Intervenção de Henrique de Sousa, membro do Secretariado do Comité Central, XV Congresso do PCP

Comunicação com a sociedade

Nas reuniões preparatórias do nosso Congresso, uma das questões mais debatidas foi reconhecidamente esta:

Como comunicar aos portugueses o que fazemos, o que pensamos e o que somos de verdade, em vez das caricaturas e das cassetes que inventam a nosso respeito? Como vencer os bloqueios e as desvantagens resultantes da enorme desproporção de forças e de recursos entre nós e os nossos adversários? Como comunicar melhor e com mais eficácia? Como assegurar um diálogo directo e interactivo com os cidadãos, para impulsionar decisivamente o movimento de transformação da sociedade, de mobilização de mais trabalhadores para o combate por uma política de esquerda, de compreensão por mais portugueses de que é com o PCP que é possível uma verdadeira alternativa?

Enfrentamos sem dúvida obstáculos poderosos nesta desigual, mas indispensável e cada vez mais decisiva, batalha da comunicação em que todos nos temos de empenhar.

Obstáculos em especial decorrentes do crescente domínio e condicionamento dos meios de comunicação social e das modernas tecnologias da informação, com os cada vez mais vultosos investimentos a que obrigam, por grandes grupos económicos em aliança com os detentores do poder político.

Eles querem usar os media e as novas tecnologias da informação para impôr a hegemonia do chamado «pensamento único» de afirmação do capitalismo como presente e futuro inevitáveis da Humanidade, para apagar identidades sociais, culturais e de classe, para transformar cidadãos em espectadores conformados, egoístas e isolados. Eles produzem uma informação dispersa, fragmentada, efémera e volátil, em que a causa das coisas é escondida, os mecanismos de exploração e dominação capitalista e imperialista são escamoteados e o que fica do que passa é um sedimento de valores negativos e alienantes.

Eles, o PS e o PSD que, com a bengala do CDS-PP, são responsáveis pela política de direita em Portugal, querem distanciar as pessoas da política, transformá-la num mero espectáculo mediático e dissolver a consciência de classe dos trabalhadores e de todos os explorados na chamada «classe média», que pretendem ser a base sociológica de um «bloco central» inorgânico em que, em vez do confronto de reais alternativas políticas, apenas se ofereceria ao voto periódico dos portugueses a empobrecedora alternância no poder de actores políticos com ideias cada vez mais semelhantes.

Não reduzimos a política à comunicação, porém não ignoramos a importância cada vez maior da comunicação na política.

Mas também aqui afirmamos a nossa diferença. Queremos ser mais e melhor entendidos pelos portugueses nas circunstâncias concretas deste final de século, mas assumindo com inteireza e orgulho o nosso projecto revolucionário e transformador, o nosso património, o nosso percurso e a nossa identidade comunista.

Lutamos e tudo faremos para que os media e as tecnologias da informação sejam colocados ao serviço do debate de ideias e da formação de opções esclarecidas e responsáveis dos cidadãos. Não aceitamos reduzir os cidadãos a consumidores passivos. Não aceitamos reduzir as ideias e os protagonistas do debate político a mercadorias em que o que conta sobretudo é a embalagem. Recusamos substituir o real pelo virtual, a verdade pelo faz de conta, o gato por lebre. Assumimos a necessidade de coerência entre forma e conteúdo, entre a imagem e as ideias por que lutamos.

Não temos uma visão publicitária da comunicação política. A informação e a propaganda, a comunicação política, não são para nós a arte de enganar o próximo, de obrigar alguém a consumir o que não precisa, mas um meio nobre para transmitir, de modo acessível e directo, o nosso projecto e as nossas ideias, apelando à inteligência, à responsabilidade e à participação de quem nos escuta, lê e vê.

Compreender o carácter estruturante e decisivo que a comunicação detém hoje na acção política, significa também compreender o seu decisivo valor como elemento para aprofundar as raízes e o papel transformador do Partido na sociedade, o seu decisivo contributo para dinamizar os organismos de base do Partido, para uma mais ampla e generalizada militância e responsabilização dos comunistas, assumindo-se como comunicadores esclarecidos e informados no trabalho, na escola ou no bairro.

Não abdicamos de continuar a dar absoluta prioridade na nossa actividade de comunicação ao diálogo directo e pessoal com os trabalhadores, com os jovens, com todos os cidadãos. Porque é a falar pessoalmente que a gente se entende, se conhece, mais e melhor participa. O uso de novos e mais sofisticados meios de informação e propaganda não substitui, antes complementa, o indispensável desenvolvimento da iniciativa local. É na empresa, no bairro, na freguesia, no concelho, através do comunicado, do jornal de parede, da sessão, do diálogo, duma declaração oportuna à comunicação social, que o Partido age, toma a iniciativa, com oportunidade, conhecimento do meio, capacidade de usar a linguagem e a forma de expressão mais adequadas para transmitir as nossas posições e ideias.

Precisamos, sem dúvida, de trabalhar para o desenvolvimento e a formação, a todos os níveis, das estruturas, dos meios e dos quadros de informação e propaganda. De progredir no uso de linguagens e processos de comunicação que tornem mais eficaz e acessível a nossa mensagem. De organizar um persistente e mais qualificado trabalho e relacionamento com a comunicação social nacional e local e de cuidar da imagem das nossas iniciativas na sua dupla e complementar dimensão - a sua dimensão mediática e a sua dimensão local. De desenvolver campanhas de esclarecimento e informação em torno de grandes causas e temas sociais e políticos. Precisamos de aprofundar o domínio das novas tecnologias de informação (e nessa matéria, como partido, até fomos pioneiros em Portugal quanto à Internet), mas sem menosprezar ao mesmo tempo meios clássicos de comunicação, simples e directos. Precisamos de desenvolver uma melhor e mais pronta informação dos militantes que os capacite como comunicadores. De dinamizar a nossa actividade editorial. De trabalhar mais e ainda melhor para valorizar a imprensa do Partido como veículo insubstituível no plano da formação e da informação. De mais dinamismo e iniciativa dos quadros comunistas, como é o caso dos intelectuais, no agudo debate de ideias que se trava na sociedade.

Mas precisamos sobretudo de assumir com mais profundidade que a principal mais-valia que possuímos para comunicar as nossas ideias é, como refere a proposta de Resolução Política, esta ímpar e enorme rede nacional de comunicação militante que é o nosso próprio Partido. É este grande colectivo partidário, é esta enorme corrente de convicções e de vontades que, organizada e em movimento, não fechada em si mesma mas virada para intervir na sociedade e transformar a vida, é capaz de enfrentar a desigualdade de meios e partir decididamente à conquista da inteligência e da sensibilidade de mais trabalhadores, de mais jovens, de mais cidadãos. Seremos então capazes de enfrentar e resolver o complexo caderno de encargos e de orientações que, quanto ao nosso trabalho de comunicação, nos propômos levar à prática para conquistar a adesão de mais trabalhadores, de mais jovens, de mais portugueses, para as nossas ideias e as nossas propostas, condição necessária para combater e desmascarar com sucesso a política de direita do Governo PS, condição necessária para dar mais força ao PCP e à CDU nas próximas eleições autárquicas, condição necessária para que uma alternativa e uma política de esquerda sejam possíveis em Portugal!

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