Teatro Nacional D. Maria II

Leitura de "Rei Lear"de William Shakespeare
Tradução de Álvaro Cunhal

Local: Palco
Duração: 90 min.

SEXTA-FEIRA
22:30h

 

«[...] A questão do poder e a sua representação nas tábuas de um palco continuam a ter uma importância excepcional no que toca ao seu aspecto dramático. O teatro de Shakespeare, mais do que para ser lido, é para ser visto e ouvido, e o texto tem, por isso, de sugerir uma dimensão visual na alusão semântica que transmite ao leitor/espectador. Esta parábola da arte de reinar e dos afectos, que condicionam ou perturbam a escolha do governante, tem raízes profundas na cultura e no imaginário popular. Frisa o tradutor que este drama é admirável exemplo da obra dum grande artista assente no espírito criador do seu povo, da fusão do génio popular.' História bem conhecida e repetidas vezes contada, ela faz parte do repertório intelectual do espectador comum, sendo a sua encenação acessível a um largo público. O perfil psicológico do rei Lear, a sua aposta na sucessão, ao querer dar o reino à filha que mais o amasse, dão sinal de megalomania, que é má conselheira em matéria política. Mas a junção do drama familiar com o problema da governação oferecia ao público uma intimidade que permitia ver de dentro, os chamados bastidores da História, o que este só capta nos seus efeitos exteriores, julgados como consequência política. A sageza na vida e na arte de governar, que se ganha com a experiência, abandona o rei Lear, deixa-o à mercê das paixões, da vaidade pessoal e da egomania, levando à tragédia, cuja magnitude se impõe em toda a sua complexidade na sucessão das cenas que constituem a narrativa do drama. A sintonia entre o tema e as vivências do tradutor é perfeita e revela-se nas páginas da versão portuguesa. [...]»

Luís de Sousa Rebelo

Uma oportunidade interessante de escutarmos um grande texto e uma magnífica e fiel tradução, realizada entre 1961 e 1966, enquanto Álvaro Cunhal se encontrava na Penitenciária de Lisboa.

O que terá levado Álvaro Cunhal a escolher esta peça entre tantas outras, mesmo de Shakespeare, para traduzir?

A velha lenda da princesa guardadora de patos, castigada pela sua franqueza e coragem, a que Shakespeare conferiu cunho de tragédia política, terão sensibilizado o tradutor, numa época particularmente dura da sua vida? Ou seria o mundo às avessas que se sucede à capitulação do Rei e a subsequente instauração da desordem política e moral?

Ou ainda o jovem Edgar, vítima de perseguição, que se disfarça de louco como única forma de poder escapar e resistir à opressão vigente?

É com certeza enriquecedor ver e ouvir esta leitura encenada, à luz de tantas questões que perpassavam a vida deste protagonista da resistência ao regime salazarista da época, e por esse motivo poder estabelecer as inúmeras pontes de ligação com a obra intemporal de Shakespeare.

Ficha Artística:
DIRECÇÃO E DRAMATURGIA: Ana Tamen
INTÉRPRETES: Adelina Braga, José Neves, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Paula Mora, Vítor Ribeiro