Artigo anterior  Próximo artigo


Lisboa
Uma política de casino

ARQUITECTURA  • Manuel Augusto Araújo

Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada.
Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei...
Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei.

                     Al Capone

Santana Lopes afirmou algures que, com ele, a cidade de Lisboa iria sofrer uma total transformação. Além desta afirmação de princípio e de algumas medidas que eram publicitadas nos «totens» da campanha eleitoral pouco se sabia de como o edil iria promover o terramoto lento da urbe para a fazer renascer à sua medida.

No seu estilo próprio e com a espessura de pensamento que desde sempre o caracterizaram, e que lhe foi conferida por actividades tão puxativas do intelecto como a de ver se a cama onde o dr. Sá Carneiro se ia deitar estava confortável e se à cabeceira o copinho de água não estava ausente, Santana Lopes ia, de entrevista em declaração, esclarecendo as suas ideias para a cidade que, limpas do populismo pimba embrulhado em papel couché que são a imagem de marca da sua vida política de onde, recorde-se, solenemente saiu sem sair para reentrar de onde nunca tinha saído, só podem inquietar quem se preocupa com Lisboa, com a qualidade de vida de Lisboa, com o desenvolvimento de Lisboa.

Ainda antes das medidas de fundo, praticamente só do túnel das Amoreiras se falava ,já algumas «pérolas» eram largadas avulso .Lembremos a de mandar parar, e depois alterar, o projecto da Epul para o Martim Moniz, da autoria de Manuel Tainha e Silva Dias, por considerar que não se enquadrava nas características da zona, disparate de quem não é ceguinho mas não consegue ver, o que é muito pior, de «achar» que as cores em Chelas eram muito violentas e que deveriam ser mais suaves, em tons beijes, o que se é verdade é tão verdade uma como outra, que a cor dominante nas zonas de Alfama e Mouraria deveria ser o branco porque é uma zona árabe, pasme-se com a parvoidade. Tudo isto revela um edil interventivo e opinativo que isso, diga-se em abono da verdade é cousa que não lhe falta, é só escutar as banalidades que debita todos os domingos na televisão ou as que escreve no Diário de Notícias e, as mais consistentes, que vai largando na Bola, ou lembrarmos aquelas entradas teatrais (já era o teatro de revista na cabeça) nos congressos do PSD onde repetia que só queria discutir ideias e princípios e depois de tudo espremido eram só vacuidades.

Ia isto tudo correndo com avanços, na Câmara, e recuos, na Assembleia Municipal, até que saltam para o terreiro as medidas de fundo.

Uma a provocar larga controvérsia, a de da instalação de um casino no Parque Mayer para, supostamente, o salvar da decadência em que se arrasta há longos anos.

Não entrando em considerações de teor moralizante, sublinhe-se a traço muito grosso o principio de que só dinheiro resolve os problemas pelo que se um casino atrai muito dinheiro a transfusão de algum desse dinheiro para as veias do Parque Mayer é a condição necessária e suficiente para o ressuscitar. É o raciocínio mais viciado e primário (o autarca Lopes a isto acrescenta a promessa de ser esse o caminho para revitalizar outro moribundo em coma profundo, o teatro de revista, num vale tudo para garantir apoios) que não pensa nas causas do declínio dessa área com uma localização única na cidade de Lisboa, não pára para pensar com que actividades se poderá revitalizar essa área, só vê o que é mais mediocremente óbvio (será a única solução?), o negócio do imobiliário e do jogo (porque será que subitamente o grupo Amorim adquiriu parte da posição da Bragaparques? que garantias obteve? para estes senhores as únicas ideias que tilintam são as do som das moedas e não as iam espalhar a esmo nas esburacadas ruas do parque por amor às coristas, sem uma qualquer certeza!), nem sequer lhes passa pela cabeça promover um debate de ideias que se consubstancie num concurso de ideias para o Parque Mayer.

Mas este ruído das roletas, com os inesquecíveis concertos de violino de Chopin em música de fundo, tem atirado para segundo plano algo de muito mais grave: a pretendida suspensão do PDM para permitir que os edifícios cresçam, pelo menos, mais um ou dois andares.

A justificação do «esclarecido» edil para esta medida gravíssima é a de possibilitar aos proprietários um «suplemento» económico para reabilitarem os edifícios. Mais um passe de mágica para recuperar o parque urbano da cidade, e mais uma vez só ver a cidade através das lentes do negócio. (continua)

«Avante!» Nº 1511 - 14.Novembro.2002