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Para um retrato de
Urbano Tavares Rodrigues

• Manuel Gusmão

Mesmo tratando-se de saudar os 50 anos de carreira literária de Urbano Tavares Rodrigues, em vez de falar estritamente da sua escrita, tentarei sobretudo falar dele, Urbano. Apoio-me para isso na complexa unidade que ele próprio figurou no título de um livro de 1971: Ensaios de escreviver.

Não pretendo acolher-me ao modelo de linhagem romântica e marca positivista que supõe uma relação directa e simples entre o "O Homem e a Obra". Uma das razões que levou muita da crítica e da teoria literárias do século XX a suspeitar e a criticar a aparente "naturalidade" dessa relação tem a ver com a noção de que entre um indivíduo humano e um "corpo" de textos escritos existe uma clara incomensurabilidade relativa. Esses textos tendem a exceder de várias formas o seu autor civil, e esse agente do seu aparecimento também excede, por sua vez, aquilo que assinou. Trata-se então de uma relação entre duas singularidades, em excesso uma em relação à outra e, entretanto, unidas por uma complexa implicação mútua.

Na obra de Urbano Tavares Rodrigues, tal como na de outros autores, pode ler-se a persistência, para além do período histórico do romantismo, de uma vontade, um desejo e uma necessidade de insistir nessa relação de implicação. Uma relação que não precisa, para poder ser construída, de apagar o que há de invenção, de transfiguração do que se viveu ou apenas sonhou ou desejou, naquilo que se escreve; mas precisa, por exemplo, de pensar que há tendencialmente um efeito daquilo que se escreve sobre o vivido e o que há ainda para viver.

Para quem pensa a literatura também como um modo de configuração antropológica aberta, ou seja, histórica e transhistórica, como um factor de socialidade e de individuação (não só de quem escreve mas também de quem lê) essa relação de implicação entre escrita e vida não pode ser pura e completamente esquecida, sem que se pague um preço demasiado alto.

Mas o meu propósito é muito mais modesto e trivial. Referirei, por vezes, a obra na sua contingência, mas apenas para disparar alguns flashes em direcção a um retrato fatalmente incompleto do Urbano, flashes pelos quais o fotógrafo inevitavelmente deforma. Um fotógrafo que sendo, no caso, um amigo, camarada e colega, nunca foi, entretanto, seu aluno. Alguém que dele está à distância geracional de duas décadas, e que, para além do mais, procura o seu retrato também para utilizar algumas palavras um pouco esquecidas ou perdidas.

E isto fornece-me o meu primeiro movimento.

Urbano Tavares Rodrigues começa a publicar no início da década de 50. Uma década que, designadamente em Portugal, é um tempo de vários modos complicado. O António Borges Coelho dizia-me uma vez algo como isto: "vocês não imaginam como para nós, os dos anos 50, esses tempos foram difíceis". E de facto, trata-se de uma década apertada entre duas outras particularmente fortes e intensas: a de 40 e a de 60.

Apenas alguns brevíssimos fios, quanto ao que ao retrato interessa. São tempos históricos, exasperadamente contraditórios, e convulsos à escala internacional e nacional, de esperanças frustradas em que o fascismo possa vir a cair com a derrota do nazi-fascismo e de começo da contra-ofensiva imperialista, de fluxos da unidade e da luta, e de refluxo, de repressão, divisão e desencanto.

Do ponto de vista literário, e quase sem falar dos que vêm de antes, são anos marcados pela chamada "polémica interna do neo-realismo" e por diversas metamorfoses do realismo; anos marcados pela afirmação de um surrealismo que, embora tardio em termos europeus, é particularmente vivo na obra de Mário Cesariny de Vasconcelos -, um surrealismo que transforma aquilo que retoma dos surrealistas franceses, através de uma aguda apropriação de momentos e linhagens da tradição lírica em Portugal. Um surrealismo que é capaz de homenagear Cesário Verde, que marca o início da obra de Alexandre O’ Neil (que singularmente evoluirá depois), que se cruza com os ecos refractados do neo-realismo nos primeiros movimentos da poesia de António Ramos Rosa; e que é admiravelmente transcendido em Herberto Helder.

São também tempos de eclectismo estético, de renovação, desenvoltura e ampliação do teclado lírico em, por exemplo, David Mourão-Ferreira e na obra de outros poetas que começam a publicar nos últimos anos da década, como Fernando Guimarães, Fernando Echevarria e Pedro Tamen.

Nas transformações do realismo, as reverberações literárias do existencialismo desempenham, com outras maneiras de representar o mundo, um papel significativo em autores que vêm de trás, como Vergílio Ferreira, e inscrevem-se desde o início na ficção de Urbano Tavares Rodrigues, assim como na de outros autores, tão distantes dele e entre si, como José Cardoso Pires, Augusto Abelaira ou Orlando da Costa.

É nesta conjuntura, aqui esboçada sobre o joelho, que na obra de Urbano se cruzam e virão a cruzar características várias, produzidas pela assimilação de procedimentos de diferenciadas proveniências. A sua vontade de efabulação liga-se assim à construção de mundos onde a imaginação do real se procura atenta aos tempos que vão mudando. A dimensão social e política das representações narrativas amplia-se para acolher a meditação existencial e a imaginação do Eros. O fascínio pelo universo do sonho e pelos seus efeitos de significação oracular, ao mesmo tempo clara e obscura, assim como pela sua força de transfiguração do quotidiano e de abertura ao fantástico, procura ligação com as tonalidades líricas das descrições.

Na obra do ficcionista e, de outra maneira, na sua obra crítica, o cruzamento destes fios mostra em Urbano um eclectismo estético, de estilo e de gosto, que marca a sua produção e a sua figura humana, e vai a par com o desejo urgente de linguagem e de fábulas que se exprime até hoje no número e no ritmo das suas publicações.

Mudemos de ângulo.

Acabada a licenciatura em Filologia Românica, Urbano Tavares Rodrigues é leitor de português, entre 1949 e 1955, em três universidades francesas, o que provavelmente pode ajudar a compreender a formação do elo que nele pressentimos entre o eclectismo e certas formas de cosmopolitismo.

Depois, a partir de 1957, é assistente de Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras da então Universidade Clássica de Lisboa, regendo também disciplinas de literatura portuguesa e de literatura francesa. Mas isso pouco durou. Logo em 1959, é afastado por motivos políticos da Faculdade, e durante alguns anos é impedido de ensinar, mesmo que fora dela, por "participação em actividades subversivas, com animus conspirandi" – a besta falava latim e queria dizer que essa participação na luta antifascista visava expressamente liquidar o fascismo.

Ao longo da década de 60 será preso por três vezes. Mas interessa-me voltar ao afastamento do ensino universitário. Não tanto para insistir em como o seu caso é o de muitos outros comunistas e antifascistas portugueses, ou no modo como isso feriu profundamente a universidade e a cultura portuguesas. Antes, e sobretudo, para chamar a atenção para o modo como podemos procurar imaginar os efeitos dessa violência sobre aquele ou aqueles que a sofreram. Para quem trabalha num dado domínio científico - e os estudos literários, ou as humanidades, constituem um deles -, a instituição universitária é, mesmo quando muito aquém do desejável, um espaço colectivo fundamental para o próprio trabalho de cada um dos seus membros. Não é preciso ceder a uma visão idílica, e inteiramente inadequada, da Universidade (nos últimos anos sujeita a fortíssimas pressões das orientações neo-liberais) para perceber que, mesmo se apenas tendencialmente verificáveis, as exigências de rigor e de disciplina intelectuais, de actualização constante e de espírito crítico, assim como o acesso a uma informação crescente e ao seu tratamento, que em maior ou menor medida são uma tarefa colectiva, são factores da qualidade do trabalho que se faz, ou que cada um pode fazer. Para além das excepções, e também as há, a exclusão da Universidade obriga a um esforço maior, mais intenso e de outra forma arriscado, aquele que quer continuar a trabalhar, no caso, sobre a literatura, e que, entretanto, não pode contar com a integração nesse pólo colectivo e institucional da produção, e não apenas da transmissão ou da intermediação de saberes, que as universidades tendencialmente são, mesmo através das dificuldades, da insuficiência das condições de trabalho, das contradições no seu seio, e do seu relativo isolamento social.

Urbano Tavares Rodrigues resistiu. Será fora da Universidade que continuará a estudar e a publicar sobre temas ou ‘objectos’ tão diferentes como "O mito de Dom Juan", "O teatro e o seu duplo", de A. Artaud, Teixeira Gomes, o romance francês contemporâneo, ou a saudade na poesia portuguesa. Entretanto, o seu projecto de uma tese de doutoramento sobre Camilo Pessanha perder-se-á, pelo menos nessa dimensão de trabalho de investigação sustentada.

Por outro lado, o Urbano gostava e gosta de ensinar. A memória dos seus alunos que vinha até àqueles de nós, que não chegámos a sê-lo, dizia que eles também gostavam das suas aulas. Aquele gosto, onde várias motivações se podem entretecer, é, quando ocorre, um traço da figura do indivíduo que ensina. O rosto e a biografia de um professor são também feitos das inscrições que dele ficaram na memória dos seus alunos. Por exemplo: fui aluno do seu amigo de sempre, David Mourão-Ferreira nas aulas de "Teoria da Literatura", então no 1º ano dos cursos de Filologia Românica. Dessas aulas, guardo entre outras coisas a memória da leitura do "Sentimento de um ocidental". Desde então, esse poema, alguns dos espantosos versos de Cesário Verde continuam a vibrar na minha escuta da poesia e, por exemplo, a imagem verbal do "parafuso [que] cai nas lajes, às escuras" continua a cair e a bater na minha imaginação. A memória desse e de outros versos tenho-a associada à sua leitura em voz alta nas aulas, por David Mourão Ferreira.

Posso então dizer agora que o Urbano foi longamente amputado da associação do seu nome a possíveis memórias dessas em mim e em muitos outros. Glosando uma formulação de Carlos de Oliveira sobre si próprio, digo que Urbano Tavares Rodrigues foi, também ele, ilegitimamente privado de uma parte da sua biografia possível.

Seguindo este motivo, posso agora entrar num segundo movimento, que me conduz mais perto do retrato que prometi. É que o Urbano, que só após o 25 de Abril de 1974 regressou à docência na Faculdade, que só pôde fazer o doutoramento já com mais de 60 anos, e que cumpriu os restantes passos da carreira académica já perto do "limite de idade"; o Urbano, vítima daquela violência que atrás referi, poder ter dela guardado alguma amargura, mas todos os que o conhecem sabem que não a deixou fechar-se em ressentimento pessoal. Este não ressentimento, que tem a ver com o seu espírito de resistência, com a constância dos seus ideais (que nos protegem do fechamento na auto-lamentação) é um traço decisivo do feixe de traços que caracterizam a sua forma de individuação.

Ele é um homem sedutor e seduzido, generoso e delicado. Delicado até ao ponto em que, seguindo-se os estereótipos, se diria que é de uma delicadeza como que "feminina". E entretanto, e de facto contra os estereótipos, é um homem de uma conhecida coragem física e moral. Um homem que transporta consigo o culto antigo da amizade e do que nela é germe ou sinal de fraternidade. Um homem que aprendeu a duvidar e a viver com a dúvida, com a interrogação por vezes dolorosa dos seus ideais. E entretanto um homem capaz de uma surpreendente candura. Assim como é alguém que permaneceu fiel ao que para ele é uma exigência ética vital, no sentido em que sustenta uma vida.

Um homem generoso. E estamos já entre palavras que, por vezes, parecem um pouco perdidas. A sua generosidade é uma forma de disponibilidade e de atenção, de cortesia aberta aos outros, de responsabilidade e de solidariedade. Este caracter pode ser percebido de muitas maneiras. No modo como fazia as suas críticas de teatro, procurando não magoar, forçando-se a encontrar aquele mínimo que merece o respeito pelo desamparo de quem se expõe. No modo como se desdobra a apresentar e prefaciar livros de estreantes, na tentativa de acalentar a pequena centelha de talento, de promover os gestos de uma criatividade possível. No modo como propõe cursos de "escrita criativa", não por efeito de moda, mas porque todo ele tende à generalização ou efectivação das potencialidades criadoras de cada um. No modo como escreve e se expõe, por vezes, sem grande disfarce.

Pode dizer-se que tal generosidade tem a ver com o desejo, muito comum, de se ser amado. É certo que sim, mas nem isso deprecia em si a generosidade e, por outro lado, não se trata só disso. Há, para tal, outras fontes, outras raízes, outros quadros de valores. Podemos vê-las através de um motivo recorrente na sua escrita, do modo como certas descrições de paisagens se incendeiam. Falo do Alentejo, da pertença ao Alentejo.

Cito um parágrafo de um seu livro de 1995, "A hora da incerteza":

"A sensação de volta, ao mesmo tempo eufórica e dolorosa, de tornar às fontes do sangue, incandescência dos cantos corais da minha infância, desse tempo inalcançável, que já não encontro nesse espaço sempre rememorado, nem nas sobreiras vivas, nem nas laranjeiras que restam da antiga horta."

O Alentejo é uma pequena pátria que temos em comum. Ter uma pequena pátria como esta é, em certas circunstâncias, uma espécie de antídoto contra qualquer cedência ao discurso do nacionalismo, que exclui da construção imaginária de uma identidade a alteridade, a diferença e a heterogeneidade. E é também um ponto de apoio para a resistência à dissolução de uma comunidade de humanos, diferentes e iguais, numa gigantesca sociedade anónima de responsabilidade limitada.

Volto à mesma personagem deste livro. Diz ela:

"Continuo a despedir-me, do meu passado, de mim, desta gente, e a trejurar que estarei com eles até ao fim".
Quem é "esta gente"?
- São "os patrícios" de quem a personagem gosta. E cito de novo:
"não só como povo, mas um a um, dos que lutam e penam, ao sol ou ao frio, nas rudes fainas do campo, dos artífices dos almocreves, dos pastores da solidão, dos que são bons como o nosso trigo, hospitaleiros, cordiais, prestáveis, e também dos bêbados, dos violentos, dos maldizentes, não sei explicar, encontro aqui misturados o céu e o inferno e sou desta margem de cá. Têm sofrido tanto, durante décadas, durante séculos. sempre explorados, esquecidos, mal tratados, e embrulhados na sua altivez.

Esta pequena pátria desencadeia uma determinada maneira de entender a necessidade de uma fraternidade. Um transmontano como Torga soube entendê-lo. Muita gente o pode entender. Porque o Alentejo é daquelas paisagens sociais, humanas e afectivas que implicam escolher o campo, a "margem" onde estamos e estaremos. Então, compreendemos que o que somos liga o que escolhemos e aquilo por que somos escolhidos; dito de outro modo: também o que escolhemos nos escolhe. E nessa malha, há a generosidade. Há o saber que a liberdade e a dignidade de cada um de nós são amputadas pela mutilação dos outros, e em particular daqueles que longamente o têm sido.

Há várias famílias de pensamento que podem, a seu modo, entender isto. Mas a nossa é particularmente exigente. Nós, comunistas, existimos para lutar contra a exploração capitalista e todas as formas de opressão que ela gera ou alimenta, para cuidar da humanidade dos humanos históricos que nós somos, num compromisso que não é nem exterior, nem assistencial, nós somos parte orgânica e combativa daqueles que trabalham e criam, são explorados e oprimidos, humilhados e ofendidos. Julgo que a literatura, a universidade e a própria possibilidade da universalização do saber, como dos direitos políticos, sociais e culturais, também são para aqui chamadas, para saudarmos o escreviver do nosso camarada Urbano.

«Avante!» Nº 1511 - 14.Novembro.2002