Uma monstruosa mentira
a esconder a incúria
«Avante!»
11 de Janeiro de 2001
A utilização de armas radioactivas no Iraque, Bósnia e Jugoslávia é um crime contra a humanidade, mas os países da NATO não assumem a responsabilidade.
A sucessão de casos mortais de cancro e de leucemia, para além
de outras doenças mais ou menos graves, registada em militares ao serviço
da NATO, está a provocar uma verdadeira tempestade política no
seio dos países da Aliança.
Timidamente, primeiro, em catadupa, depois, as informações começaram
a chegar de todos os lados, obrigando os responsáveis militares e políticos
a sair a público com explicações esfarrapadas que não
convencem ninguém. Aos desmentidos iniciais sobre qualquer relação
entre a estranha doença - síndrome dos Balcâs ou síndrome
do Golfo, como lhe chamam - e a utilização de armamento com urânio
empobrecido, seguiram-se os anúncios de investigações científicas.
Para o Kosovo seguiram equipas de especialistas de vários países,
cujos relatórios "independentes" se anunciam para breve, no
pressuposto de que até lá as populações aguardem
calmamente o veredicto.
Tudo isto poderia ser normal, mas não é, e não apenas por
as "investigações" agora em curso pecarem por tardias.
Na verdade, a investigação existe, e de longa data, foi divulgada
por diversas fontes de que o "Avante!" se fez eco ao longo dos últimos
anos - em contracorrente à generalidade da imprensa portuguesa -, e sistematicamente
ignorada pelas entidades responsáveis.
Dizer, como faz o Governo português e os restantes governos dos países
da NATO, que não existe nenhuma prova científica que permita estabelecer
uma ligação directa entre os dois síndromes e o contacto
com urânio reciclado é uma monstruosa mentira.
Um artigo do norte-americano Dan Fahely, divulgado em Maio de 1999 pela Laka
Foudation, revela que em já 1974, ou seja 17 anos antes da utilização
de armas com urânio empobrecido na Guerra do Golfo, um grupo de estudos
do Ministério da Defesa dos EUA avisava que "Em situações
de combate implicando a utilização corrente de munições
com urânio empobrecido, as possibilidades de inalação, de
ingestão ou de implantação de compostos de urânio
empobrecido podem ser localmente importantes". Em Julho de 1990, também
um fornecedor do exército americano advertia: "As exposições
dos soldados ao urânio empobrecido sob a forma de aerosol num campo de
batalha poderão ser importantes e ter efeitos radiológicos e toxicológicos...
Nas condições de combate, os indivíduos mais expostos são
provavelmente as tropas terrestres que penetrem no campo de batalha após
uma tropa de tiros de munições anti-tanques, estejam a pé
ou motorizadas".
Crime contra a humanidade
O silenciamento deliberado dos riscos da exposição ao urânio
empobrecido, cuja responsabilidade cabe em primeiro lugar aos EUA, não
pode servir de pretexto aos restantes países Aliados. Antes do mais porque
negligenciaram informação, disponível, sem cuidar das consequências
para as populações alvo das chamadas "intervenções
humanitárias", e porque não acautelaram a segurança
dos militares e pessoal de apoio dos respectivos países.
É significativo, por exemplo, que na Alemanha a presidente da comissão
de ética do Bundestag, Margot von Renesse (SPD), exija agora a criação
de uma comissão de inquérito do Parlamento para esclarecer quem
no governo sabia do emprego de munições de urânio, cuja
utilização classifica de "crime contra a humanidade".
De acordo com informações vinda a público, o almirante
Schähling afirma ter escrito em Julho de 1999 uma carta ao ministro da
Defesa, Scharping, alertando para o perigo e informando sobre o síndrome
do Golfo. Não foram tomadas medidas. Uma situação idêntica
à que se regista em Portugal, em que o Governo sabia dos riscos de continuação
mas optou por acreditar na tese de que eram "virtualmente nulos".
Os políticos que hoje invocam "desconhecimento" ou falta de
"provas científicas" passam em claro testemunhos como os dos
professores Monak e Akran, de Bagdad, cujas estatísticas revelam os inexplicáveis
aumentos do cancro do pulmão e do peito, leucemia e síndromas
do sistema linfático nas regiões mais bombardeadas pelos pilotos
americanos (no Iraque o número de vítimas eleva-se a centenas
de milhar, e ainda hoje morrem seis mil crianças por mês devido
aos efeitos das radiações). Ou ainda os resultados idênticos
obtidos na Jugoslávia pelo oncologista de renome internacional, professor
Dejan Dimov, segundo o qual o número de doentes cancerosos aumentou em
cerca de 30 por cento depois dos bombardeamentos de 1999 (as munições
radioactivas não foram lançadas apenas no Kosovo, mas também
no centro de Belgrado e noutras cidades sérvias).
Que estamos perante um crime contra a humanidade não restam dúvidas.
Mas será que algum destes criminosos se irá sentar no banco dos
réus do Tribunal Internacional?