Intervenção de Arminda Timóteo, Assistente Social, Debate-Desemprego,precariedade,pobreza-Aface real da União Europeia

Pobreza na Infância

Agradeço o convite para convosco debater o tema desta iniciativa.

A minha actividade profissional associa-me às crianças e, sobretudo a crianças pobres. É… portanto da pobreza infantil que vos quero falar.
Há dias, por razões que para aqui pouco interessa, visitei uma família pobre, muito pobre, e de entre as crianças dessa família (um rancho), havia uma com cerca de sete anos que me pareceu triste, muito triste, com um semblante que me tocou de uma forma muito particular. Inicialmente pensei que a tristeza resultava de uma qualquer contrariedade momentânea, de uma qualquer coisa que lhe faltava, tocada por aquele rosto, aquela expressão, admiti ingenuamente, que a poderia ajudar. Verdadeiramente senti uma imensa vontade de a confortar com algo, mas não sabia nem com quê, nem como. Então, decidi correr o risco e perguntei-lhe:
- O que é que gostavas de ter?
E ela encolhendo os ombros respondeu:
- Queria deixar de ser pobre.
O pai nem deu tempo a que pudesse dizer algo, como que em ato contínuo disse:
- OH filho mas isso, esta senhora não te pode dar.
Fiz um enorme esforço para me segurar emocionalmente.
O problema é que esta amargura de criança e esta desesperança de pai se vai alargando a níveis inadmissíveis.
Li recentemente que segundo a Agência dos Direitos Fundamentais da EU, cada vez mais as crianças estão ameaçadas de pobreza ou de exclusão social em vários países da União Europeia, incluindo Portugal.
No texto escreve-se incluindo Portugal, se me fosse possível emendava o texto e escreveria sobretudo em Portugal, Com efeito, a taxa de pobreza infantil no nosso país, de acordo com dados de 2011, é de 28,6% enquanto a média da EU é de 27%.
De acordo com o relatório «O impacto da crise europeia», a taxa de pobreza infantil em Portugal tem estado acima da média de 27 Estados membros da EU, pelo menos desde 2005.
Portugal apresenta a oitava taxa de pobreza infantil entre 34 países da OCDE.
Meus amigos, a situação é dramática, porque muita dessa pobreza infantil não está à vista, muitas das famílias que mais recentemente estão a ser vítimas da política de austeridade passam mal, muito mal, em muitos casos escondidamente mal, vivem num injusto mas verdadeiro inferno.
Deixaram de ter tudo que é essencial para passar a sofrer de má nutrição, perda de defesas e imunidades à doença, fracasso escolar, enfim um enorme conjunto de insuficiências.
Tenha-se em conta este dado:
Mais de meio milhão de crianças em risco de pobreza
Perspectivas?
No quadro da situação politica portuguesa, da natureza deste poder e sobretudo da sua subserviência aos ditames dos usurários, se não forem substituídos, não só o governo, mas também esta politica por um e uma outra de natureza de classe bem diferente, então só podemos esperar mais e … mais do mesmo.
Com o actual nível de desemprego que seguramente aumentará não só pelas vicissitudes do dito mercado mas também por essa cruzada contra a função pública, educação, saúde, segurança social, trabalhadores e desempregados…naturalmente que a situação se degradará.
Certamente que todos estaremos de acordo em que não basta ter emprego para não se ser pobre mas, estaremos também de acordo que existirá inevitavelmente pobreza infantil em casa onde mora o desemprego, a precariedade, o baixo salário, entre muitos outros factores.
Medidas anti-sociais a pretexto da redução da despesa do Estado como as que decorrem da alteração aos regimes jurídicos de protecção social na doença, na maternidade, paternidade e adopção como sucede com a aplicação do decreto-lei nº133 de 27 de Junho têm agravado e só poderão continuar a agravar a situação.
O relatório da Agência dos Direitos Fundamentais da EU refere que a Comissão Europeia propôs em Outubro de 2012 a criação de um fundo de 2,5 mil milhões de euros para ajudar entre 2014 e 2020 os mais desfavorecidos na EU, nomeadamente as crianças.
Não sei em que pé estão as coisas, mas se porventura o desenvolvimento da proposta é positivo, é imperioso que a sua aplicação seja controlada. É que… há milhões que têm patas e, às tantas, movimentam-se de tal maneira que se extraviam do seu destino original.
Meus amigos, tenho participado em vários fóruns, mas, face a situação a que as coisas chegaram e à necessidade de as alterar nenhum é tão adequado como este, porque, como já disse, a questão do combate à pobreza e, portanto à pobreza infantil na dimensão a que se chegou, é sobretudo uma questão de poder.
Sobre a pobreza li recentemente que: uma conexão de circularidade envolve este fenómeno: é-se pobre porque não tem poder e não se tem poder porque se é pobre.
Urge romper com o círculo, dando poder aos pobres. Impedir que amargura invada as crianças procurar a esperança retorne aos pais.

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