Na esquina dos equívocos
Artigo de Vitor Dias
Semanário de 28 de Agosto de 1999
Reparando, e bem, no sublinhado que o PCP tem vindo a fazer sobre as nefastas consequências de uma eventual maioria absoluta do PS, o editorial do "DN" de 23/8, por entre uma nada inovadora e nada criativa repetição de "clichés" sobre o PCP, adiantava duas ideias que revelam uma grande amnésia sobre traços fundamentais da legislatura cessante e uma grossa incompreensão sobre os reais preocupações e objectivos do PCP.
Adiantando que "Carvalhas e os seus camaradas sabem do que falam", o director do "DN" opinava que "de facto, um avanço e consolidação do poder do PS, sem necessidade de suporte parlamentar para a formação de maiorias reduz a zero, para os próximos tempos, as expectativas de influência real do PCP na vida portuguesa". E, no final, concluía, com patente ligeireza e esquematismo, que para o PCP "muito mais importante que o seu próprio resultado eleitoral é o facto de o PS vir a precisar do apoio comunista no Parlamento a eleger no dia 10 de Outubro".
Repare-se bem: numa passagem, é o "suporte parlamentar" e na outra é "o apoio comunista" ao PS.
Ora, esta curiosa - mas nada inocente - maneira de dizer as coisas revela vários esquecimentos. Desde logo, o esquecimento de que, na legislatura finda, a falar-se de suporte parlamentar ao Governo do PS, o mais importante que é preciso lembrar é o que foi garantido pelo PSD e pelo PP em matérias fulcrais e decisivas ( quase todas aquelas em que se fixaram as políticas e respectivas consequências de que o PSD e o PP agora hipocritamente se demarcam). Depois há o correlativo esquecimento de que o PCP, tal como fez nos últimos quatro anos, não vê para o futuro a positiva ausência de uma maioria absoluta do PS como o terreno ideal para o PS precisar do "apoio comunista" mas como o quadro mais favorável, e tanto mais favorável quanto maior for o reforço da CDU, para travar e combater a política de direita seguida pelo PS e sobretudo fazer valer as propostas comunistas vinculadas a uma política e a um projecto de esquerda.
E, neste texto do "DN", há ainda o manifesto propósito de reconduzir as objecções a uma maioria absoluta e as advertências sobre as suas consequências a uma mera e exclusiva atitude partidária de defesa da influência e margem de intervenção próprias de quem formula tais objecções e enuncia tais advertências.
Nada mais injusto, nada mais curto e, acrescente-se, nada mais conveniente para o PS.
Entendamo-nos: o que, mais determinantemente, move o PCP contra o perigo do poder absoluto do PS não é isso (atenção que o PCP não desapareceu nem deixou de contar em muitos planos nos dez anos de maioria absoluta de um cavaquismo que decisivamente ajudou a derrotar), mas o que considera ser o interesse democrático e nacional de poupar o país a quatro anos de arrogante e quase impune desenvolvimento dos eixos mais negativos da política do Governo PS.
Dito isto, que ninguém caia entretanto na confusão, em que caiu o director do "DN", de supor que, para o PCP, o resultado eleitoral da CDU vem atrás de outras coisas.
É que vem à frente de todas, como a presença sistemática do "Mais CDU" nos materiais de comunicação perfeitamente ilustra. Porque só com mais CDU se lança uma pedrada no charco do «bloco central» inorgânico, se incomoda pela esquerda a prosápia e os planos do PS e se dá força às mudanças necessárias. Porque, em 10 de Outubro, só com mais CDU se evita o pior e se rasga o caminho para conquistar o melhor.