25 Canções de Abril

A obra As Portas Que Abril Abriu foi completada por Ary dos Santos no final de 1975 e lançada no mercado por altura do Natal com uma tiragem de 35 000 exemplares, invulgar para a época, mesmo tendo em conta serem então frequentes as edições atingirem cifras reveladoras do generalizado interesse pela informação e cultura.

A escrita do poema foi feita, apesar da sua extensão, com a fulgurante rapidez que caracterizava Ary, sendo possível afirmar que duraram mais tempo os apuramentos de forma e de fundo do que o esboço inicial, muito próximo já da versão definitiva. Em rigor, estes aperfeiçoamentos tiveram até preocupações de ordem mais política que formal, procurando o autor sucessivas opiniões sobre descrições de acontecimentos, exactidão de qualificações e, como sempre acontecia com a sua poesia politicamente mais interventora, a basca da correspondência do seu truculento e expressivo verbo com a orientação do Partido.

As Portas Que Abril Abriu constituíram um êxito imediato, traduzido não apenas num volume invulgar de vendas, mas também na rápida entrada da própria formulação que dava título ao livro no falar do dia a dia, nas expressões quotidianas, em títulos de jornais, presença que, de resto, se mantém passados mais de duas décadas.

A parte da edição que mais rapidamente se esgotou – e que constitui hoje uma raridade bibliográfica – foram os 1 000 exemplares acompanhados de um disco em formato single com o extenso poema dito pelo próprio José Carlos, num esforço de profissionalismo que é justo lembrar: houve que realizar sucessivos e cansativos ensaios para que os longos versos coubessem no reduzido tempo do disco, mantendo entretanto um ritmo estável ao longo de toda a execução. Quando dizia o poema em público, Ary fazia-o de forma um pouco mais pausada que faziam passar os cerca de16 minutos do disco para 20 e mesmo um pouco mais.

Entretanto, em Novembro de 1976, realiza-se o VIII Congresso do PCP no qual o camarada Álvaro Cunhal apresentou o relatório político que seria editado em livro sob o título A Revolução Portuguesa – Passado e Futuro, análise que se mantém fundamental para a compreensão de todo o processo que conduziu ao 25 de Abril e ao desenvolvimento posterior da Revolução dos Cravos.

Igualmente se realizara entretanto, em Setembro desse ano, a primeira Festa do «Avante!», nos pavilhões da FIL e que, além de poderosa afirmação da capacidade realizadora do Partido, constituíra igualmente a maior apresentação da música portuguesa tão intimamente ligada a Abril e que ali revelara a sua extraordinária pujança.

Finalmente, no início de 1977, o PCP lança uma campanha de fundos de uma dimensão inteiramente desconhecida até então: 50 mil contos, qualquer coisa equivalente hoje a uma verba superior a meio milhão de contos!

Grande vitória política (encerrou com 64 mil contos recolhidos), a Campanha deu igualmente lugar a um vasto e imaginativo conjunto de iniciativas, entre as quais se contou a realização no Pavilhão dos Desportos de Lisboa e no Coliseu do Porto do espectáculo 25 Canções de Abril que pelo número e qualidade dos cantores envolvidos e pelos então invulgares recursos utilizados (som, luz, diaporamas, etc) constituiu um memorável êxito.

As 25 Canções de Abril tiveram a sua origem na ideia, na qual Ary dos Santos directamente participou, de que seria possível realizar um espectáculo onde se cruzasse a narrativa poética de As Portas Que Abril Abriu com a análise histórica e política de A Revolução Portuguesa – Passado o Futuro e que tal texto podia inteiramente ser acompanhado por canções de significado inteiramente relacionado com cada episódio, cada situação.

O impacto da primeira apresentação foi tal que o realizador Luís Gaspar decidiu filmar as restantes apresentações em Lisboa. Seriam contudo as filmagens efectuadas no Coliseu do Porto que acabariam por estar na origem de uma longa metragem com o mesmo título.

As 25 Canções de Abril nunca passaram no circuito comercial, mas a sua apresentação em colectividades e sessões especiais (nomeadamente na Cinemateca) revelaram um documento interessantíssimo, revelador não apenas da pujança adquirida pela música no Portugal de Abril, mas igualmente do talento de declamador de Ary dos Santos que participou no espectáculo não só colaborando na escrita do guião, como declamando em cena toda a sua parte em verso.

Recuperado em vídeo, as 25 Canções de Abril serão projectadas, no quadro da homenagem da Festa a Ary dos Santos num écran de grandes dimensões no Pavilhão Central em sessões cujo horário constará da revista programa.