«[...] A questão
do poder e a sua representação nas tábuas
de um palco continuam a ter uma importância excepcional
no que toca ao seu aspecto dramático. O teatro de Shakespeare,
mais do que para ser lido, é para ser visto e ouvido,
e o texto tem, por isso, de sugerir uma dimensão visual
na alusão semântica que transmite ao leitor/espectador.
Esta parábola da arte de reinar e dos afectos, que
condicionam ou perturbam a escolha do governante, tem raízes
profundas na cultura e no imaginário popular. Frisa
o tradutor que este drama é admirável exemplo
da obra dum grande artista assente no espírito criador
do seu povo, da fusão do génio popular.' História
bem conhecida e repetidas vezes contada, ela faz parte do
repertório intelectual do espectador comum, sendo a
sua encenação acessível a um largo público.
O perfil psicológico do rei Lear, a sua aposta na sucessão,
ao querer dar o reino à filha que mais o amasse, dão
sinal de megalomania, que é má conselheira em
matéria política. Mas a junção
do drama familiar com o problema da governação
oferecia ao público uma intimidade que permitia ver
de dentro, os chamados bastidores da História, o que
este só capta nos seus efeitos exteriores, julgados
como consequência política. A sageza na vida
e na arte de governar, que se ganha com a experiência,
abandona o rei Lear, deixa-o à mercê das paixões,
da vaidade pessoal e da egomania, levando à tragédia,
cuja magnitude se impõe em toda a sua complexidade
na sucessão das cenas que constituem a narrativa do
drama. A sintonia entre o tema e as vivências do tradutor
é perfeita e revela-se nas páginas da versão
portuguesa. [...]»
Luís de Sousa Rebelo
Uma oportunidade interessante
de escutarmos um grande texto e uma magnífica e fiel
tradução, realizada entre 1961 e 1966, enquanto
Álvaro Cunhal se encontrava na Penitenciária
de Lisboa.
O que terá levado Álvaro
Cunhal a escolher esta peça entre tantas outras, mesmo
de Shakespeare, para traduzir?
A velha lenda da princesa guardadora
de patos, castigada pela sua franqueza e coragem, a que Shakespeare
conferiu cunho de tragédia política, terão
sensibilizado o tradutor, numa época particularmente
dura da sua vida? Ou seria o mundo às avessas que se
sucede à capitulação do Rei e a subsequente
instauração da desordem política e moral?
Ou ainda o jovem Edgar, vítima
de perseguição, que se disfarça de louco
como única forma de poder escapar e resistir à
opressão vigente?
É com certeza enriquecedor
ver e ouvir esta leitura encenada, à luz de tantas
questões que perpassavam a vida deste protagonista
da resistência ao regime salazarista da época,
e por esse motivo poder estabelecer as inúmeras pontes
de ligação com a obra intemporal de Shakespeare.
Ficha Artística:
DIRECÇÃO E DRAMATURGIA: Ana Tamen
INTÉRPRETES: Adelina Braga, José Neves, Maria
Amélia Matta, Manuel Coelho, Paula Mora, Vítor
Ribeiro
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