Brigada Victor Jara com Manuel Freire - Tributo a Adriano Correia de Oliveira
Terça, 24 Julho 2007

 

Brigada Victor Jara com Manuel Freire - Tributo a Adriano Correia de Oliveira Grupo dos Antigos Orfeonistas de Coimbra

Disse Adriano Correia de Oliveira que «a canção pode não ter uma influência decisiva,  mas é complementar,  e interessa que a arte,  seja qual for,  reflicta exactamente aquilo que se está a passar em cada sociedade. Se não,  não é útil e falha substancialmente. Não corresponde à sua função. » Esta é a frase de um músico,  de um artista,  de um comunista,  de um homem que gostava de se situar do «lado certo » – do lado antifascista durante os anos da ditadura,  do lado das conquistas de Abril no período revolucionário. 

Nascido no Porto em 1942,  é em Coimbra,   onde vai estudar Direito,  que se começa a destacar na música,  primeiro como tenor no orfeão académico de Coimbra.  O ambiente antifascista que se vive na universidade e no País leva Adriano a aderir ao Partido Comunista Português em 1960,  ano em que grava o primeiro disco com quatro fados de Coimbra.  Os anos seguintes são intensos. Há greves de norte a sul do País e o 1. º de Maio de 1962 é a maior comemoração de sempre do Dia do Trabalhador em Portugal. Nos campos do Sul conquista-se a jornada de oito horas de trabalho e em África inicia-se a guerra colonial. Em Lisboa,  na sequência da proibição,  pelo governo fascista,  da comemoração do Dia do Estudante,  intensificam-se as lutas estudantis,  iniciando-se uma prolongada greve que alastra às outras academias. Mais de 1500 estudantes são presos. 

Em 1963,  Adriano interpreta a Trova do Vento que Passa ,  uma das primeiras e decisivas canções de intervenção. Ao longo dos anos 60 e início dos 70, continua a cantar e traz para a música de intervenção novos valores.  Na Revolução de Abril,  Adriano Correia de Oliveira é abnegado cantor das suas conquistas. E um dedicado construtor da Festa do Avante!. 

Coerente –«Pratico aquilo que digo na canção. É uma condição fundamental. O importante é que na vida haja coerência absoluta ». Mantém-se um activo militante comunista até ao fim da sua vida,  em 1982.  Tinha 40 anos. «A única luta pelo poder em que estou empenhado é a luta para que o povo português tome o poder e que nessa luta tenha um papel determinante a actividade do aparelho político organizado que é o PCP,  a que pertenço. »  Brigada Victor Jara, Manuel Freire e Grupo dos Antigos Orfeonistas de Coimbra Num espectáculo concebido especialmente para a Festa do Avante!,  a Brigada Victor Jara junta-se a Manuel Freire e ao Grupo dos Antigos Orfeonistas de Coimbra num grande tributo a Adriano Correia de Oliveira. 

 


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Numa pausa do trabalho de abertura de uma estrada para os lados da Lousã, o acaso de uma "viola" e um coro de meia dúzia de vozes terá feito nascer a Brigada Victor Jara. Brigada porque o era de facto, de trabalho e de cantigas. Victor Jara pelo combate, acarinhado e sentado num camião do MFA a caminho de uma aldeia Beirã.

No início o canto era "de intervenção", em versões de cantigas de José Afonso, Sérgio Godinho, Victor Jara, Quilapayum. O primeiro contacto com a Música Tradicional (ou Regional? ou Popular?) teve-o no GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra), num ou noutro dos discos-de-capa-de-sarapilheira editados pelo Michel Giacometti, num ou noutro encontro com músicos ou cantadores populares.

Escrevia a Brigada na capa de Eito Fora (1977) não ignorar que "o folclore que sai do seu lugar próprio que são os cantos e as aldeias e esquece o homem na sua relação diária com o trabalho campestre, corre o risco de não passar de um produto banal, uma mercadoria que faz as delícias dos turistas, avinhados ao ritmo dos ferrinhos e da concertina". Ao mesmo tempo esclarecia não ser o seu trabalho de natureza etnomusicológica e homenageava "Michel Giacometti e alguns mais (poucos) que realizaram e realizam com saber e persistência esse labor tão apaixonante como ingrato".

A Brigada Victor Jara nunca pretendeu desempenhar o papel de "preservador" da memória musical do seu povo, nem iniciou o seu trabalho com o fito de atender a modas (de resto já ia longa a sua vida quando o mercado da "world music" inaugurou a primeira prateleira de Cê Dês). Antes se foi ocupando a recontar as melodias apreendidas, misturando-as com os sons das suas próprias vivências. Desigual, a sua discografia é o resultado de um longo processo em que diversos músicos, atravessando o grupo na sua trajectória, vão dizendo de sua justiça, com uma preocupação central (e essencial na arte popular) - a de contar um conto, acrescentando-lhe um ponto.

Manuel Freire 

 

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Manuel Freire começou a relacionar-se cedo com outros cantores como Adriano Correia de Oliveira,  José Afonso ou Francisco Fanhais. Nos anos 60,  começa a musicar poemas de grandes poetas portugueses,  como António Gedeão,  José Gomes Ferreira,  Fernando Assis Pacheco,   Sidónio Muralha ou José Saramago. Cantor premiado e consagrado,  ganhou um público fiel após o 25 de Abril,  a cantar em sociedades recreativas e culturais.   
 

Grupo dos Antigos Orfeonistas de Coimbra

Constituído por antigos estudantes da Universidade de Coimbra, apresentou-se pela primeira vez em Dezembro de 1980, por ocasião das comemorações do centenário do Orfeon Académico de Coimbra, onde o Coro foi buscar as suas raízes institucionais.
Na sua criação foi determinante o propósito de, num percurso aberto a desafios novos e estimulantes, no domínio da arte musical, como noutros, de inegável dimensão humanista, fazer reviver os Ideais de Fraternidade, de Tolerância e de Solidariedade que, ao longo de gerações, marcaram, de forma algo peculiar, a Academia de Coimbra.
Realizou já mais de seis centenas de concertos, em Portugal e no estrangeiro.
Actuou em numerosos Países: na Europa, nas Américas - do Norte e do Sul - em África e no Oriente. Como nas Sedes de Organizações Internacionais, nomeadamente, o Parlamento Europeu (1987, 1989, 1994, 1999 e 2005), o Tribunal das Comunidades Europeias (1994), a Comissão Europeia (1987), a UNESCO (1987 e 1990) e a ONU (1996).

Além de um LP, em 1985, dirigido, ao tempo, pelo maestro Joel Canhão, o Coro gravou 4 CD’s: em 1994, de música diversa; em 1995, o segundo, de composições de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e José Niza, com acompanhamento da Orquestra Filarmónica de Londres e arranjos orquestrais e corais dos maestros José Calvário e Augusto Mesquita; em 1998, um outro (“Alleluya”), de Música Sacra de diferentes épocas e origens; ao vivo, o concerto com que, no final de 2001, no Centro Cultural de Belém, acompanhado pela Orquestra do Norte, encerrou as comemorações dos seus 20 Anos; e, em 2005, um DVD, aquando da realização da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, em colaboração com a Orquestra do Norte e o seu director musical, o Maestro José Ferreira Lobo, com encenação de Carlos Avillez.

O seu repertório inclui perto de uma centena de temas, em múltiplos domínios – música sacra, operática, popular, etc. – mas com um significativo destaque para a música de língua portuguesa, sobretudo a “música de Coimbra”, especialmente adaptada.

Nos concertos, à actuação coral segue-se, habitualmente, a do seu Grupo de Guitarras de Coimbra - que acompanha, por vezes, o próprio Coro, daí se retirando um efeito verdadeiramente único – dando, assim, a conhecer uma faceta deveras significativa da nossa Música.

Um elevado nível de desempenho, uma sonoridade inconfundível e o clima de simpatia que transmite, tornam este Coro, no estrangeiro, uma representação reconhecidamente invulgar da Cultura portuguesa.

É dirigido pelo maestro Virgílio Caseiro, desde 2003.

Agraciado com o grau de Membro Honorário da Ordem de Mérito (1996), o Coro possui a Medalha de Mérito do Ministério da Cultura (1995) e a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra (2000). É, ainda, Sócio Correspondente da Academia Pernambucana de Música/Recife (1993) e “Amigo Honorário” da Fundação Bissaya Barreto (1997).

http://www.uc.pt/antorf/