Desconfiança total

Artigo de Vitor Dias

«Avante!»
28 de Dezembro de 2000

Não, não vimos falar dos sete meses de demora na entrega do relatório de autópsia de Hugo Paulino de que se queixa o seu pai.

Não, não vimos falar da inesquecível declaração de autoridades militares portuguesas de que têm "confiança total" na NATO.

Não, não vimos falar de todos quantos, como o Governo, têm responsabilidades públicas e oficiais no esclarecimento da questão dos riscos que o urânio empobrecido representa para os soldados portugueses no Kosovo e que, entretanto, devem julgar que não temos acesso a tudo quanto de devastador, detalhado e inquietante se está escrevendo e publicando na Itália ou em Espanha sobre o problema. E que inclui não poucas queixas de militares quanto à sonegação de informação por parte dos norte-americanos e não poucas confissões de ministros que acabam por pôr em evidência que no "sistema NATO" eles são um verbo de encher que não sabe da missa a metade

Não, hoje vimos sim falar da imperiosa, prioritária e crucial necessidade de proteger a saúde e a vida dos militares portugueses que nunca deviam ter ido para o Kosovo e donde, por justa decisão política, deviam regressar urgentemente, como o PCP reclamou explicitamente na última Festa do "Avante!".

Mas, por causa dos cínicos e dos falsos distraídos, vimos sobretudo lembrar que as bombas com urânio empobrecido foram usadas na Guerra do Golfo, na Bósnia em 94-95 e só depois no Kosovo, com efeitos de há muito conhecidos sendo de recordar que até no "Expresso" de 6.3.99, numa reportagem sobre o Iraque, uma foto dramática tinha como legenda que "o urânio e o plutónio das bombas fizeram aumentar três a quatro vezes o número de crianças com leucemia e nascidas com malformações".

Vimos sobretudo lembrar que seria de um egoísmo a toda a prova se, justa e compreensivelmente preocupados com os nossos compatriotas, nos esquecêssemos das populações civis vítimas em larga e maior escala das contaminações mas, ao que parece, sem direito a grandes destaques noticiosos. Talvez porque a NATO entenda que ter escapado à morte directamente causada pelos bombardeamentos não dá a ninguém o direito de se julgar livre de morrer por efeito indirecto dessas bombas.

E, por fim, vimos lembrar que, por detrás do caso das consequências do "urânio empobrecido", o que espreita são sobretudo as cumplicidades de uma política externa mimeticamente seguida quer pelo PSD quer pelo PS e das quais a honra e a dignidade nacionais saem muito mais do que empobrecidas.