Efeitos colaterais?
Artigo de Anabela Fino
«Avante!»
11 de Janeiro de 2001
Primeiro foi a "Síndrome do Golfo", agora é a "Síndrome dos Balcãs". As semelhanças entre os dois fenómenos são por demais evidentes: as vítimas estiveram todos num teatro de guerra onde foram abundantemente utilizadas armas com urânio empobrecido, apresentam problemas de saúde com sintomas idênticos, e os casos mortais devem-se às mesmas deficiências e/ou insuficiências.
Dizem alguns especialistas da NATO, dos EUA e de outros países que não
existe nenhuma prova científica que permita estabelecer uma ligação
directa entre os dois síndromes e o contacto com urânio reciclado.
Mesmo admitindo que isso fosse verdade, a questão de fundo permanece:
um vasto número de soldados sujeitos a causas similares registam efeitos
análogos. Porquê?
Será que durante os dez anos que separam os eventos que deram origem
à misteriosa doença - ao contrário do que algumas declarações
oficiais pretendem fazer crer não se está perante nenhuma novidade
- ninguém estranhou tanta coincidência e se interrogou sobre as
suas causas?
É difícil acreditar em tamanha distracção, sobretudo quando no meio tempo entre os "ataques cirúrgicos" ao Iraque e os "ataques humanitários" ao Kosovo foram detectados mais de 90 000 casos "inexplicáveis" em soldados norte-americanos que participaram na guerra do Golfo. É igualmente difícil conceber que, por mais silenciada que tenha sido, a dramática situação em que se encontra a população iraquiana, com centenas de milhar de vítimas mortais, tivesse passado despercebida. Nem o "maligno" senhor de Bagdad tem poder para provocar tantos casos de cancro e leucemia como os que continuam a matar milhares de crianças por mês.
Também não é crível que as mais de duas dezenas de mortes, uma trintena de casos de doenças cancerígenas, e mais de mil situações anómalas de menor gravidade agora vindas a público - tal é o balanço possível da "Síndrome dos Balcãs" no que toca aos militares ao serviço da NATO -, sejam atribuídas ao acaso.
A verdade é que o acaso não tem nada a ver com esta história.
Quem se preocupou e se deu ao trabalho de investigar não teve dificuldade
em encontrar o fio da meada em que nos querem enredar os que agora alegam desconhecimento
dos perigos ou os que se agarram como lapas à rocha da "prova científica"
que dizem faltar. São desculpas de mau pagador, de quem acreditou no
que quis e fechou os olhos à evidência, brincando de aprendiz de
feiticeiro com a vida humana. Se isto não é crime contra a humanidade
não sei o que seja. Talvez ainda lhe chamem um efeito colateral... abrangente.