Artigo anterior  


À margem das «Bases para
um novo Conceito de Defesa» (5)

RELIGIÕES  • Jorge Messias

Se regressarmos aos inícios desta série poderemos retomar o tema SAG-Soluções Automóvel Globais, um grupo económico poderosíssimo. Não é que ele seja caso único ou que por si só justifique que se esqueça o complicado labirinto em que nos vamos enredando. Em Portugal não faltam nichos mal conhecidos onde a força do dinheiro se transforma em poder político e a cruz em cifrão. Este exemplo da SAG tem sobretudo interesse por permitir relacionar alguns nomes, quantificar alguns valores e analisar com melhor aproximação algumas estratégias. A SAG-Soluções Automóvel apenas representa um ramo de negócios do Grupo SAG, com cerca de 30 empresas filiadas. Apesar desta limitação, a SAG Automóvel declarou, no Exercício de 2001, lucros líquidos de 38 milhões, 976.497 «euros» ou seja, à volta de 800 mil contos (Relatório e Contas, jornal Público, 24.04.002). O quadro de pessoal foi, neste exercício, de apenas 18 empregados. A remuneração fixa de cada administrador estabeleceu-se na seguinte base: exercendo funções executivas, 1.122.188,82 euros/ano; não executivas: 473.536,44 euros. Porém, como a SAG Automóvel faz parte da SAG Grupo, constituída por dezenas de sociedades, o mesmo gestor pode acumular vencimentos como administrador da SIVA e como quadro não executivo de outras empresas filiadas (ou como não executivo da SIVA e quadro executivo dos corpos sociais de outras empresas). Esta forma de remuneração é, aliás, característica da generalidade das transnacionais. Para além da remuneração fixa ( significativamente considerada «pouco interessante»), cada administrador detém carteiras de títulos com milhares de acções das holdings que o grupo dirige ou com as quais cruza interesses e alianças. Consolida-se deste modo, entre as elites dirigentes, uma forte noção da importância da ética de gestão de doutrina católica e do sentido de grupo capitalista. Nesse plano, as elites dirigentes são entre si solidárias e podem proclamar: «A ética dá lucro!». Merece a pena olhar-se nesta perspectiva (como paradigma alargado ao conjunto das transnacionais) para o caso de António Bernardo Aranha Lobo Xavier, titular do Conselho de Administração da SIVA (apenas três elementos) e que nele ocupa as importantes e imprecisas funções de representante para as relações com o mercado. Partilha o poder sobre esse vasto império com dois membros do clã Pereira Coutinho: João Manuel de Quevedo e Carlos Alexandre Antão. Rui Pena, igualmente seu par do CA, suspendeu o lugar quando entrou para o governo PS mas já foi reintegrado, depois das recentes legislativas, como poderoso gestor da SAG. Ninguém pode, entretanto, afirmar que Lobo Xavier seja um simples tecnocrata ao serviço da família Coutinho. Activo católico e dirigente cristão-democrata do CDS/PP, deputado à AR, membro da Comissão de Revisão do Ministério das Finanças, advogado de grandes empresas, LX é consultor jurídico do Grupo Sonae de Belmiro de Azevedo, administrador da holding Caima-Cerâmica e Serviços e um dos grandes mentores do meganegócio da TV Digital - matriz de gigantescos fluxos financeiros que giram em torno de um «núcleo duro» constituído pela SAG, pelos americanos da Lockeed Martin e da Lucent Tecnologies , da Telecel, da SIC e da RTP. (fontes : revistas Exame, Fortuna & Negócios, Visão, relatórios do CA da SIVA, jornais Público, Semanário, O Independente, Expresso, Diário Económico, etc.). Homem de negócios e «homem de missão», LX é um «retrato-robot» antecipado do dirigente social português que o capitalismo tem em fase de lançamento. É o tecnocrata que tanto pode ser gestor-banqueiro como padre-gestor. Que define os valores morais conforme as leis do mercado. Ainda há poucos dias se afirmava, numa insuspeita publicação da OCDE e da Universidade de Greenwich, que o funcionamento das transnacionais «ao operarem em ramos de sectores, arrasta consigo o suborno e a corrupção, não apenas como consequência de solicitações pontuais mas, sobretudo, como uma escolha estratégica». A multinacionalidade (ou globalização) introduz um travão ao desenvolvimento, concentra as riquezas e aumenta os lucros, reduz à pobreza, à incapacidade de competição, à degradação do serviço público e ao aumento desmedido do suborno e da corrupção.

«Avante!» Nº 1511 - 14.Novembro.2002