Cândido de Oliveira
Uma biografia

Escrevi este livro, aliciado pelo tema que as minhas investigações sobre a vida de Cândido de Oliveira empolgaram. Terminada a tarefa das consultas na Torre do Tombo, na Biblioteca Nacional, nos arquivos de A Bola, e avaliadas as entrevistas com quem conheceu de perto mestre Cândido, deitei-me à escrita com alvoraçado empenho.

A escrita. Enchi páginas de crónicas padronizadas pela especificidade do jornalismo a que me dediquei, mas outras arquitecturas literárias consegui erguer à revelia da obrigatoriedade de corricar o dia-a-dia entre as barreiras dos motivos desportivos. Eu e também ilustres companheiros de uma equipa incapaz de se submeter aos silêncios do terror.

No decorrer da vida, fui-me libertando das formas convencionais. Rompi os cercos rotineiros, deixei-me envolver pela discência deixando na redacção, ainda acanhada como escolinha de aldeia, pelos exemplos e sentido da independência de Cândido de Oliveira. Sobretudo, aprendi que o jornalismo desportivo é uma arte maior ou menor, dependendo a sua classificação da forma como os jornalistas o vêem, o comunicam e sentem o seu peso, às vezes perverso, nas sociedades contemporâneas.

As preocupações culturais de A Bola, muito explícitas e determinadas logo nos primeiros números, confrontaram-se com os padrões exegíveis pelos guardas pretorianos do regime ao jornalismo desportivo, que desejavam linear e insulado de aspectos político-sociais. Mas nem as ameaças, veladas ou insultuosas, nem as suspensões arbitrárias, nem o tripudiar labroste dos inimigos estabelecidos noutras gazetas, destruiram a personalidade única da escola de Cândido de Oliveira e dos seus pares. Nela, aprendi que sem liberdade de expressão todas as éticas e deontologias são artificiais.

Cândido de Oliveira foi um jornalista subversivo? Cândido foi um cidadão, consciente e coerentemente, subversivo.

O jovem alentejano, honesto e afável, estudante e desportista, aprendeu com professores de profundos sentimentos humanistas, conviveu com ilustres personalidades do conhecimento e da política, integrou as equipas da cultura e do desporto, meditou a vida e as injustiças que feriam os desprotegidos da sorte nos silêncios monásticos dos claustros manuelinos. Na Cerca da Casa Pia, iniciou a aprendizagem do futebol, que era a vergôntea mais forte do desporto nacional.

O jornalismo e o futebol, só aparentemente carreirados por vias paralelas, instruíram-no de sólidos princípios pedagógicos. Cândido cursou as duas disciplinas com brilhante aproveitamento. E da ecléctica escola saiu um promissor discípulo das duas artes.

Mestre do futebol nas suas duas vertentes, a prática e a teórica, mestre do jornalismo – assim o conheceram os coevos e reconhecem as novas gerações. São os percursos que o povo mantém na memória porque o futebol estiola tudo quanto cresce nos terrenos sagrados da sua idionomia, aliás alimentada pelos fideístas autênticos e, também, pelos falsos profetas. De facto, o homem do futebol, ao nível do estudioso, e o jornalista, consagrado pela coragem e virtuosismo, coabitam o perfil que, sistematicamente, tem sido transmitido ao público. Mas parte fundamental do nosso biografado nunca foi contada aos portugueses com rigor e empenho.

E, no entanto, Cândido de Oliveira, democrata de integridade absoluta, assumiu-se como antifascista nos tenebrosos tempos de todos os nazismos.

A biografia do repúblico e generoso Cândido de Oliveira não estaria completa sem a revelação da sua actividade política, que, por hábito, quem dele falava resumia a esta explicação: «O Cândido esteve dezoito meses no Tarrafal.»

Evitou-se contar a novela política que Cândido protagonizou. Inicialmente, porque não era possível divulgá-la; depois do 25 de Abril de 1974, porque ninguém terá achado importante fazê-lo ou ainda porque a sua beligerância, durante o salazarismo, e os muitos riscos que correu pouco vulto tivessem projectado no turbilhão de factos, autênticos e fabulados, aos quais o País assistiu.

Pretendo que esta biografia de Cândido de Oliveira seja o romance verídico da sua vida. Nesta intenção, desvendo o que sempre me pareceu um estranho tabu. A intervenção activa de Cândido na política nacional, com repercussões internacionais, transcendeu a lírica conspiraçãozinha à mesa do café, que muitos portugueses praticavam, dardejando, à sua volta, olhares receosos.

Há quem se esforce por elidir da vida portuguesa os crimes cometidos pela ditadura, as desumanidades que os espelhos do passado ainda reverberam, que os túmulos testemunham no cemitério da Achada, no Tarrafal, e em outros lugares onde culminaram os assassinatos perpetrados pela polícia política.

O importante é que os flagícios não prescrevam na memória dos portugueses, nem se fechem as janelas do passado, que a democracia consiga eliminar do seu corpo a «bondade estratégica» e se cumpra sem subterfúgios. Para que o sangue dos justos não seja invadido pelo almagre dos vilões.

(*) Homero Serpa, Editorial Caminho, Lisboa, Junho de 2000.

«O Militante» - N. 257 - Março/ Abril de 2002