Armas de urânio
A ponta do icebergue
Artigo de Anabela Fino
«Avante!»
25 de Janeiro de 2001
O rol de declarações contraditórias, de desmentidos formais e de mentiras descaradas dos últimos dias revela até que ponto os responsáveis políticos e militares dos países membros da NATO estão desorientados com a polémica gerada em torno das armas com urânio empobrecido (depleted uranim, DU). Numa altura em que já não restam dúvidas estarmos perante a ponta de um iceberg de dimensões e consequências incalculáveis, é de temer que uma cortina de silêncio caia sobre o assunto.
Poucos dias passaram desde que um comunicado do Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) confirmou a detecção de plutónio
e de um isotópico artificial do urânio (236) no teatro de guerra
dos Balcãs, mas já são outros os temas que ocupam as primeiras
páginas dos órgãos de informação. Dir-se-ia,
no que toca a Portugal, que a promessa de análises completas e rigorosas,
feita pela equipa científica que se deslocou aos Balcãs, bastou
para colocar uma pedra sobre o assunto. E no entanto, uma pequena discrepância
salta desde logo aos olhos mais desatentos: se os cientistas, como afirmaram,
necessitam de dois meses para apresentar as suas conclusões, como é
possível dizer desde já que está tudo bem com o pessoal
que prestou ou presta serviço nas zonas de risco?
A insistência com que se tem falado da normalidade dos níveis de
radiação assemelha-se cada vez mais, à luz dos factos que
vêm sendo divulgados, a uma manobra de diversão. De acordo com
a opinião de reputados cientistas das mais diversas nacionalidades, o
perigo está menos na radioactividade do que na toxicidade das munições
utilizadas. E se, como revelou o PNUMA, para além de munições
de urânio empobrecido foram utilizadas munições com urânio
reciclado, a toxicidade é ainda maior e de proporções desconhecidas.
A semana passada, numa audição promovida no Parlamento Europeu
pelo Grupo da Esquerda Europeia Unitária/Esquerda Verde Nórdica,
Abraham Béhar, presidente da Associação Internacional dos
Médicos pela Prevenção da Guerra Nuclear, e Prémio
Nobel da Paz em 1985, revelou que as evidências acumuladas e os estudos
epidemiológicos já feitos identificam dez síndromas e patologias
coincidentes entre as vítimas militares e civis nos teatros de guerra
do Golfo (1991) e dos Balcãs (1994 e 1999). As diferenças respeitam
apenas ao tempo em que os efeitos se manifestam. Como não admitir então
a existência de uma causa comum?
Insignificâncias...
A exemplo do que haviam feito em relação ao uso de armas com
urânio empobrecido, a NATO e o Pentágono minimizam agora os perigos
para a saúde pública que podem resultar dos vestígios de
plutónio encontrados nos Balcãs. O porta-voz da Aliança,
Mark Laity, afirmou que "se sabe desde há algum tempo que pode haver
traços de urânio 236 e de plutónio no urânio empobrecido",
mas garantiu que "de acordo com peritos independentes, foram encontrados
em níveis tão baixos que não representam nenhum motivo
de preocupação". Citando um relatório dos EUA datado
de 13 de Dezembro, Laity assegura, por outro lado, que os vestígios de
plutónio encontrados são tão insignificantes que "do
ponto de vista sanitário, a presença de quantidades tão
pequenas de plutónio é irrelevante".
Idêntica é a posição do Pentágono, para quem
esses "restos" de plutónio são "cientificamente
insignificantes". Segundo o tenente-coronel Paul Phillips, os vestígios
de plutónio foram detectados nas existências de urânio enriquecido
que o Departamento de Energia fornece ao Departamento de Defesa para fabrico
de munições.
... para quem?
"Insignificante" será certamente uma classificação
que 100 000 norte-americanos e pelos menos 6000 britânicos, veteranos
da guerra do Golfo, não usam para descrever o estado em que se encontram,
dez anos depois de terem participado na guerra.
Num encontro realizado a semana passada em Madrid, no âmbito da Campanha
pelo Levantamento das Sanções contra o Iraque, a sargento norte-americana
Carol Picou e o oficial britânico Ray Bristow deram conta das suas dramáticas
experiências.
Picou, enfermeira, esteve no Golfo em 1991, integrando uma unidade de 150 elementos;
40 dos seus companheiros adoeceram rapidamente, e dez deles morreram. Ela adoeceu
ao regressar aos Estados Unidos. Hoje sofre de danos cerebrais, dores musculares,
incontinência, entre outros problemas. Não recebe nenhuma ajuda
médica do Pentágono, que a dispensou em 1995, porque aquela instância
não considera existir qualquer relação entre a sua estranha
doença e a participação na guerra.
Ray Bristow esteve na Arábia Saudita apenas entre Janeiro e Março
de 1991, mas apresenta um nível de urânio no seu organismo cem
vezes superior ao normal. Bristow sofre de danos cerebrais, dores nas articulações,
fadiga crónica, claustrofobia, entre outras coisas, sendo forçado
a deslocar-se numa cadeira de rodas. Tal como a sua congénere norte-americana,
não recebe ajuda médica oficial.
Ambos os veteranos acreditam que os casos conhecidos da "síndroma
dos Balcãs", em tudo idêntica à "síndroma
do Golfo", são apenas a ponta do iceberg de um drama ainda por descobrir,
e aconselham que se tomem medidas para que a sua experiência não
se repita.
Esta semana, enquanto os prosseguiam as garantias de não haver nenhuma
prova científica que ligasse as armas utilizadas no Golfo e nos Balcãs
à "misteriosa doença", foi declarado o primeiro conhecido
entre os soldados russos no Kosovo. À falta de "provas", sobejam
os casos, e ainda nem sequer se conhece, com profundidade, a situação
das populações dos países bombardeados... por razões
ditas humanitárias.