconde a sua origem belga. O que não denuncio mas saúdo, lembrando outras situações e posturas em que se interpreta que ser comissário europeu significa abdicar da defesa de interesses nacionais, no caso portugueses».

Para a história pelo menos ficará a atitude dos operários da Renault que assistiam ao decorrer dos trabalhos. Perante uma provocação de um deputado do PPE, que desencadeou um enorme sururu no plenário, levantaram-se e entoaram a Internacional de punho erguido.

BEM-VINDO À EUROPA DA LIVRE CONCORRÊNCIA