Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP, Lisboa, Sessão Comemorativa do Centenário do nascimento de Manuel da Fonseca
Centenário do nascimento de Manuel da Fonseca
Quinta 13 de Outubro de 2011Com esta iniciativa, dando sequência a outras já realizadas – designadamente na Festa do «Avante!» – e antecedendo várias outras a realizar – entre elas o suplemento especial da próxima edição do «Avante!» – prosseguimos as comemorações do centésimo aniversário do nascimento de Manuel da Fonseca.
Manuel da Fonseca é uma figura relevante da história da cultura portuguesa e a sua obra literária, os seus romances, os seus contos, os seus poemas, ficarão como momentos maiores da nossa literatura.
Para nós, comunistas, ele é também o camarada, o companheiro de luta, o resistente antifascista, mas também o emérito conversador e contador de histórias – e sobretudo o amigo com o seu sorriso bom e cheio de fraternidade, que jamais esqueceremos.
Nasceu em Santiago do Cacém – Cerromaior lhe chamou no seu primeiro romance – em 13 de Outubro de 1911, faz hoje precisamente cem anos. Ali passou parte da sua adolescência, ali começou a escrever os seus primeiros poemas, às escondidas – poemas que só não ficaram desconhecidos porque uma pessoa da família, em boa hora os fez publicar num jornal local.
De Cerromaior partiu para Lisboa, onde frequentou o Liceu Camões e fez amigos – coisa que nele era simples e natural, tamanha era a sua capacidade de, com uma postura sempre franca e leal, semear e colher a amizade.
No início da década de 30, Manuel da Fonseca, a par dos diversos empregos e profissões que foi assumindo, começou a conviver com outros jovens, muitos dos quais viriam a ter presença destacada na vida política e cultural, entre eles Keill do Amaral, Maria Keill, Mário Dionísio, Alves Redol, Ferreira de Castro, Bento de Jesus Caraça, Armindo Rodrigues e Manuel Ribeiro de Pavia. Pessoas que, diria mais tarde, «tiveram uma grande influência em mim» - porque, explicou, «um homem que tem uma ideia, que a cultiva e que descobre os seus limites, descobrindo até para lá das possibilidades, convive e tem sempre um camarada extraordinário com o qual pode até não estar de acordo, mas é esse o sentido de liberdade que dá admirável eficácia à camaradagem».
Do seu primeiro livro de poemas – Rosa dos Ventos, publicado em 1940 e tendo como cenário e referência «a guerra de Espanha e a repressão do fascismo salazarista» – pode dizer-se que é o primeiro grande momento da poesia neo-realista.
No ano a seguir, integrado na poesia do Novo Cancioneiro, publica Planície – e em 1943 surgem os contos de Aldeia Nova e o romance Cerromaior; dez anos depois, o livro de contos O Fogo e as Cinzas e, como que a fechar este ciclo, em 1958 é publicado Seara de Vento – romance que, logrando passar pelas malhas cerradas da censura fascista, que desde logo o proibiu, foi lido por muitos milhares de portugueses. Também em 1958 são publicados os Poemas Completos que virão, mais tarde, a englobar a Obra Poética.
A partir dos anos 60, Manuel da Fonseca contar-nos-á Lisboa – e disso são exemplo livros como O Anjo no Trapézio e Tempo de Solidão. Mas o espaço preferencial da maior parte da Obra de Manuel da Fonseca, quer em poesia quer em prosa, é essencialmente o Alentejo. É do Alentejo que Manuel da Fonseca nos fala como nenhum outro escritor o fez – do Alentejo do latifúndio opressor e explorador; dos grandes agrários suporte do regime fascista; do trabalho de sol-a-sol; do desemprego em parte grande do ano; das jornas de miséria; da repressão brutal, das prisões, dos assassinatos.
E o povo alentejano é o protagonista principal desses seus romances e poemas: um povo em luta, organizado no seu Partido; enfrentando heroicamente a Guarda do regime e dos agrários; dizendo «não» ao fascismo; afirmando bem alto que a terra é de quem a trabalha e colocando a Reforma Agrária como objectivo maior da sua luta de todos os dias – a Reforma Agrária que viria a ser conquista maior da Revolução de Abril, aumentando a produção e acabando com o desemprego, a miséria e a fome, dando os primeiros passos no caminho de um Mundo Novo; a Reforma Agrária que as forças da contra-revolução viriam a destruir na sequência de uma brutal ofensiva que, durante 14 anos, pôs novamente o Alentejo a ferro e fogo, voltando a perseguir, a prender, a matar, trazendo de novo o desemprego, a desertificação, a miséria, a fome; a Reforma Agrária que a situação que hoje vivemos mostra concludentemente que é necessária.
No início dos anos quarenta, quando um conjunto de destacados quadros comunistas levam por diante a reorganização do Partido – a reorganização de 40/41 que, com a realização do III e do IV Congressos, respectivamente em 1943 e 1946, viria a transformar o PCP num grande partido nacional, num partido marxista-leninista, vanguarda incontestável da classe operária, no partido da resistência e da unidade antifascistas – Manuel da Fonseca passa a integrar o grande colectivo partidário comunista, na Célula dos Escritores. Por essa altura, a luta antifascista, organizada e dirigida pelo PCP, assume uma expressão relevante, o movimento democrático cresce, fortalece-se e desenvolve intensa actividade em todas as áreas da vida nacional. A grande maioria dos intelectuais portugueses – romancistas, poetas, músicos, artistas plásticos – participa activamente na luta antifascista: através da sua obra artística eles retratam, de múltiplas formas, a realidade nacional que a propaganda fascista escondia ou mistificava, e são verdadeiros porta-vozes da luta popular, das aspirações e anseios dos trabalhadores, do povo e das suas lutas.
Na verdade, com o movimento neo-realista – que viria a marcar impressivamente a literatura portuguesa no século XX – a actividade dos escritores portugueses passa a ser parte integrante da luta de massas e as suas obras – conto, romance, poesia, teatro – constituem expressões dos anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo.
A literatura portuguesa de então era, a um tempo, testemunho e factor do crescente isolamento do regime fascista, do qual revelava a face anticultural, opressiva e repressiva, ao mesmo tempo que exprimia a insubmissão da classes operária, dos trabalhadores e do povo. E Manuel da Fonseca afirma-se como expoente maior do neo-realismo português.
A sua assumpção da militância comunista, decorrente de uma concreta perspectiva política e social, de uma inequívoca posição antifascista e de uma clara opção pelo socialismo e pelo comunismo, é concretizada na sequência do seu convívio com outros intelectuais comunistas, designadamente Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol.
Nesse tempo, Manuel da Fonseca é um dos participantes nos célebres passeios no Tejo, organizados por Redol e por Dias Lourenço, passeios que outra coisa não eram mais do que manifestações de actividade antifascista protagonizadas por destacados intelectuais militantes e simpatizantes comunistas que, reunindo numa fragata que navegava pelo rio Tejo, iludiam a vigilância pidesca.
Mais tarde, Manuel da Fonseca viria a sofrer na pele a brutalidade da polícia política do regime fascista: era, então, Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e teve a ousadia de, em 1964, atribuir o Grande Prémio da Novelística a Luandino Vieira, militante do MPLA na altura preso no Tarrafal… O fascismo não podia tolerar tal atrevimento e a Sociedade Portuguesa de Escritores foi encerrada e vários dos membros da sua Direcção, entre eles Manuel da Fonseca, foram presos pela PIDE.
Do camarada que hoje aqui homenageamos, disse o camarada Álvaro Cunhal:
«Manuel da Fonseca foi um dos grandes escritores do nosso século, extraordinário narrador de situações, enquadramentos sociais e paisagísticos, monumentos e caracteres típicos do povo português – nomeadamente do Alentejo; um intelectual visceralmente ligado ao povo ou se se preferir dizer um filho do povo cuja obra o fez um intelectual; um amigo de mais de meio século de verdadeira estima; um camarada de ideal, de partido e de luta, cuja serena convicção e confiança o acompanhou até aos últimos tempos da sua vida»
Acrescente-se e sublinhe-se que Manuel da Fonseca esteve sempre com o seu partido de sempre, o Partido Comunista Português: na resistência ao fascismo e na luta pela liberdade e pela democracia; na época exaltante da Revolução de Abril; na frente da luta por Abril, face à ofensiva da contra-revolução institucional iniciada pelo primeiro Governo PS/Mário Soares, em 1976 e que conduziu Portugal à dramática situação hoje existente, fortemente agravada no tempo actual com o pacto de agressão elaborado pela troika ocupante e aceite, servilmente, de joelhos, pela troika colaboracionista, PS, PSD e CDS/PP. Sempre com o seu partido de sempre, mesmo naquelas situações mais difíceis e complexas.
É esse homem – o escritor genial que ficará para sempre na história da Literatura Portuguesa; o cidadão exemplar que amava a vida e a verdade e detestava a hipocrisia; o amigo fraterno e solidário de todos os momentos; o militante comunista, cujo exemplo de firmeza ideológica e partidária constitui uma referência para todos os militantes comunistas – é esse homem que hoje aqui homenageamos, guardando-o, para sempre e tal como ele foi, na nossa memória, e com a consciência de que o seu nome, o seu exemplo e a sua Obra integrarão para sempre a nossa história colectiva.


