Ary por:

Pedro Alvim

«As portas que Abril abriu», e agora não por motivos políticos, cerraram?se ontem à noite para Ary dos Santos. Na Rua da Saudade, onde vivia há vinte anos. Foi à noite, pelas 9 e 30, mais minuto, menos minuto. A cidade continuou a circular ? e só em casa dos seus amigos os telefones começaram a tocar, uma, duas, três vezes.

«Morreu...?» ? diziam, espantados, os amigos.

E logo a notícia foi correndo até aos pontos mais distantes, até porque, entre um disco e outro disco, a rádio foi transmitindo a triste notícia. Era, na verdade, um verso diferente.

Mas apesar de ser um verso diferente, com outra medida (a medida de um caixão que hoje estará patente no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, efectuando?se amanhã o funeral), com outra métrica, com outro ritmo, esse verso, no entanto, penetrava fundo no coração das pessoas.

E subitamente, todos então se lembravam dele: cheio, jovial, com aquele saber dar?se e negar?se, com aquela generosidade que o levava a sentar?se a uma mesa à conversa (estas mesas por aqui do Bairro Alto) e a erguer?se também nos comícios políticos (era militante do PCP) a fim de denunciar verdades irreversíveis.

«Olha, é o Ary!» ? dizia?se, por exemplo, no alto da Alameda, em dias de ampla confraternização e justificado protesto.

Tinha uma voz de um só golpe, que transportava os versos, fosse esta ou aquela métrica, aos ouvidos dos circunstantes. Pode dizer?se, sem cair em nenhuma espécie de «slogan», que, de certa maneira, era um símbolo da Revolução dos Cravos.

Mas pobres são aqueles que pensam que o poeta se tinha transformado, se tinha tornado somente um veículo de esclarecimento político. E quão importante isso não era! Mas não: ele era um poeta (leiam?se os seus livros), um poeta que sabia o que era a criação, o tirar das palavras o que as palavras não só por si não sabem dizer. Digamos: o indizível.

E era também um pintor da nossa sociedade. Aí precisamente, com as palavras que todas as pessoas dizem, mas não sabem agrupar de maneira a que elas sejam outras coisas, «pintou» ele quadros que para sempre ficaram nos nossos ouvidos e nos nossos olhos: quem, via TV, se não lembra da «Desfolhada», quem se não recorda da «Tourada»...?

Nessas duas composições, nesses dois poemas, os preconceitos portugueses, a alegria e o ridículo lusitanos, explodiam com uma força que, esmagando os telespectadores, também os educava. É isso mesmo: quer queiramos, quer não, Ary dos Santos, através da sua poesia, era um educador de um povo que muitas décadas tristes tinha tornado abúlico, pleno de tabus, cheio de tristezas mesquinhas.

Pela força do seu verbo, aquele que agora morre com 46 anos levantou cortinas, fez luz, abriu janelas ? e tal se ajuíza de livros como «Liturgia do Sangue», «Tempo da Lenda das Amendoeiras», «Insofrimento In?Sofrimento», «Fotos?Grafia, «Resumo», «O Sangue das Palavras», etc. Para além de poeta, pois, foi um pedagogo, digamos assim, adiantado, atrevido, concretizando até outra maneira de estar com os outos. Indo, enfim, até ao tribunal.

«O erotismo, que horror!» diziam sepulcros caiados de branco. E os juízes, meu Deus, sem saber o que fazer!

Agora, finalmente, num certo descanso que a maturidade impõe, ia Ary escrever, além de outros livros de versos, um romance autobiográfico «Estrada da Luz, Rua da Saudade». Foi?se?lhe, porém, a vida por uma noite de Lisboa: e a biografia (a sua) compete fazê?la a quem o leu, a quem o ouviu, a quem com ele conviveu. Cerraram?se, na verdade, as portas da vida, mas continuam abertas «as portas que Abril abriu» ? e é por essas portas que devemos penetrar, ao som dos seus versos, e encontrar lá ao fundo Ary dos Santos. Que fazer nesse momento...?
Recitar, pura e simplesmente, um poema seu e sermos assim mais livres, sermos assim mais irmãos. Porque foi esta a Mensagem que ele nos deixou, sílaba a sílaba, métrica a métrica, medida a medida. Ah, sim! Que não seja a medida do seu caixão que cale em nossos lábios a canção amargurada e doce da sua vida: cubra?o a terra, desvendemo?lo nós, através dos livros, com dedos, olhos e voz...


Texto do jornalista Fernando Alvim publicado no «Diário de Lisboa» de 19 de Janeiro de 1984