Intervenção de Kathryn Reilly, Senadora do Sinn Fein - Irlanda, Debate - Desemprego, precariedade, pobreza - A face real da União Europeia

Emprego, desemprego, precariedade e pobreza na UE

“...Amigos, trago-vos saudações da história de sucesso da austeridade da União Europeia.
As notícias são boas.
A nossa economia regressou ao seu crescimento modesto. A taxa de desemprego estabilizou. A taxa de rendibilidade das obrigações de títulos está em baixo. As dívidas foram reprogramadas.
Muito em breve a confiança dos investidores irá regressar.
Estamos esperançosos de que sairemos do programa da Troika como o planeado em 2014.
A nossa mensagem é que a austeridade está a funcionar...”
Esta é a mensagem que o governo irlandês quer que oiçam. A Irlanda está jogando pelas regras da Troika. “Nós” somos apoiantes entusiastas da austeridade exigida pela União Europeia e o Fundo Monetário Internacional e apoiado pelos partidos centro-direita e os partidos de centro-esquerda.

Infelizmente, a realidade social e económica para a maioria das pessoas no sul da Irlanda é muito diferente.
O desemprego continua a marcar as vidas de centenas de milhares de famílias.
As estatísticas mais recentes mostram que o desemprego se encontra nos 13,7% abaixo do registado de 14,9% em Dezembro de 2011. 292 mil pessoas estão oficialmente sem trabalho.
O governo acredita que isto são boas notícias. Eles dizem que o desemprego estabilizou e que, pela primeira vez desde o colapso económico de 2008, o número de pessoas a trabalhar está a aumentar.
É verdade que nos últimos 12 meses, o número de pessoas empregadas cresceu em 20 mil. Mas numa inspecção mais minuciosa as estatísticas são tudo menos positivas.
Nos últimos 12 meses, o número de pessoas com emprego a tempo-inteiro diminuiu em 9400. O número de pessoas com emprego a tempo parcial aumentou em 24 200, mas destes, 17 mil são oficialmente sub-contratados.
Esta é uma tendência muito perigosa. Ao invés de uma situação de crescimento do emprego real, o que assistimos é um número crescente de pessoas com baixo salários, a tempo parcial, emprego precário.
Ao mesmo tempo, 61% dos desempregados, estão sem emprego há mais de 12 meses e 36% dos menores de 25 anos estão desempregados.
Todas estas estatísticas seriam muito piores se não fosse pelo facto de que 1.600 pessoas estão a deixar a região todas as semanas. Estima-se que 87 000 pessoas emigraram do sul da Irlanda, entre Abril de 2011 e Abril de 2012. A maioria deles são jovens que viajam para o Canadá e a Austrália em busca de emprego.
O custo social e humano destas tendências é óbvio.
A pobreza, incluindo a pobreza infantil está a aumentar. Um número crescente de famílias de trabalhadores estão vivendo agora em risco de pobreza.
O endividamento das famílias tem crescido a níveis insustentáveis. 1 em cada 4 dos detentores de hipotecas não as conseguem pagar.
As taxas de suicídio, principalmente entre os homens, tem aumentado significativamente nos últimos quatro anos.
E as famílias são dilaceradas enquanto os seus filhos são forçados a mudar-se para o estrangeiro em busca de trabalho e de uma vida melhor.
Esta é a face humana das políticas da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional na Irlanda. É a face humana das políticas de austeridade implementadas pelo anterior governo de Fianna Fail e da actual coligação trabalhista Fine Gael.
As sondagens mais recentes indicam que o índice de satisfação do governo caiu para 20%.
A sua impopularidade não resulta apenas pela dor causada pelas suas políticas de austeridade. Eles também têm sido bastante prejudicados por uma longa lista de promessas eleitorais não concretizadas – especialmente por parte dos social-democratas.
Eles quebraram a sua promessa de não introduzir novos impostos imobiliários, sobre a água e sobre os automóveis. Eles quebraram a sua promessa de não cortar o abono de família e as prestações sociais para os idosos e pessoas portadoras de deficiência.
As pessoas estão zangadas - mas ainda têm de encontrar uma voz eficaz para manifestar sua raiva. Depois de terem sido tão traídas pelo último governo, muitas dessas pessoas confiaram na nova coligação para cumprir as suas promessas eleitorais. Mais uma vez foram traídas e a raiva que isso originou é agora dirigida a todo o sistema político.
O desafio para aqueles de nós que estão contra a austeridade é convencer esse número crescente de pessoas que existem alternativas reais e credíveis. O Sinn Féin esteve na vanguarda do delinear dessas alternativas. Nós publicamos orçamentos alternativos detalhados e programas de criação de emprego.
As nossas propostas opõem-se aos ditames sociais e económicos prejudiciais do Pacto de Estabilidade e Crescimento, e o mais recente six pack e two pack-das regras da “conservação económica”. Não discordamos das metas de redução do défice global dos governos. Alias temos delineado como essas metas podem ser atingidas através do investimento no crescimento e no emprego. Não se sai de uma recessão com cortes e impostos. Sim, existem popanças que podem ser feitas nos gastos do governo. E sim, existem aumentos de impostos que são progressivos. Mas o crescimento é fundamental. E para alcançar o crescimento precisamos de investimento.
Portanto, a nossa abordagem é impulsionada pela necessidade de aumentar o investimento na criação de emprego, a reforma do sistema fiscal para fazer os ricos pagar a sua justa quota-parte, e para defender os serviços públicos, particularmente na saúde e na educação.
Propusemos um pacote de estímulo, de quatro anos, de 13 mil milhões de euros para criar 100 mil postos de trabalho.
Foram identificados mais de 3 mil milhões de euros em impostos adicionais sobre altos salários, a riqueza privada e fechando brechas no sistema fiscal que facilita a evasão fiscal e perdões fiscais de empresas.
Temos propostas detalhadas para ajudar as famílias mais afectadas pela recessão - um estímulo familiar, que atinge os objectivos sociais e económicos através da redução da pobreza e aumento do poder de compra.
Temos defendido os salários e os direitos dos funcionários públicos, lutando contra as reduções de pessoal do sector público e combatendo a proposta de privatização de bens públicos, incluindo as nossas florestas. Também apresentamos legislação para aumentar a protecção para os trabalhadores com salários baixos e de direitos no sector privado.
Paralelamente a estas políticas e alternativas legislativas temos lutado vigorosamente para defender as pessoas, comunidades e serviços.
Nós estivemos na vanguarda de campanhas comunitárias contra a injusta carga fiscal das família e n o referendo contra o Tratado de Austeridade. Temos trabalhado em campanhas para salvar escolas e hospitais de cortes e de encerramentos.
E vamos continuar a estar com as pessoas, especialmente os mais afectados pela austeridade, na defesa do seu direito ao trabalho decente, salário decente e serviços decentes. É devido a esta postura que nos últimos dois anos, o apoio do Sinn Féin, duplicou de 9% nas eleições de 2011 para os 18% actuais.
Por vezes, as pessoas fora da Irlanda, questionam por que o país não está visivelmente mobilizado contra as políticas de austeridade da Troika e do Governo. Até recentemente, esta era uma questão válida. Nos últimos meses, muitos de nós começaram a notar uma mudança de atitude. Os funcionários públicos determinantemente rejeitaram uma proposta de acordo salarial oferecido pelo Governo no mês passado - porque era profundamente injusta e prejudicial para os trabalhadores, os serviços e a economia nacional.
É muito cedo para dizer se este tipo de oposição vai conduzir a mobilizações de massas - mas com eleições municipais e europeias marcadas para próximo mês de Maio, a batalha para ganhar as intenções de voto já está em andamento. A eleição europeia, em particular será um referendo não só ao Governo, mas a todo o projecto de austeridade da União Europeia.
Temos muito trabalho a fazer para construir uma maioria social e eleitoral a favor da real mudança social e económica. Todavia, as condições nunca foram melhores - a questão é se temos a força e a capacidade para dar resposta.
Portanto, a verdadeira mensagem da Irlanda é que a austeridade não está a funcionar, as pessoas estão zangadas e a possibilidade de mudança é melhor do que nunca.
O Sinn Féin está determinado a desempenhar o nosso papel na oposição às políticas fracassadas da Troika e do Governo irlandês. Estamos determinados a oferecer às pessoas alternativas que são radicais e credíveis. Iremos continuar a reivindicar com os trabalhadores, famílias e comunidades em prol de um caminho melhor e mais justo.

O período que se aproxima será crucial na Irlanda e em toda a União Europeia na luta contra a austeridade e por um modelo mais igualitário e sustentável de desenvolvimento social e económico.

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