Artigo anterior  Próximo artigo


A internet na China

COMUNICAÇÃO  • Francisco Silva

Os afazeres profissionais levaram-me desta vez à China, neste Outono de 2002, passada uma meia dúzia de anos sobre uma viagem a Pequim (na China diz-se Beijing em vez da ocidental designação de Pequim). Desta vez a ida foi a Xangai, com os seus 16 milhões de habitantes, a mesma ordem de grandeza em número de habitantes que Beijing. E outra vez as escalas desadaptadas para o habitual cenário, já não direi o português, mas o europeu, a estontearem o menos desprevenido. Sim, em comparação com o cenário estável, sem crescimento económico ou quase, desta península euroasiática - a Europa - à beira-mares plantada.

Pudong é a parte de Xangai, a zona especial do outro lado do rio, que geograficamente corresponderia a Almada ou a Gaia. Mas, ao contrário destas, relativamente à Xangai conhecida, Pudong não era praticamente nada há menos de dez anos. Era o sítio para onde ninguém quereria ir. E agora, Pudong - onde fiquei sediado e onde também está o impressionante centro internacional de congressos - é uma enorme manhattan arquitectada à pós-moderna maneira chinesa. Paredes meias com o hotel, um enorme centro comercial. Mais adiante, uma torre de televisão a raiar os 500 m de altura, um imenso aquário, etc. Do outro lado, do rio, lá está a clássica Xangai!

Bem, mas a minha intenção central não é o reportar sobre a enorme e bela Xangai, uma Xangai a crescer, literalmente, a olhos vistos. Para tal escasseia-me o engenho e arte, o espaço e o tempo… e, afinal de contas, o núcleo do tema para este texto também é outro. De facto, a razão da minha visita a Xangai prendeu-se com reuniões do ICANN(1), entidade referida por alguns, a quererem-se mais à moda, mas de forma desfocada, como órgão mundial de governance da Internet. Reuniões que são realizadas, ao ritmo de 3-4 por ano, em locais que vão rodando de continente para continente (em 2002, até agora: Accra, Bucareste e Xangai).

O ICANN, que foi estabelecido na base de um acordo celebrado com o Ministério do Comércio dos EUA e cuja sede é na Califórnia, é uma instituição independente, sem fins lucrativos, tem por missão central a coordenação, a nível geral, dos sistemas globais de identificadores únicos nomeadamente os nomes de domínio (por exemplo, os terminados em «.com» ou «.pt») e os endereços numéricos IP (Internet Protocol) correspondentes e, em particular, assegurar o funcionamento estável e seguro das infra-estruturas que os materializam. Nesse sentido, o ICANN coordena o desenvolvimento das políticas apropriadas aos objectivos referidos.

Paralelamente às reuniões do ICANN, uma das organizações chinesas que as acolheram - o «Cento de Informação sobre a Internet na China» - distribuiu informação relativa à realidade da Internet neste país cuja população - os seus 1300 milhões de habitantes - corresponde a mais de 1/5 dos efectivos da Humanidade. Nunca é demais referi-lo. E uma informação detalhada e actualizada (a meados de 2002), a constante do documento que foi facultado a todos os participantes, o décimo relatório de apuramento estatístico sobre o desenvolvimento da Internet na China (o primeiro foi publicado em Novembro de 1997).

No Outono de 1996, quando de uma minha primeira visita à China (2), eram entre uns 100 000 e 200 000 os utilizadores. O que já parecia alguma coisa numa altura em que os números do conjunto mundial andariam por uns 20 milhões, para os mais optimistas uns 30 milhões. Em Portugal, seria qualquer coisa na mesma ordem de grandeza da China na altura, com a «pequena» diferença de para cada português haver uns 125 chineses (não contando as respectivas diásporas) ! Agora, no Outono de 2002, já terão passado os 50 milhões. O número de mais de 45 milhões é referido no relatório e foi registado em Julho deste mesmo ano.

Pois é, como em tão pouco tempo as coisas mudaram! Em Portugal o número de utilizadores da Internet já ultrapassou os 4 milhões e, tudo indica, já vai acima da média da UE em termos de penetração no país. Mas esses mais de 4 milhões - 4,5 milhões - são hoje 1/10 do total dos chineses. E estes são o dobro dos existentes no Mundo há pouco menos de 6 anos. Além disso, os chineses, neste Outono de 2002, já constituem mais de 7% de todos os mais de 600 milhões de cibernautas existentes no Mundo. Sei, ainda mal chegam a uns 4% da população da China, mas foram multiplicados 74 vezes em relação a 1997.

A Comunicação Social, zelosa a assinalar limitações de acesso a certos sites na China, também poderia falar sobre esta imensa realidade que é o contingente de cibernautas existentes neste país.

_________________________


1) ICANN - Internet Corporation for the Assigned Names and Numbers (www.icann.org)
2) Para mais detalhes consultar o livro do autor deste texto "Narrativa Nova", publicado através da Editorial Caminho.

«Avante!» Nº 1514 - 5.Dezembro.2002