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Nos 50 Anos de vida literária
entrevista com Urbano Tavares Rodrigues
Leonel Gonçalves
Avante! O Avante! congratula-se pelos teus 50 anos de Vida Literária. Desde «A Porta dos Limites» até hoje qual é o comentário que fazes ao teu caminho percorrido?
Urbano
Tavares Rodrigues Tive várias profissões - professor, jornalista,
escritor - que me levaram a conhecer terras distantes e com todas elas aprendi,
mas sobretudo com a literatura e com a vida, e tornei-me um pouco cidadão
do mundo, deixando sempre o mais fundo de mim no Alentejo. Continuo a reflectir
sobre a arte e a ficção, a contar histórias, a amar as
palavras. E nada mata em mim os sonhos de sempre, de que os meus livros estão
cheios também. 0 tempo mudou-me, como a toda a gente, e deu-me alguma
experiência, até da dor e do desencanto, mas continuo rigorosamente
fiel aos meus valores essenciais, a liberdade e a justiça social, que
desejo ainda ver harmoniosamente unidas numa sociedade bem diferente da de hoje.
Qual a profunda razão dos teus temas?
Alguns críticos têm escrito, e creio que com lucidez, que
os meus grandes temas são o amor, a morte, o tempo e a revolução.
Nem eu sei qual a profunda razão. Intimas obsessões, pulsões
dominantes? O tratamento do amor nos meus livros tem uma forte componente erótica,
mas ultrapassa o sexual para se alargar ao amor (abstracto e concreto) pelos
outros, no sentido de solidariedade vivida ou ambicionada. Talvez a tuberculose
pulmonar aos vinte anos e também o fascínio juvenil pela filosofia
da existência, marcada pela angústia e que depois tentei nos meus
livros combinar com a visão marxista, possa contribuir para explicar
a presença da morte, não raro ligada ao amor, nos meus textos.
E o facto de ter vivido cinco décadas sob a ditadura fascista tenha a
ver com a veemência da revolta e a ânsia da revolução
em muitos dos meus romances e contos.
Qual, no teu entender, o papel do escritor na sociedade portuguesa
actual? Está a ser cumprido? Os escolhos? E o que deveria ser feito,
pelos escritores no seu conjunto e por terceiros?
Houve um tempo na Europa em que os escritores foram a consciência
dos povos, no aspecto ético, no aspecto político, até nas
suas vidas. Estou pensando no André Malraux, de «A Esperança»
e «A Condição Humana», combatente na Guerra de Espanha,
do lado republicano, membro da Resistência contra o invasor alemão,
em França. E igualmente em Jean-Paul Sartre, que em «Os Caminhos
da Liberdade» e «As Mãos Sujas», por exemplo, colocou
os grandes problemas da escolha e necessidade de participação
do intelectual. Companheiro, embora não filiado, durante muitos anos,
do Partido Comunista Francês, activista contra a guerra colonial na Argélia,
foi um cidadão presente em todos os brandes conflitos e questões
sociais do século XX, ao longo da sua existência.
Muitos dos escritores portugueses do tempo das ditaduras salazarista e caetanista, direi mesmo a grande maioria, estiveram directamente ligados à luta clandestina e semi-clandestina ou colaboraram com a frente cultural antifascista na luta pela restauração das liberdades, no apoio aos presos políticos e, através de conferências e colóquios, às colectividades recreativas, culturais e operárias que tiveram um papel muito importante no desenvolvimento e transmissão da mentalidade progressista.
Hoje, tudo é diferente, numa democracia representativa que assume teoricamente a defesa das liberdades e assegura de facto algumas na prática, mas segue o modelo económico do capitalismo neo-liberal, que gera desigualdade, miséria, corrupção, crime e adormece as consciências. O oportunismo, por um lado, e, por outro, o egoísmo da competição frenética e a ânsia de dinheiro estão a degradar o próprio estilo de vida português, à semelhança do que se passa em quase toda a Europa, com a agravante do abismo que há em Portugal entre os rendimentos do capital e os do trabalho.
Eu, pessoalmente, reajo contra esse estado de coisas, aqui e em quase todo o mundo, quer no meu comportamento político, quer nos meus livros, que fazem parte de mim e da minha visão do mundo, sem deixarem de ser, ou quererem ser, obras de arte, pela inovação de estruturas narrativas e verbais.
Que dizer aos outros escritores, agora que cada um vive no seu casulo individualista (aliás, o escritor é individualista por natureza, escreve sozinho)? Eu dir-lhes-ia, se tivesse tribuna para ser ouvido, que façam o melhor possível o seu trabalho de oficina - e muitos o fazem, a nossa literatura actual é de excelente qualidade - e que, se tiverem ocasião, abram bem os olhos para os guetos e as sarjetas das nossas cidades, que nem todos conhecem, e também que meditem um pouco no «barranco de cegos», isto é, a voragem para a qual este capitalismo predador e até desumano conduzido pelo império americano e pelas grandes multinacionais está a arrastar o globo, com incidências em toda a parte. Uma literatura de aviso e por vezes de apocalipse está a surgir, nem sempre sob a forma de ficção ou de poesia, em muitos países.
Entre nós pouco ainda, mas há sinais.
Nada se repete no curso da história, como no da literatura, embora apareçam períodos revivalistas. Não haverá assim entre nós um novo neo-realismo. Aliás, o desaparecimento, embora não total, da censura, substituída por vezes por censuras internas, nos órgãos de informação, retira hoje ao romance o papel que teve entre nós, quando o inquérito jornalístico-sociológico e a autêntica reportagem, que capta a vida verdadeira, eram proibidos.
De toda a maneira, a questão social, tratada com apuro estético, mas com grande força de denuncia, vai surgindo, contra a moda estabelecida, em romances que não pretendem ser testemunhos, mas são gritos de consciência, como os de Francisco Duarte Mangas, José Luís Peixoto ou Possidónio Cachapa, para citar só alguns dos mais jovens.
Os meus romances e contos dos últimos anos, como por exemplo «O Ouro e o Sonho», «Adeus à Brisa», «O Supremo Interdito», sendo antes de mais literatura pela especificidade da escrita e pelas inovações narrativas, nunca deixaram de ser testemunho do nosso tempo e do espaço em que vivemos, dos seus vícios e mazelas. E tenho pago por isso. Paga-se sempre quando se luta contra a corrente.
Neste ano do cinquentenário, que projectos literários
tens?
Espero publicar até ao fim do ano dois livros de ficção,
um romance relativamente extenso, «Nunca Diremos Quem Sois», e uma
narrativa poética, «As Barricadas».
O primeiro foi escrito em circunstâncias difíceis, entre Junho de 2001 e Março de 2002, um período curto para a elaboração de um romance e atormentado, durante o qual fiz duas operações à vista e por várias vezes estive quase sem ver. Comecei por o ditar para um gravador e o meu primeiro objectivo era vencer, ou iludir, a angústia que a ameaça de cegueira me causava. Pouco a pouco prendi-me à história que ia inventando, criando personagens, alargando a intriga, saboreando os diálogos. O mais fácil de compor oralmente são, de resto, os diálogos, em que este livro é fértil. Diálogos e monólogos interiores. Quanto às descrições, igualmente abundantes, pois a acção decorre num condomínio hoteleiro de um Algarve actual, imaginário e fantástico, tive de as reescrever quase completamente nos meses em que recuperei depois visão suficiente para o fazer.
No romance aparecem e contracenam financeiros em férias, modelos de «passerelle», jovens ambiciosos e pares de namorados cheios de problemas, um empregado comunista, sábios geneticistas, condes e condessas, um sacerdote elegante, «dealers» da droga, estrangeiros de várias proveniências, populares algarvios e gente de um bairro de barracas. A globalização capitalista está muito presente, nas conversas, nas atitudes, nos orgulhos e medos deste microcosmo.
«As Barricadas», como o título já diz, é uma narrativa, com muito de poético e imaginativo, sobre as barricadas que surgiram nas ruas de Paris durante a Revolução de 1848, a Comuna de Paris, em 1871, e a insurreição estudantil de Maio de 1968. 0 livro tem ilustrações belíssimas de Rogério Ribeiro, que expressam o entusiasmo revolucionário e a dor humana, em sintonia com o espírito do meu texto.
A personagem central é o povo em luta pela transformação da sociedade. E, à mistura com personagens inventadas por mim, chamo à acção figuras de romances de Flaubert e Zola e o próprio Flaubert, tal como Baudelaire e Rimbaud, aparecem nestas «Barricadas».
Além desses dois livros, deve sair ainda este ano uma antologia intitulada
«O Algarve em Poemas», organizada por mim, com a colaboração
de Isabel Aguiar Barcelos, e com uma introdução também
minha.![]()
«Avante!» Nº 1511 - 14.Novembro.2002