Intervenção do Deputado
Lino de Carvalho
Pedido de esclarecimento à Ministra do Planeamento
no decorrer do debate na generalidade
do Orçamento do Estado para 2000
18 de Fevereiro de 2000
Sr. Presidente,
Sr.ª Ministra do Planeamento
Seria suposto que as Grandes Opções do Plano constituíssem
um documento definidor dos objectivos estratégicos das políticas
do Governo e enquadrador do Orçamento do Estado. Mas e espero
que a Sr.ª Ministra o reconheça as Grandes Opções
do Plano não são nada disso. Temos um mar de palavras pós-modernistas,
muito na linha do discurso da «terceira via» do Partido Socialista,
enxurradas de palavras e de frases feitas que, depois, não têm
qualquer concretização.
Aliás, não somos apenas nós que dizemos isto, Sr.ª
Ministra. O parecer do Conselho Económico e Social, que ignoro se a
Sr.ª Ministra leu, diz, exactamente, que as medidas de política
apresentadas nas GOP continuam a ter um carácter demasiado vago, não
existindo em todo o documento nenhum planeamento quantitativo que permita
compreender de forma clara os meios e as formas que serão utilizados
para a prossecução dos objectivos fixados.
Poderíamos dar múltiplos exemplos, mas não temos tempo
para tal nem, do ponto de vista da generalidade, é isso que está
em cima da mesa.
Mas há mais. A propósito das GOP, do Plano Nacional de Desenvolvimento
Económico e Social e dos documentos preparatórios do II Quadro
Comunitário de Apoio, a Sr.ª Ministra refere muito a participação,
o envolvimento, o diálogo. Ora, Sr. Ministra, tenho ideia que há
aí uma confusão entre diálogo e participação
e simulacro de diálogo e de participação.
É que o Governo finge que dialoga, finge que envolve os parceiros,
finge que ouve, mas, depois, não toma minimamente em consideração
as opiniões que surgem desse alegado diálogo. Também
aqui não sou apenas eu que o digo, é o parecer do Conselho Económico
e Social. O referido parecer é claro quando afirma que o pedido que
lhe é dirigido de emissão de parecer sobre as GOP, que, como
sabe, é obrigatório nos termos da lei, mais parece um simulacro
de participação. É que o Conselho Económico e
Social sente que as suas opiniões não têm qualquer relevância
para a definição das políticas do Governo e, mais, que
nenhum dos documentos que sustentam o parecer emitido sobre as GOP é
entregue a quem tem de dar esse parecer.
Por isso, Sr.ª Ministra, a primeira questão que lhe coloco é
idêntica à pergunta que lhe faz o Conselho Económico e
Social. Qual é, hoje, a real utilidade das Grandes Opções
do Plano, se não para encobrir, no plano do discurso, a falta de quantificação
de políticas concretas ao nível do Orçamento que correspondam
àquele discurso?
A segunda questão tem a ver com um outro aspecto.
A Sr.ª Ministra referiu o crescimento do PIB e as aproximações
às médias europeias.
O Governo apresenta um valor de crescimento para o PIB de 3,3%, salvo erro.
A União Europeia apresenta 3%. Vamos supor que estes valores são
exactos e que, ao contrário do que diz o Conselho Económico
e Social, não há excesso de optimismo nas projecções
macro-económicas do Governo.
Ora, aqui há uns anos, com o diferencial que havia, calculava-se que
seriam necessários 30 a 40 anos para nos aproximarmos do nível
de desenvolvimento médio da União Europeia. Perante os actuais
diferenciais de crescimento, Sr.ª Ministra, mesmo supondo que são
reais, quanto tempo tem de caminhar o País para se aproximar do nível
de desenvolvimento da União Europeia? 100 anos? 80 anos, Sr.ª
Ministra? Qual é a resposta a esta questão?