As bombas de urânio da NATO
continuam a matar em Bratunac
Artigo de Dubravka Vujanovic
«Avante!»
25 de Janeiro de 2001
As bombas de urânio da NATO continuam a matar em Bratunac. A cada três
dias morre uma pessoa. Já não há espaço nos cemitérios.
A vítima mais recente tem 20 anos de idade.
A aldeia está vazia, o cemitério cheio. Em breve já não
haverá espaço para os mortos. Entre as famílias de refugiados
que se mudaram de Hadzici para Bratunac dificilmente haverá alguma que
não esteja coberta de luto.
A campina ao lado do cemitério estava quase totalmente vazia há
cinco anos, quando eles chegaram. Hoje, um ao lado do outro, separados por espaços
de menos de meio metro, jazigos atrás de jazigos. Sobre eles há
coroas de flores, algumas com flores que ainda não murcharam. Gravadas
nas cruzes os anos da morte: 1998, 1999, 2000. E no extremo da fila o jazigo
de uma jovem de 20 anos. Ela morreu há poucos dias.
São estes quadros horríveis que o visitante casual encontrará
em Bratunac, Bósnia oriental. As primeiras histórias acerca da
aldeia conduzi-lo-ão ao cemitério. Os habitantes de Bratunac vivem,
ao passo que os de Hadzici já morreram. De repente, da noite para o dia,
após uns poucos dias de doença, no maior sofrimento. É
o cancro. Qualquer tentativa de explicar o que está a acontecer conduz-nos
de volta ao ano de 1995.
Cinco anos atrás Hadzici era parte de algo chamado o Sarajevo sérvio.
Os seus habitantes sobreviveram ao duplo envolvimento do exército muçulmano
e ao que foi provavelmente o mais intenso bombardeamento jamais visto. Só
num dia, os aviões efectuaram 200 missões de voo e despejaram
mais de 500 bombas sobre este município. Os residentes em Hadzici sobreviveram.
Sobreviveram à guerra, mas não à paz.
Primeiro, disseram, foram traídos em Dayton em Novembro de 1995. Algum
responsável lançou a ideia de que a melhor coisa a fazer seria
mudarem-se de Hadzici para Bratunac. Não havia escolha e o tempo era
escasso. Quase na mesma noite, antes de a delegação de paz ter
retornado ao país ainda em suspenso acerca da assinatura do acordo, os
nativos de Hadzici empacotaram os seus bens, meteram-se em camiões e
tractores com reboques e dirigiram-se para Bratunac, uma pequena vila entre
Zvornik e Srebrenica.
Não era um movimento habitual. Durante a noite os habitantes de Hadzici
desenterraram os seus mortos e carregaram-nos em reboques. Nem um único
"ouvido sérvio" foi deixado naquela parte do Sarajevo sérvio.
Apesar de terem transferido uma espantosa quantidade de 156 urnas funerárias,
não tiveram problemas para alojar os seus mortos. Uma zona inteira do
cemitério estava vazia e eles enterraram-nos uns juntos dos outros.
Ninguém podia imaginar que, apenas em dois ou três anos, a parte
do cemitério deixada vazia estaria duplamente cheia.
Estranho silêncio
"Primeiro começaram a morrer os mais velhos. Os seus corpos devem
ter apresentado menos resistência às doenças inexplicáveis
que depois também começaram a ceifar as vidas dos mais jovens.
Acontece muitas vezes que subitamente um natural de Hadzici morre. Ou então
vão ao médico em Belgrado e quando voltam os seus parentes contam-nos
que estão a morrer de cancro. E isto não acontece com os nativos
de Bratunac, só connosco", conta-nos Sretko Elez, um homem com 60
anos de Hadzici.
Acreditava-se que era uma questão de destino. Então a médica
chefe Slavica Jovanovic perguntou como era isto possível. Ela dirigiu
uma investigação e provou que em 1998 a taxa de mortalidade excedia
em muito a taxa de natalidade. Demonstrou que isso não era só
uma questão de acaso, mas algo muito mais sério. A liderança
política estava informada mas até àquela data ninguém
havia dito uma palavra a respeito. Equipas de televisão estrangeira chegavam
diariamente a Bratunac, patologistas perguntam acerca daquela anónima
pequena aldeia, enquanto Baja Luka e Belgrado permanecem silenciosas.
"Mesmo Zoran Stankovic, o renomado patologista da Academia Médica
Militar (VMA) determinou que mais de 200 dos seus pacientes desta área
morreram de cancro, provavelmente devido aos efeitos do urânio empobrecido
despejado com as bombas da NATO cinco anos atrás. Mas alguém rapidamente
o silenciou e tudo foi abafado de cima para baixo. Ninguém saberia o
que estava a acontecer connosco nestes dias se eles próprios não
houvessem encontrado o mesmo destino, se não tivessem começado
a morrer. Só agora começam a perguntar-se a si próprios
o que acontecerá se o mesmo que ocorreu com os sérvios de Hadzici
começar a verificar-se por toda a Sérvia", diz amargamente
Nedeljko Zelenovic, um repórter da Rádio Bratunac e refugiado
também de Hadzici.
Zelenovic perdeu o pai há poucos meses, de cancro dos pulmões.
Cerca de 20 pessoas morreram em apenas seis meses. Se alguém fizer as
contas, conta-nos, concluirá que um nativo de Hadzici morre a cada três
ou quatro dias.
E eles começam a recordar. Ratko Radic, o antigo presidente da Câmara
Municipal de Hadzici, morreu há poucos meses. O diagnóstico foi
cancro dos pulmões. Logo a seguir, a sua esposa Ljilja, que foi ferida
durante os bombardeamentos. Morreu de leucemia. E depois Drago Vujovic, Dejan
Jelicic, Mihajlo Andric...
"Você vê, o nosso cemitério está cheio de tumbas
recentes enquanto as pessoas do Vinca (Instituto Nuclear) afirmam que o urânio
não é perigoso. Que outra espécie de evidência precisa
você se as pessoas estão a morrer? Se estão a morrer todos
os dias? Vá ao cemitério e veja por si própria. Isto mostra
as mentiras do Vican", diz Elez amargamente. "Hoje estou saudável,
amanhã, quem sabe... Talvez o meu corpo seja mais forte e a doença
não consiga apanhar-me..."
Estão receosos do que o futuro vos pode reservar?, perguntámos
na despedida de Hadzici.
"Já não temos medo de mais nada. Sobrevivemos à guerra,
à fome, à expulsão... Temos de morrer de qualquer forma,
mais cedo ou mais tarde..."
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No lugar onde caiu a bomba Hadzici foi bombardeada por várias razões. Uma delas era
porque alegadamente Radovan Karadzic estaria ali escondido. Neste subúrbio
havia várias fábricas e quartéis com espessas paredes
de betão e caves que não podiam ser invadidas. Sretko Elez
afirma que foi por esta razão que eles usaram urânio - porque
é mais pesado do que o chumbo e mais apto a perfurar a estrutura
dos edifícios. Oito mil pessoas desapareceram "Em Abril de 1996 cerca de 16 mil refugiados foram relocalizados
em 66 municipalidades da antiga República Federativa Socialista
da Yugoslávia. Segundo o recenseamento feito no fim do ano passado,
há 8200 destas pessoas que nos deixaram. Se sabemos que aproximadamente
400 pessoas foram embora, sobretudo para o estrangeiro, pergunto a mim
mesmo o que aconteceu a quase 8000 pessoas. E porque o Estado permanece
em silêncio acerca disso", diz Nedeljko Zelenovic. E acrescenta:
"Está-lhes a acontecer provavelmente algo semelhante ao que
ocorre com os nativos de Hadzici porque todos eles foram deslocados dos
seus lugares após o bombardeamento da NATO de Setembro de 1995". ______________ (in "Nedeljni Telegraf", Belgrado, Nº 246,
10/Jan/2001)
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