A greve geral
e os trabalhadores portugueses católicos
Jorge Messias
Os trabalhadores portugueses de confissão católica constituem uma camada essencial do povo que tanto desejamos vir a ser - povo consciente dos seus direitos e dos seus deveres, sedento da sua própria valorização e solidário para com os explorados e oprimidos. Nenhuma dificuldade existe em se reconhecer esta verdade. Os trabalhadores católicos são parte integrante do mundo do trabalho e movem-se a partir da mesma consciência de classe que a experiência da vida produz e segundo as mesmas aspirações sociais que ligam entre si os outros trabalhadores. É por isso que se impõe combater os possíveis efeitos perversos do discurso contraditório e largamente desautorizado dos seus bispos, quando estes falam dos desacertos da próxima greve geral. Esta greve é justa, oportuna e necessária. Mais, ainda : trata-se de uma acção pacífica de luta que se enquadra inteiramente nos princípios da doutrina social da Igreja.
Ao darem os sacramentos à noção de capitalismo selvagem que o «Código do Trabalho» transporta ao longo de todas as suas principais cláusulas - economia ao serviço da empresa, competitividade apenas acessível aos grandes grupos económicos, sobreposição das leis de mercado às conquistas dos trabalhadores, redução ou destruição dos direitos das famílias, remuneração do voluntariado (católico), opção preferencial pelos ricos, noção da empresa como estrutura patriarcal dominada pelo patrão e admissão do princípio da irreversibilidade do processo de globalização capitalista - os bispos portugueses, na sua Nota Pastoral de 14.11.002, visam a desmobilização das grandes lutas de massas que se avizinham e aceitam baixar o braço pastoral ao níveis da heresia. Escolhem e isolam dos contextos da Doutrina Social as passagens que mais convêm ao branqueamento do grande capital e baptizam, em nome da fé, as imposições do patronato. Excedem, nesses delírios do poder, o próprio João Paulo II. São mais papistas que o Papa.
Por quase todo o magistério deste papa têm desfilado as atitudes mais reaccionárias. Mas a sua caminhada à direita foi gradual. Nos inícios dos anos 80, ainda estava muito viva, na Igreja, a recordação do Concílio Vaticano II e o movimento progressista estruturado era uma realidade que o Vaticano não podia ignorar. Foi nestes quadros que João Paulo II escreveu a sua encíclica «Laborem Exercens» (1981), acerca do trabalho humano, a qual a hierarquia portuguesa de então classificou da seguinte maneira: a carta pastoral do Papa «sublinha, acima de tudo, o primado da pessoa sobre as coisas e do trabalho dos homem sobre o capital» (apresentação da Encíclica, edição portuguesa).
Fazem parte dos dogmas da Igreja as posições do Bispo de Roma: «Deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio desde sempre ensinado pela Igreja. É o princípio da prioridade do trabalho em confronto com o capital. Este princípio diz respeito directamente ao próprio processo de produção, no qual o trabalho é sempre causa eficiente primeira, enquanto que o capital, sendo simples conjunto dos meios de produção, permanece apenas como instrumento ou causa instrumental. Este princípio é uma verdade evidente que resulta de toda a experiência histórica do Homem» («Laborem Exercens», n.º 12).
A hierarquia católica portuguesa, apesar do gigantismo dos meios de comunicação que controla, nunca fez um esforço sério no sentido de divulgar, em sentido democrático, os documentos da sua teoria social. Cita-os e fala dos seus conteúdos apenas quando lhe convém. Joga com palavras e conceitos e omite o essencial: «A questão do trabalho humano constitui uma componente fixa , tanto da vida social como do ensino da Igreja» (LE, n.º 2). Ou, ainda (LE, n.º 8): «Para realizar a justiça social nas diversas partes do mundo é preciso que haja sempre novos movimentos de solidariedade dos trabalhadores com os trabalhadores» (idem).
Ao aderirem à greve geral do próximo dia 10 de Dezembro, os trabalhadores
católicos vão responder a um duplo compromisso assumido com a
sua classe e com a doutrina da igreja como célula viva.![]()
«Avante!» Nº 1510 - 5.Dezembro.2002