Intervenção de Leandro Martins, membro do Comité Central, XV Congresso do PCP

Imprensa partidária

O Projecto de Resolução Política em debate dedica, em relação a anteriores congressos, muito menos palavras à imprensa partidária. Não porque tenham desaparecido os problemas fundamentais com que a imprensa comunista se depara, nem que a situação geral da comunicação que enquadra o nosso esforço se tenha alterado. Com efeito, a comunicação social, no nosso País, encontra-se de novo, no essencial, nas mãos de um punhado de grupos económicos, ou pela mão do Estado, a caminho de mãos privadas e ricas.

A imprensa partidária age num quadro de acentuada desproporção de meios face à esmagadora pressão de uma comunicação social manipuladora, e que contribui para a alienação das consciências. A notícia já não é o facto que interessa e a verdade que se comunica, mas o produto que se vende e faz vender, a promoção espectacular de ideias que conduzam à desmobilização e à descrença nas potencialidades de intervenção na transformação do mundo.

Aumenta assim a importância do papel da imprensa dos comunistas. Porém, ao mesmo tempo que crescem os meios à disposição da comunicação social ao serviço do capital e da ideologia que defende e quando tanto dinheiro é gasto na imagem promocional em que tal produto é fornecido, mantêm-se, do nosso lado, os sérios problemas assinalados no anterior Congresso — dificuldades financeiras decorrentes dos altos custos de produção e de distribuição; deficiências, dificuldades e subestimações das organizações em relação à distribuição e promoção da nossa imprensa.

É certo que conseguimos, neste quadro de dificuldades, corresponder a algumas das linhas de actuação então apontadas — melhorar o trabalho de informação para o «Avante!», por parte de algumas organizações do Partido, o que se reflectiu positivamente na diversidade e qualidade do noticiário; diversificar as colaborações para o «Avante!» e «O Militante». Deu-se mais atenção às questões da juventude, resultado de uma maior colaboração entre o órgão central do Partido e a JCP, apesar de considerarmos que ficámos aquém das possibilidades abertas neste domínio.

O número de palavras dedicadas à imprensa partidária não significa menor importância dada a esta vertente do nosso trabalho militante. Mais vale sermos modestos nos nossos objectivos que prometer o que se afigura difícil de concretizar, parecem dizer-nos as Teses. A pobre não prometas, como diz o nosso povo. Não se deixa, entretanto, de pedir a todos um maior esforço, e nesse esforço é necessário muito empenhamento e alguma audácia.

Esforço para tornar mais atraente o conteúdo e a apresentação gráfica do «Avante!» e de «O Militante» — como referem as Teses —, embora, neste âmbito, sejam de registar as melhorias introduzidas e de assinalar que não será no fundamental por questões de aspecto que se poderá conseguir um maior interesse por publicações tão diferentemente colocadas no quadro geral da comunicação social. A diversificação temática e um melhor trabalho a levar a cabo nomeadamente pela Redacção, e o reforço das ligações da nossa imprensa com as organizações do Partido e com a actividade dos comunistas nos mais diversos aspectos da vida política, social e cultural, são elementos fundamentais a considerar para o alargamento da sua difusão. Necessário se torna também que a colaboração de camaradas, ligados às várias frentes e sectores de actividade do Partido, reflictam nas páginas da nossa imprensa a riqueza dos conhecimentos e experiências de trabalho dos comunistas, o seu saber e opinião.

Neste momento de dificuldades, é, contudo necessário sublinhar a escassez dos meios humanos, técnicos e financeiros, muito reduzidos face às necessidades.

O segredo para a resolução do que aparentemente se apresenta como um círculo vicioso — melhorar para divulgar mais para conseguir mais meios para melhorar — reside no assumir, como responsabilidade de todo o Partido, a tarefa de apoiar uma mais ampla difusão da nossa imprensa.

Neste ano de aniversários e neste Congresso, seria bom recordar o papel que a nossa imprensa tem tido ao longo dos tempos.

Aqui há meses, numa sessão comemorativa do «Avante!», em Montemor, um velho camarada, que ainda se dedica à difusão do órgão central do PCP, lembrou os tempos da ditadura fascista, quando ainda era jovem e caminhava alguns quilómetros para ir ouvir ler o «Avante!», nos campos, à luz de uma vela, e tornava pelo mesmo caminho com alguns exemplares que depois distribuía.

O que é que fazia este camarada palmilhar quilómetros? Decerto o empenhamento em participar no trabalho partidário, em militar na organização do Partido, em difundir a voz do Partido junto dos outros trabalhadores. Mas também o vivo interesse em ouvir, já que não sabia ler, as notícias verdadeiras, em conhecer a orientação e as propostas do Partido. Nessa época, o «Avante!» era o único jornal livre da censura fascista. E por essa voz se fizeram sacrifícios e se deu a vida.

Hoje, nem sequer é necessário fazer de autocarro tantos quilómetros a buscar a imprensa. Enterrado há muito o fascismo, não deixa de haver entretanto novas, graves e numerosas ameaças aos direitos e às próprias liberdades. De novo, e infelizmente, o «Avante!» é o único jornal de esquerda de expansão nacional. As nossas responsabilidades são acrescidas no domínio da informação e na divulgação dela. À Redacção, sob a orientação da Direcção do Partido, cabe trabalhar melhor. Às organizações, cumpre assumir a responsabilidade de elevar a compreensão dos militantes sobre o papel da imprensa partidária como «precioso instrumento de formação e informação na luta das ideias», fomentando a sua leitura, responsabilizando novos camaradas pela sua distribuição, dinamizando por diversos modos a sua divulgação.

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