Síndroma dos Balcãs
Artigo de Domingos Lopes
«Avante!»
18 de Janeiro de 2001
Os problemas de fundo da Jugoslávia e dos Balcãs não se
resolviam e não se resolveram com uma guerra de agressão a um
país soberano e independente. Na feliz expressão de François
Mitterrand, não se resolve um conflito acrescentando-lhe mais guerra.
O certo é que os EUA em véspera de imporem o novo conceito estratégico
da NATO empurraram os seus aliados para uma aventura cujo objectivo anunciado
não tinha a ver com o pretendido.
Assim é hoje cada vez mais claro que não foram objectivos humanitários,
mas objectivos de domínio económico, político e militar,
que levaram à guerra contra a Jugoslávia.
Nunca é demais lembrar que o maior êxodo de kosovares albaneses
ocorreu depois do início dos bombardeamentos assim como uma autêntica
limpeza étnica com a perseguição e fuga de dezenas de milhares
de sérvios do Kosovo.
Os EUA e NATO usaram na guerra contra a Jugoslávia novas e sofisticadas
armas desde as bombas de grafite passando pelos mísseis de cruzeiro até
às balas com urânio empobrecido. A Jugoslávia viveu sob
um dilúvio de bombardeamentos dos mais modernos armamentos de destruição
e morte. Sob o efeito dos corifeus da nova ordem mundial os "media"
louvaram esta nova arte de destruir, apresentando-a como uma guerra "pura",
"cirúrgica" e "limpa". Por aqui andaram os que se
encantaram com o dilúvio de bombardeamentos sobre Jugoslávia.
Em nome de um sistema político prenhe de injustiças e tão
cheio de marginalizados, os EUA e a NATO para "corrigir" o nacionalismo
sérvio no Kosovo desencadearam uma guerra que na verdade se orientou
para destruir um país e humilhar um povo.
Ao lado do "Big Brother" os membros da NATO participaram nesta crueldade
suprema. Os resultados já são conhecidos e outros começam
a ganhar as proporções de um gigantesco escândalo.
Afinal o urânio empobrecido disparado contra as populações
no Kosovo (kosovares sérvios, kosovares albaneses, ciganos e outros)
e que está a criar-lhes doenças em série, também
mata os próprios soldados das forças dos outros países
da NATO. Ao que parece se o urânio empobrecido apenas dizimasse as populações
(sérvias ou albanesas), as consciências doridas do Ocidente ficariam
tranquilamente a assistir por uma qualquer via a estas mortes da civilização
made in USA e NATO. O drama parece ser que matando à farta na Jugoslávia
também mata os soldados que lá estavam para matar... Bem o sabiam
os que ordenaram os bombardeamentos. E mais devem saber que não dizem.
O certo é que esta política dos EUA e da NATO assenta no domínio
e na mentira.
Os seus autores tinham plena consciência do que iam fazer, do que fizeram
e de todo o rol de destruição e mortes que semearam. Os seus responsáveis
estão em Washington, Londres, Bruxelas, Bona, Paris, Madrid, Lisboa e
não vão ao Tribunal de Haia.
Porém os mortos na Jugoslávia e os que morrem por lá terem
estado exigem que a opinião pública se levante e exija esclarecimentos
e responsabilidades.
É de exigir ao governo português que esclareça e não
minta, que fale da toxidade do urânio e não da sua radioactividade,
que cancele a ida de novos contingentes e que faça regressar as tropas.
E que todos pensemos que mesmo que as tropas da NATO não comam nenhum
alimento que não seja dos seus países da NATO, que respirem por
máscaras, a seu lado as populações da Jugoslávia
comerão o que os seus campos, rios, mar e indústrias lhes fornecerem,
respirarão o seu oxigénio e morrerão de diversos tipos
de cancros. Só isto bastava para demonstrar o carácter criminoso
desta guerra.