A página 68
Vítor Dias no "Semanário"
18 de Fevereiro de 2005

A poucas horas do fim da campanha, apenas três apontamentos.

O primeiro destina-se a contrariar a “boa imprensa” que, talvez porque se entenda que isso funciona contra o detestado Santana Lopes, tem sido oferecida à específica encenação montada por Paulo Portas para esta campanha.

Com efeito, é preciso lembrar que um mínimo de memória e de espirito crítico não devia consentir o relativo branqueamento desta personagem que manifestamente está em curso e o benevolente acolhimento que tem vindo a ser dado à sua táctica de fazer sobrar todos os odiosos para o PSD e de arrecadar todos os méritos só para o CDS-PP.

É assim preciso recordar aos esquecidos que o CDS-PP é tão responsável como o PSD pelo pesadelo destes três anos e que, mesmo no âmbito das trapalhadas e broncas finais, também aí deixou a sua contribuição, bastando lembrar a cena da mulher neta de militar que ia para a Defesa e já não foi, a ida de Celeste Cardona para a CGD e a inenarrável cena da mobilização da Marinha de Guerra contra o barco da “Women on Waves”.

Mas sobretudo é necessário recordar que, em Março de 2002, o êxito eleitoral do CDS-PP foi em boa medida sustentado nas promessas e no discurso demagógico de Paulo Portas dirigido aos reformados, aos agricultores e aos cidadãos inquietos com o problema da criminalidade e da insegurança. Ora é preciso lembrar agora que, passados três anos de CDS no Governo, a prometida aproximação das pensões ao salário mínimo se revelou uma fraude completa, que os agricultores continuaram a sofrer quebras de rendimentos e que a criminalidade aumentou 4,9% em 2002 e 6% em 2003, sem que Paulo Portas afixe qualquer “outdor” ou solte um ai sobre o assunto

O segundo apontamento visa introduzir um relevante elemento de informação sobre a questão do aumento da idade das reformas que subiu a importante tema de campanha pela voz de Jerónimo de Sousa.

O debate realizado na passada terça-feira na RTP/1 mostrou que todos os outros partidos já receberam notícias sobre a forte corrente de desagrado e inquietação que este projecto provoca entre amplos sectores do eleitorado.

E se Santana Lopes , apesar das contorções semânticas, não conseguiu negar que o aumento da idade da reforma é uma proposta do PSD, já José Sócrates voltou a querer fazer crer que o PS não teria nenhuma proposta neste sentido, ficando-se apenas pelo combate às reformas antecipadas (que, por sinal, os governos do PS estimularam) e pela elaboração de estudos sobre a sustentabilidade futura do sistema de segurança social.

Acontece porém que não só o aumento da idade da reforma para os 70 anos foi uma das primeiras “fugas” para a imprensa organizadas pelo PS como sobretudo na página 68, na 12ª linha, do Programa do PS se afirma explicitamente que “é condição essencial que a idade da reforma vá acompanhando a evolução da esperança média de vida”.

Assim sendo, importa que ninguém se fie nos recuos verbais feitos agora em campanha, importa que todos os que justamente se indignam com este projecto insensato, errado e desumano o ajudem a enterrar definitivamente com uma forte votação na CDU tanto mais facilitada quanto é certo que a direita está derrotada e que o PS vai ficar para aí uns 10 pontos à frente do PSD, pelo que menos uns pontos não lhe farão qualquer falta e mais uns pontos na CDU já farão toda a diferença nesta e noutras questões.

O terceiro apontamento visa abordar o que talvez possa ser considerado a história mais mal contada desta campanha eleitoral e que se cifra na forma como os partidos - PSD, PS e CDS - que, desde 1976, têm governado Portugal fogem a um corajoso exame crítico das suas inerentes responsabilidades na grave situação em que – todos o dizem - o país se encontra.

De facto, tirando umas justas e insistentes chanfalhadas no pesadelo dos últimos três anos de governos da direita e umas retribuições sobre os seis anos do chamado “guterrismo”, dir-se-ia que o passado só vai até aí, o que é manifestamente pouco para soluções governativas que ao todo duraram 28 anos e já envolveram todas as combinações possíveis entre o PSD, o PS e o CDS-PP.

Com isto, o que queremos dizer é que um módico de seriedade e de real respeito pelos eleitores devia levar estes partidos não apenas a enunciarem diagnósticos - que até podem ser relativamente consensuais- sobre os problemas estruturais ou de fundo do país mas sobretudo a confessarem que fracassos políticos seus é que explicam que, passados tantos anos, de cada vez que se desmorona um ciclo de ilusões, se redescubra a subsistência, porventura agravada, dos mesmos problemas cuja solução foi tantas vezes dada como encaminhada.

Em poucas palavras, que têm para nos dizer os partidos que não há muitos anos proclamavam que Portugal já estava ou ia estar em breve no “pelotão da frente”, que Portugal estava “na moda” ou que Portugal estava “no centro da construção europeia” ? O que nos têm para dizer dos milhares de milhões de contos de fundos comunitários recebidos e que deviam ter sido uma oportunidade de ouro para modernizar o nosso aparelho produtivo e o seu perfil de especialização e, pelos vistos, comprovadamente não foram.? O que nos têm a dizer sobre o facto de hoje se falar tanto – e bem - da necessidade de qualificação da mão-de-obra nacional apesar das centenas de milhões de contos aplicados em cursos de formação profissional ? E por aí adiante de perguntas incómodas mas pertinentes.

Jamais responderão porque vêem as eleições como uma grande gala do ilusionismo e porque não querem que faça caminho a ideia de que é tempo de dar uma oportunidade aos que, como o PCP, não têm tido responsabilidades governativas e bem podem dar uma relevante contribuição para novos caminhos, novas orientações e novas políticas.