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O sentido religioso do voto (III)

RELIGIÕES  • Jorge Messias

Mil anos decorreram então, atravessados por guerras e convulsões sociais. Os antigos impérios do Egipto e da Babilónia entraram em declínio. Mas na outra costa do Mediterrâneo foi-se rapidamente afirmando um novo tipo de organização social servida por tecnologias avançadas - sobretudo nas áreas da metalurgia, das técnicas de navegação, na administração pública e na arte. Surgiu uma outra estrutura económica da sociedade e um modelo de organização política - a cidade-estado - mais flexível que as anteriores e pesadas teocracias orientais e menos extenso. Desenvolveu-se o pensamento pré-científico e a produção deixou de estar exclusivamente apoiada no esclavagismo. Foi valorizado o significado do voto pessoal. As antigas cidades gregas, porém, repartiam-se por dois figurinos rivais: as oligarquias e as democracias. As suas populações foram agrupadas em diferentes níveis com direitos e deveres desiguais: a estirpe de ferro, constituída pelos artesãos, pelos camponeses e pelos mercadores; mais acima, a estirpe de ouro a que pertenciam os filósofos (os intelectuais) e os governantes (os políticos). Tanto estes como a estirpe de prata (os guerreiros ou defensores) tinham um enorme poder sobre os trabalhadores manuais, olhados como camadas naturalmente destinadas à condição servil.

O sistema político-religioso da sociedade antiga sofreu um enorme abalo. Coladas à tradição do autoritarismo e da obediência ao poder político e divino, as religiões organizadas viram-se de súbito confrontadas com uma profusão de mitologias em que as divindades eram semi-deuses, semi-homens. Cresceu subitamente o interesse pela investigação, pela praxis, pela composição da matéria e pela dúvida sistemática. Então, houve cultos e religiões que desapareceram, alguns sem sequer deixarem memória. Outras religiões dominantes foram, entretanto, capazes de reconverter e de fundir tradições. Integraram os mitos modernos nos mitos antigos. Resguardaram as culturas tradicionais. Recorde-se apenas um exemplo desta complicada história das religiões.

Os Cananeus adoravam o Deus das Moscas (Baal-Zebub) que entrou depois nas religiões hebraica e cristã sob a designação de Belzebu, príncipe dos demónios. Por outro lado, os Babilónios festejavam o ano novo com os Mistérios de Marduk. Realizava-se uma gigantesca procissão (Akitu) que durava quatro dias. Após este tempo de oração e de purificações, num santuário situado fora da cidade era sacrificado um cordeiro cujo corpo, após a imolação, era lançado ao rio. A população de Babel ficava, então, purificada dos seus pecados. No sexto dia, o rei de Babilónia sofria uma humilhação pública e proclamava-se, em sua substituição, um escravo-rei. Durante o dia seguinte os escravos eram considerados homens livres, podendo entregar-se a todos os excessos. Mas o rei usurpador identificava-se com Baal-Zebub. Findo o dia de liberdade, o escravo-rei era chicoteado até à morte e o seu cadáver pendurado numa cruz. O mito passou, como se sabe, para religiões actuais, nomeadamente como liturgia da Páscoa.

Apesar de tudo, a servidão não tinha cessado de aumentar. No século V AC, no apogeu do humanismo helénico, Atenas contava com 18 escravos por cada cidadão com direitos de soberania. Cem anos mais tarde novo censo estabelecia a mesma relação dizendo que 21000 atenienses livres eram servidos por quase meio milhão de escravos. O esclavagismo acompanhava as mudanças sociais. No entanto, uns após outros, ruíram os impérios. Multiplicaram-se as revoltas dos escravos e das minorias. Forçada por novas invasões, Roma recuou as suas fronteiras. O clero refugiava-se no silêncio contemplativo dos desertos ou no luxo dourado das anfictionias. Ganhava corpo a luta de classes já esboçada nos tempos de Hamurabi, de Aristóteles ou de Platão.

Todo o poder se concentrava na Europa. As fórmulas políticas e religiosas anteriores tinham-se esgotado. Era urgente talhar um novo mapa e encontrar uma religião nova que respondesse às angústias e às aspirações dos pobres mas que mantivesse o Estado sob a tutela dos mais ricos. Assim surgiu, primeiro o Cristianismo como filosofia libertadora. Depois, a Igreja Católica, continuadora do poderio do Império Romano.

«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002