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Rita Rato, de Lisboa
«Se perante um indício de derrota as pessoas desistissem, o mundo não evoluía»

A vida de Rita Rato mudou muito o ano passado. Primeiro mudou-se de Estremoz para Lisboa, para onde foi estudar Ciência Política e Relações Internacionais na FSCH da Universidade Nova. Entretanto transformou-se numa atleta federada de futebol, jogando pelo «Operário», e entrou para a JCP.

Actualmente membro da Direcção da Organização do Ensino Superior de Lisboa, Rita vê na JCP «um espaço onde temos voz». «Cada vez que saímos à rua ou fazemos um protesto, cada vez que materializamos um protesto e fazemos com que seja discutido no Parlamento, valorizamos a nossa ideologia e os nossos valores», defende.

«Uma coisa que sempre admirei muito nos militantes da JCP e do PCP foi o espírito de entrega. Isso não se verifica em mais nenhum partido. Há colegas que me perguntam: "Tu és mesmo comunista? Quanto é que pagam para distribuir papéis? Quando precisarem de alguém..." As pessoas nem acreditam que estamos aqui para mudar as coisas sem pensar no lucro. Noutro dia uma colega diziam-me: "Estamos em Ciência Política, é sempre bom ligarmo-nos a algum partido. Se calhar vou-me filiar." Eu disse-lhe que não se podia filiar na JCP sem convicções», conta.

«Se estivesse noutro curso de certeza que também tinha vindo para a JCP», diz Rita. «Hoje por acaso adorei a aula de Sistemas Políticos porque o professor esteve a falar do Che Guevara, mas muitas vezes temos de ouvir que o Marx é assim e que o Lenine é assado. Quando posso faço valer a minha opinião.»

No curso de Rita, há conversas sobre política a toda a hora. E os confrontos de opiniões são inevitáveis. «As pessoas vão já com a ideia de que os comunistas são "ortodoxos" e que pensamos que só a nossa opinião é que vale. Mas não faz sentido andar aqui se não defendermos a nossa opinião. Estão sempre a dizer "Tu nunca hás-de ir a lado nenhum, vocês nunca vão mudar nada." Assim sendo nunca tinha havido nenhuma revolução. Se perante um aparente indício de derrota as pessoas desistissem, o mundo não evoluía.»

Análises

Se qualquer militante da JCP pensa muito na sociedade e na política, uma estudante de Ciência Política pensará ainda mais. E vai chegando a conclusões. «A esfera do político está à parte. Aí é que está o erro. É errado as pessoas circunscreverem a política aos jogos de poder. Estão a prescindir de um direito e de um dever cívico», afirma Rita Rato.

«Para mim a política, acima de tudo, é dever de cada um. A política está em tudo. Compramos A Bola ou o Record e está lá política. As pessoas circunscrevem a política a uma elite e muitas vezes prescindem de ir votar e pensam que "eles" lá decidem as coisas no Parlamento. As pessoas abstraem-se da política e de pensar. Deixaram de viver, sobrevivem, arrastam-se, não querem pensar porque pensar assusta. Preferem ver o Big Brother e as telenovelas, porque é muito mais fácil ir para a cama a pensar sobre o próximo concorrente a ser expulso da casa do que o que se pode fazer para mudar as coisas», considera Rita.

O diagnóstico parece bastante negativo, mas Rita não desanima. «A JCP é dos poucos sítios onde encontramos alento e força para continuar a lutar. Não vou mudar o mundo sozinha», sublinha.

Rita prossegue: «A política está muito desacreditada. O discurso de uma sociedade mais justa, que lute por valores de igualdade e de paz, tem de chegar às pessoas. Muitas vezes as pessoas não se consideram a elas próprias como "trabalhadores" e, quando a gente fala nisso, pensam: "Lá estão eles com os trabalhadores." Preferem estar fechados no Monumental a ser explorados pelas multinacionais. Pelo preconceito de se denominarem trabalhadores, considerando-se superiores aos operários fabris ou aos funcionários públicos. O erro está na interpretação de um discurso que é bastante coerente e dos poucos que vai directo às questões. O discurso da JCP critica e aponta soluções», considera.

Rita conhece esses preconceitos há muito tempo. «Quando era mais nova queria ser da JCP, mas o meu pai disse que não, que era mal visto pela sociedade. Ele vive muito no preconceito, ele e as pessoas em geral. Isso é uma coisa que me entristece, mas ao mesmo tempo dá-nos força para continuar. Às vezes quando estamos a distribuir um papel do Partido as pessoas ficam a olhar de lado e parece que têm vergonha. Tenho a certeza que há pessoas que guardam o papel e quando chegam a casa o lêem.»

No sábado e no domingo, Rita estará em Setúbal a participar no Congresso da JCP. Como militante, aponta como uma das prioridades da reunião magna encontrar estratégias para «chegar às pessoas neste momento em que se fala em crise generalizada e reforçar a organização, através da coesão interna». 

«Avante!» Nº 1509 - 31.Outubro.2002