Zillah Branco
Os eleitores brasileiros escolheram um novo caminho para que seja alterado o destino de escravidão e miséria atrelado à tradicional política da elite subordinada ao imperialismo. O governo de Fernando Henrique Cardoso orgulhou-se de introduzir alguma modernidade que, aparentemente, atendia generosamente a população mais carente - 70% dos 170 milhões que somos - com bolsas escolares (de 4 euros mensais), campanhas de vacinação, merendas escolares (sem fiscalizar os numerosos desvios por funcionários corruptos), punições de alguns dos maiores ladrões do dinheiro público. Pintaram com fraca tinta a ruína nacional, enquanto minavam os alicerces privatizando as mais rentáveis empresas públicas, entregando aos estrangeiros a comunicação, a energia elétrica, a siderurgia nacional. Como declarou um cientista político, «é como se o Brasil tivesse regredido 10 anos com este ciclo neo-liberal».
O voto nacional foi de protesto e de escolha de candidatos apresentados pela esquerda, foi um grito de afirmação da vontade de um povo que se quer respeitado, dignificado. Alguns analistas disseram tratar-se de ilusória pretensão enfrentar o poderio imperial que hoje esmaga o terceiro mundo e se infiltra pelos descuidados caminhos da Europa. Ténue é o limite entre a consciência revolucionária, apoiada em teorias e conhecimentos da história, e o gesto corajoso de quem já não tem nada mais a perder que a própria vida esmagada. Cabe-nos estabelecer os elos de ligação entre uns e outros na difícil tarefa de alterar o caminho sem perspectiva, abrindo novos rumos, alimentando as novas gerações com a confiança no trabalho e na união das forças. Não temos as ilusões de uma gesta revolucionária que substitui um sistema capitalista por uma promessa de socialismo, conhecemos de perto o preço da derrocada soviética além dos muitos sacrifícios ao longo da história de luta dos povos latino-americanos. Corajosamente, lucidamente, repudiamos o fácil bem-estar da social democracia consentido pelo imperialismo para enfrentar as dificuldades de um novo processo de luta.
Lula, o futuro presidente do Brasil, foi muito claro: «Tudo faremos para resolver, no início, os problemas mais graves da população; depois faremos o possível para livrar o país das crises que o tornam dependente; por fim faremos o impossível, com a participação de todos, para que o Brasil ocupe o seu lugar entre os países mais desenvolvidos!» A meta é utópica? Olhando para a frente caminharemos com os pés na terra evitando os abismos desta linda paisagem que conhecemos.
José Reinaldo Carvalho, dirigente do PCdoB, divulgou importante análise sobre «As ameaças dos EUA e os interesses do Brasil» que desvenda três bombas: a financeira - dando receitas sobre o equilíbrio financeiro e deixando velada ameaça do FMI sob a sombra do que já fez à Argentina; a comercial, com a indicação da anexação aos Estados Unidos através da ALCA; a política, com a condenação das aproximações do Brasil com Cuba e com a Venezuela em nome dos «valores» relativos aos direitos humanos (como se no país de Bush os «valores humanos» fossem prezados). «O povo vai tomando consciência também de que esta soberba civilização tropical é uma chave estratégica no hemisfério sul, alvo de cobiças na luta que a superpotência do norte move hoje pela hegemonia do mundo. O novo governo terá respaldo político para corresponder a essa tomada de consciência, constituindo um novo Poder Nacional capaz de se relacionar em pé de igualdade com todas as nações, cultivando os valores democráticos correspondentes à formação histórica e cultural do Brasil, aliando-se com os países e povos com que tenha comunidade de interesses e exercendo comércio bilateral e multilateral com quaisquer parceiros individuais ou organizados em blocos, de qualquer latitude, inclusive com os Estados Unidos, se isto corresponder aos interesses de ambos.»
No Rio de Janeiro, durante o período eleitoral, assistiu-se a uma amostra da violência activada contra a ex-Governadora do PT, Benedita da Silva, que substituiu o governador Garotinho em campanha presidencial. Foi desencadeada uma verdadeira guerra nas favelas dominadas pelos bandidos que são armados e monitorados por gangues internacionais. Durante meses o governo do Estado do Rio despendeu grande esforço e imensas somas de recurso para criar uma estratégia militar capaz de sair da posição defensiva e atacar o centro da organização criminal. Muitas vidas foram sacrificadas pelos soldados e pela população civil moradora na região, os principais chefes da bandidagem foram encarcerados, assim como os funcionários corruptos da Polícia e dos presídios e alguns advogados que serviam de pombo-correio. Politicamente esta acção foi um desgaste para a Governadora que Lula homenageou como «a primeira mulher negra a ocupar tão elevada função no Brasil desde os tempos da escravidão». Sacrificou-se como candidata a Governadora assumindo a responsabilidade pela repressão à mafia internacional da droga.
Lamentavelmente devemos esperar que sabotagens, terrorismo e boatos serão utilizados como arma pelos que se opõem ao programa que Lula apresentou aos eleitores para «mudar o Brasil». Isto sempre ocorreu em todos os processos de independência nacional com a conivência dos que perdem poder e lucros financeiros quando se dá o desenvolvimento das forças produtivas e da consciência de cidadania.
Conquistas eleitorais
No Congresso Nacional, os partidos de direita, e os que se aliaram a ela em 1998, perderam dezenas de lugares agora preenchidos pelos candidatos que se manifestaram claramente por um programa de esquerda, e o mesmo ocorreu no Senado. O PT consolidou a sua já expressiva bancada com 91 deputados federais (a maior entre todos os partidos) e 14 senadores.
O PCdoB recebeu mais de 9 milhões de votos - para senadores, deputados federais e deputados estaduais, - levando ao Congresso Nacional 12 deputados, às Câmaras Estaduais 17 deputados, e um vice-governador no Piaui.
Lula recebeu na primeira volta 46,4% dos votos válidos (perto de 40 milhões) e na segunda volta mais de 61% (correspondendo a mais de 52 milhões de eleitores). Ao receber a informação da estrondosa vitória, traduziu a motivação dos que o apoiaram: «A esperança venceu o medo no Brasil».
Assim como grandes contingentes sociais que não são de esquerda aderiram ao voto pela mudança, resta a esperança de que, com o governo de Lula à frente, realizando com firmeza o seu programa de dignificação do país, até mesmo muitos dos adversários no período eleitoral somarão as suas forças na luta contra as ações do imperialismo que impedem o desenvolvimento económico e cultivam a criminalidade. Fernando Henrique Cardoso, prevendo a derrota do seu candidato, esmerou-se em deixar a imagem do democrata e defensor da independência nacional. Adoçou as referências à necessidade de integrar a ALCA, que antes mencionara como a forma de participar do grande concerto económico global, passando a referir como sendo útil estar presente ali ao mesmo tempo em que fortalece o MERCOSUL. Com a habitual maleabilidade, transformou o discurso de adesão a um organismo dominado pelos norte-americanos e de esquecimento do outro, que une os países dependentes da América Latina, para o sentido contrário. É um sintoma simpático hoje, dos que se consideram centro-esquerda, pender para o lado que encontrou um bom comandante comprometido com o povo e não com a elite.
Dificuldades e confiança na luta
Evidentemente, o caminho não será fácil. A revista VEJA, assim como a TV Globo, publicitaram descaradamente a «ameaça do terrorismo de esquerda» durante a campanha eleitoral do segundo turno. Referiram as diversas tendências existentes dentro do partido de Lula, que baptizaram de xiitas e moderados. Como em todos os processos existirão tendências contraditórias, mas a própria adesão ao Lula, mesmo dos que se sentiram enojados com alguns sectores que o apoiaram, demonstrou a possibilidade de colocar o programa nacional acima das opções individuais. Foi um passo importante na consciência de cidadania que valoriza o colectivo no percurso político.
O governo de Lula - pelas suas características pessoais de homem lúcido, sensível e abnegado lutador pela causa popular - é uma lufada de ar puro, de entusiasmo e de confiança. Os projectos de desenvolvimento social que se somam aos enunciados no programa de governo, serão a melhor forma de participação que qualquer cidadão poderá alcançar. Nem todos terão a modéstia necessária para aceitar adequações impostas pela estratégia governamental, surgirão os descontentes, mas também será uma escola política para os que souberem distinguir as ambições pessoais das críticas construtivas que não devem ser omitidas. Lula no seu primeiro discurso, quando aclamado presidente da República pela população de São Paulo, enfatizou: «Estejam certos de que quando eu errar, terei a coragem de pedir desculpas em público». Ele sabe que os erros ocorrerão e espera que os brasileiros protestem para que sejam corrigidos.
Pela primeira vez na história os brasileiros têm um presidente que se considera um cidadão igual porque conheceu todos os passos de quem nasceu pobre, emigrou do nordeste para São Paulo em busca de trabalho, lutou pela sobrevivência e pela própria formação, cultivou um profundo sentimento de solidariedade que o uniu para sempre com o povo trabalhador.
Dentre todos os candidatos brasileiros à presidência, Lula era o único capaz de pensar no povo com o conhecimento que a sua origem e, sobretudo, a vivência lhe proporcionou.O único que conhece a extensão da miséria humana, da fome, do desespero, que assola 70% da população brasileira. Para os outros, que representam e comungam com a elite, «morrer de fome» é uma expressão figurada que qualquer um usa quando chega tarde para o almoço. Têm uma visão romanceada dos pais de família desempregados diante dos filhos famintos. Por mais sensíveis que sejam, apenas assistem ao filme da miséria, não a conhecem, não a compreendem. Lula sabe o que sente o pobre, já viu o caminho do desespero que transforma o ser humano em herói ou selvagem.
Lula sabe também que o povo brasileiro tem as suas organizações de base, trabalhou por elas, alimentou o desenvolvimento de uma consciência de cidadania em homens e mulheres que sabem exigir, que não aceitam desculpas esfarrapadas em defesa dos poderosos para cortar o caminho do desenvolvimento nacional. Lula conhece os seus eleitores e não tem dúvidas de que só com o apoio deles, e as suas críticas permanentes, poderá governar.
Lula assume a árdua tarefa de defender a integridade nacional. Só esta afirmação já provoca o medo em quem prefere ser subordinado ao poderio global para não perder as suas parcas regalias individuais. Não é o caso da grande maioria dos brasileiros. Por mais bonita que seja a imagem criada por Fernando Henrique Cardoso, da «casa arrumada» por ele em oito anos, permanecem as dívidas «mas devidamente organizadas», a distância abismal continua a separar os ricos dos mais de cinquenta milhões de brasileiros que vivem abaixo do limiar da miséria - «herança de um passado escravista», como disse FHC -, a criminalidade se organizou com recursos bélicos superiores ao das forças policiais - «a droga e as redes criminosas são um problema internacional», explicava o professor. As explanações arrumadinhas, sem referir que as privatizações devoraram o património nacional e boicotaram a independência e a dignidade do país em benefício da amizade com o FMI e dos altíssimos lucros auferidos pelos bancos, ficam nuas e frágeis diante da crise que aniquilou a Argentina e paira sobre o Brasil. A casa arrumada ficou muito mais indefesa e com vários moradores estranhos.
Lula é a única alternativa ao status quo da social-democracia que repete com
roupas novas o papel da velha oligarquia herdada do período colonial. É o estímulo
à participação popular, ao prosseguimento das frentes de luta como o MST, as
Pastorais da Terra, da Criança, da Juventude, as iniciativas culturais que transformam
meninos de rua em cidadãos, a criatividade dos milhares de pequenos empresários
tolhidos por impostos absurdos, o esforço de milhões de trabalhadores que buscam
o aperfeiçoamento profissional, os produtores nacionais que lutam por um lugar
no mercado dirigido de fora para dentro, a todas as formas de esperança que
sobrevivem sob os escombros da miséria. Não se esperam milagres, apenas um caminho
com espaço para a maioria.![]()
«Avante!» Nº 1511 - 14.Novembro.2002