A "parvoíce" de Scharping
ou o exemplo alemão
Artigo de Anabela Fino
«Avante!»
25 de Janeiro de 2001
O ministro alemão da Defesa, Rudolf Scharping, acordou a semana passada
cheio de preocupações. Quer agora saber, "com toda a preocupação
que suscita a palavra plutónio", que armas usaram os amigos norte-americanos
nos Balcãs.
É uma preocupação tardia. Como recordou Klaus Bednarz,
director do programa da ARD "Monitor", no passado dia 18, "já
há dois anos, durante a guerra do Kosovo, que o "Monitor" informou
sobre os perigos para a saúde das populações e dos soldados
resultantes das munições de urânio".
Nessa altura, lembrou o jornalista, o ministro reagiu da seguinte forma: "O
que o "Monitor" diz é uma parvoíce".
As consequências da "parvoíce" estão à
vista: "Hoje há casos de leucemia e de outros tipos de cancro entre
os soldados que estiveram em contacto com os restos de urânio. Mas segundo
as nossas investigações, não se trata só de urânio
mas também de uma substância ainda muito mais perigosa, o plutónio."
A confiança de Scharping era ainda uma evidência em 10 de Janeiro
de 2001, quando disse taxativamente que "não existe um risco de
contaminação, uma vez que as radiações de urânio
são inferiores às radiações naturais". Estranha
convicção esta, até porque o "Monitor" já
tinha mostrado em Abril de 1999 um vídeo de treino do exército
americano em que os resíduos de uma granada de urânio são
removidos com fatos de protecção e máscara. Nesse mesmo
vídeo, lembra Klaus Bednarz, diz-se: "se não se tomarem estes
cuidados existe perigo de morte".
O programa da ARD mostrou ainda imagens de crianças no Kosovo a brincarem
com os restos de um tanque destruído por granadas de urânio da
NATO, sublinhando que ninguém as avisou de que se encontravam em "perigo
de morte". Na óptica de Scharping isso seria certamente "uma
parvoíce".
Segredos e mentiras
A ocultação de informação na Alemanha vem de longe.
Notícias vindas a público recentemente dão conta do resultado
dos exames a que foram submetidos, desde 1990, os 99 soldados que manipulam
aviões de guerra com radares (Avak): 66 adoeceram com cancro, e destes
já morreram 22. As idades das vítimas não ultrapassam os
40 anos.
O governo alemão sabia e nada disse. Tal como Scharping não disse
que, imediatamente após a emissão do "Monitor" de Maio
de 1999, especialistas do Ministério da Defesa chegaram à seguinte
conclusão: "Na montagem de acantonamentos é necessário
evitar terrenos onde se tenha verificado uma contaminação por
rebentamento ou onde as poeiras tenham contaminado os solos."
Ainda segundo o "Monitor", cuja reportagem mostrou soldados do exército
jugoslavo em Presevo juntando granadas de urânio da NATO que não
chegaram a rebentar, bem como o local onde estão guardadas em Belgrado,
desde princípios de 2000 que o Ministério da Defesa alemão
possui informações fornecidas pelo Ministério da Energia
dos EUA sobre a existência de Plutónio nessas granadas fabricadas
com resíduos de centrais atómicas. E nada disse.
O que falta, na Alemanha como em Portugal, na Itália como na França
ou em qualquer outro país da NATO, não é informação
mas uma política de verdade e de preocupação com os povos.
Como afirma o cientista militar norte-americano Dan Fahey, "as investigações
feitas pelo Ministério da Defesa dos EUA provaram que as munições
de urânio provocam cancro. Este estudo foi feito nos últimos dez
anos. E existem também os estudos resultantes da guerra do Golfo sobre
os efeitos das munições de urânio, que provam que logo que
esta substância é ingerida quer através do ar que se respira
ou da cadeia alimentar provoca cancro". Por isso mesmo Doug Rokke, físico
dos EUA, não hesita em afirmar que a NATO, quer na Bósnia quer
no Kosovo, contaminou propositada e conscientemente regiões inteiras.
Quem pode pois, dos responsáveis, evocar desconhecimento? Negar o crime
é típico dos criminosos, mas nunca foi prova de inocência.
E este é um crime contra a humanidade.