TVISTO Correia da Fonseca
Um agente
da PSP foi assassinado no bairro da Cova da Moura, Amadora, e o crime foi largamente
noticiado nos media em geral e na TV em especial. Com inteira justificação,
sem dúvida, por muito que se suspeite de que o relevo dado ao facto decorreu
em grande parte da gulosa apetência que sempre as estações
de televisão têm por quanto seja tragédia, sangue, lágrimas,
factores que "vendem" sempre muito bem. Desta vez, a tragédia
dificilmente podia ser usada como elemento de reais ou supostos conflitos raciais
pois, como se sabe, se o assassino era negro, o polícia assassinado também
o era. Quase se é tentado a reflectir que "ainda bem" o que
seria obviamente infeliz e inadequado. Contudo, a verdade é que o racismo
que supostamente os portugueses não têm está aí,
à espreita, para não dizer que já dá os primeiros
passos, e não tarda nada para que seja usado, embora sob formas discretas
e hipócritas, por formações políticas de direita
que pensam poder assim reforçar a eficácia do populismo que é
uma estrada principal dos caminhos que, escolheram para as cadeiras do poder.
É um facto, pois, que a TV noticiou a morte do agente e também
que deu informações acerca do cenário em que o assassínio
ocorreu, a Cova da Moura, o bairro degradado habitado maioritariamente por imigrantes
de origem africana, de primeira geração e seguintes. As informações
acerca dos protagonistas da tragédia, vitima e assassínio, foram
razoavelmente importantes, mas o mais significativo foi o que as TV's, com algum
destaque para a SIC, nos vieram contar ou recordar acerca do bairro da Cova
da Moura e das gentes que lá vivem. E sublinhar isto não é,
já se vê, minimizar a morte de um homem que aliás todos
disseram que era excelente a vários títulos, mas sim acentuar
que é possível, ou sê-lo-ia, que ela não tivesse
sido apenas mais uma inútil morte acontecida nas rodas da engrenagem
trituradora da imigração pessimamente tratada e armazenada em
guetos onde inevitavelmente floresce a delinquência dos mais variados
tipos. Enquanto lá muito longe, lá no alto, os poderes públicos
de diversos graus fingem que não vêem e talvez esperem que, com
um bocado de sorte, não há-de ser nada.
Mas é. E muito.
As raízes
O que a TV contou não tem quase nada de novo, mas é bom que tenha
sido dito porque anda por aí gente de mais a fingir que não sabe
ou não se lembra. A Cova da Moura é um desses lugares onde o País
arruma, como que escondidos, os homens que vieram de longe, a fugir da fome
ou da guerra, e construíram as casas onde habitam os que querem lembrar-se
deles, as pontes por onde passam, os lugares onde vão ouvir, por bom
preço a música que preferem, até hospitais e centros de
saúde onde pouco entram os que podem optar pela medicina privada e clínicas
a condizer. Homens que nunca tiveram emprego certo, e por isso também
não tiveram casas dignas e conforto compatível. Que tiveram filhos,
é claro. E filhos que cresceram ao deus-dará porque o pai e a
mãe abalavam cedo do casebre, eles para as obras, ela para o trabalho
"a dias" e só regressam ao fim do dia.
Filhos que terão ido à escola, mas sempre sem condições
para um pleno aproveitamento escolar, os professores que o digam. Filhos que
dificilmente encontraram trabalho, e muito menos emprego certo, num mercado
laboral onde os patrões se comportam muitas vezes como bons descendentes
dos antigos esclavagistas que compravam o "marfim negro" que outros
iam buscar às Áfricas. Agora é mais fácil: o "marfim
negro" vem de África pelo seu pé. Entre outros, lembro o
depoimento de uma senhora que, com contida veemência, lembrou que as raízes
da delinquência em bairros como os da Cova da Moura mergulham mais fundo
do que geralmente se pensa: não começam a germinar no princípio
da adolescência mas sim na primeira infância, quando os bebés
dos imigrantes são entregues, em magotes de vinte, a amas que não
podem dispensar adequada atenção a mais de quatro. Isto gera um
sentimento de abandono que resulta em traumas psicológicos de maior ou
menor gravidade. Depois, serão as compensações que se imagina:
os grupos, a afirmação pelas pequenas infracções,
a discriminação e a exclusão sentida na pele negra, a constante
suspeita que os acolherá quando chegam. E os governos que, coitados,
nunca se deram conta de, nada disto. E o dr. Paulo Portas, que diz querer remediar
tudo isto fechando fronteiras. Como se os patrões que votam e mandam
votar à direita prescindissem de uma renovada mão-de-obra escrava
e descartável sempre que dela precisam.![]()
«Avante!» Nº 1473 - 14.Fevereiro.2002