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Novos militantes da JCP
falam sobre a organização e a sua experiência política
«Se pudesse, inscrevia-me outra vez»

• Isabel Araújo Branco

Tiago Vieira, Rita Rato e Miguel Valadares são militantes da JCP há menos de um ano. Vivem em diferentes zonas do País, mas possivelmente vão encontrar-se no fim-de-semana no Congresso. Em entrevista, falam do que os levou a inscrever-se na organização e do que esperam do futuro.

Tiago Vieira, de Coimbra

Tiago Vieira vive em Coimbra. Está a tirar o 12.º ano e só com alguma modéstia admite que tem uma média de 19 valores. Futuro estudante de Psicologia, distingue-se de muitos dos seus colegas não só pelas notas, mas também pela militância política.

Em Fevereiro entrou para a JCP, mas fala num sonho secreto: voltar a preencher a ficha de inscrição da Juventude Comunista. «Quando estamos a fazer distribuições de panfletos ou a pendurar faixas, ocorre-me que me daria muito prazer voltar a inscrever-me na JCP, como um acto simbólico. Digo: "Tenho tanto prazer em ser da JCP que, se pudesse, inscrevia-me outra vez."»

«Militar na JCP é das coisas mais importantes que faço na vida», afirma. «Procuramos construir uma nova sociedade, mostrar que temos um projecto diferente e que as coisas não estão bem por muito que nos queiram fazer conformar. Todos os dias sinto um novo fôlego, sinto cada vez mais vontade de trabalhar na JCP», acrescenta Tiago.

Surpresas

Ao longo destes oito meses, a opinião de Tiago sobre a Juventude Comunista mudou muito. «Antes de entrar na JCP, via que era malta que trabalhava. Embora sentisse alguma proximidade, tinha alguns preconceitos. Sempre achando interessante, queria-me manter por fora. Depois, embora ainda não fosse militante, comecei a integrar-me, a perceber a dinâmica do trabalho e hoje percebo que os motivos pelos quais eu olhava com alguma suspeição eram puramente preconceitos e se calhar fragilidades na minha formação», refere.

«Hoje penso que a JCP é a organização que mais intervém junto dos jovens, uma organização revolucionária de juventude, uma organização que não anda aqui por andar, que faz um trabalho profundo. Há uma preocupação constante em aprofundar a democracia e a justiça», afirma Tiago.

O funcionamento da organização foi uma surpresa para Tiago. «Quando estava de fora não percebia, mas a intervenção da JCP é feita muito concertadamente e bem discutida. Não é simplesmente a opinião de um ou dois indivíduos que decidem uma orientação e os outros que cumpram. Todos contribuímos e damos a nossa experiência. Não percebia muito bem como podia ajudar e hoje vejo perfeitamente que toda a gente tem uma experiência pessoal diferente e que pode dar o seu contributo.»

Era uma vez...

Tudo começou com o «À Luta», o boletim da organização do secundário de Coimbra da JCP, de que Tiago Vieira era leitor. Alguns amigos fizeram a ligação à organização e foram apresentado razões de peso para a militância. Mas, segundo Tiago, o que o levou a tomar a decisão foi «verificar a intervenção da JCP junto dos jovens, as preocupações e as soluções apresentadas».

«Não é uma coisa inconsequente. Embora tivesse a opinião de que todos temos de intervir na sociedade, nunca tinha tido um contacto real com um projecto consequente, uma tentativa profunda e justa de transformação da sociedade. Entenda-se justa de duas formas: não só no sentido do melhor para a sociedade, mas também por não haver uma "cabeça pensante" e os outros atrás, ou seja, pela discussão aprofundada associada a um grande espírito de camaradagem e de amizade. Tudo junto levou a inscrever-me», explica.

O clique deu-se em casa, em frente à televisão, durante uma entrevista a Carlos Carvalhas. «Vi ali corporizado, numa dimensão geral, a perspectiva dos problemas, as soluções para o País ponto por ponto, economia, educação, saúde… Havia vontade real de mudança, não mudar apenas as caras para continuar tudo na mesma. Mandei logo uma mensagem a um amigo para levar a ficha de inscrição e no dia seguinte inscrevi-me.»

No próximo fim-de-semana Tiago estará em Setúbal, a participar no Congresso da JCP. Mas destaca que «o Congresso não é apenas aqueles dois dias. Podemos dizer que estamos a realizar o congresso ao longo deste tempo de discussão.» «Espero que consigamos definir linhas de orientadoras de trabalho – de continuação ou novas – cada vez mais próximas da sociedade e do que a realidade nos exige, de como temos de intervir», afirma.


Mil e um trabalhos...

Para além das reuniões normais do colectivo em que se integra, Tiago participou em diversas iniciativas da JCP, desde a construção da Festa do Avante! às bancas da JCP, passando pela venda do Avante! e pela distribuição de panfletos. Esta actividade é uma das preferidas de Tiago: «As distribuições dão-me um prazer particular, porque contacto com as pessoas directamente. Estamos ali não apenas a dar um panfleto, mas a falar com as pessoas, a dizer aquilo que queremos. Bem, eu gosto mesmo dos trabalhos que me dão menos prazer, como fazer contactos, porque sinto que estou a trabalhar para a construção de uma organização melhor.»

As reacções das pessoas que recebem os panfletos da JCP nem sempre são as melhores. Mas, como diz Tiago, «há de tudo». «Vai desde a pessoa que me perguntou "Vocês também perseguem os judeus?" a outras que perguntam em que sítios estamos e o que fazemos.»

«Eu explico que na JCP tentamos ser o mais justos possíveis. Tento trazer as pessoas às reuniões da JCP, mostrar-lhes como se desenvolve o nosso trabalho. Às vezes perguntam-me quanto é que ganho por fazer as distribuições e eu digo-lhes que só estou ali pelo amor ao ideal. Dizem-me que "lá dentro ninguém pode discordar" e eu explico que muitas vezes já discordei e ainda estou à espera que me venham provar essas coisas. Tento refutar esses argumentos e procuro descobrir o que as leva a ter essas ideias, se é algum facto que perceberam mal ou pura e simplesmente preconceito», adianta Tiago. 

«Avante!» Nº 1509 - 31.Outubro.2002