Artigo anterior  Próximo artigo


Ignorantes contra charlatães?

CIÊNCIA & TECNOLOGIA  • Francisco Silva


Hoje vou voltar outra vez à questão do conhecimento científico e do papel da Ciência na vida das sociedades. E se, até agora, me tenho sobretudo referido à temática da Ciência & Tecnologia, aos impactos das realizações tecnológicas, neste texto vou antes virar-me para o papel da Ciência na visão que do mundo vamos construindo - Universo, Terra, Vida -, nas crenças que vagueiam pelas sociedades e na relação entre o conhecimento corrente e o conhecimento científico.

Com efeito, algum debate aceso quanto (não) baste vai andando por aí. Não necessariamente apenas no nosso País, mas por aí, sobretudo pelo Ocidente. No nosso País, foi a vez de António Manuel Baptista (AMB) sair a terreiro, num livro publicado pelo início de 2002 (1), a polemizar com imensa genica e detalhe suficiente com a pós-moderna condição e as suas irresponsabilidades vis a vis da Ciência: O alvo principal? Um texto «clássico» de Boaventura Sousa Santos (2) (BSS).

De caminho, AMB ainda arranja tempo para dar uma bem merecida bicada a Eduardo Prado Coelho (EPC) a propósito do seu comportamento por ocasião do affaire Sokal (uso o termo francês, com o intuito de que a terminologia seja mais do agrado de EPC). Os físicos Sokal e Bricmont foram os autores do livro «Imposturas intelectuais» que crítica uma série de pensadores franceses da segunda metade do século XX - de onde, até certo ponto, surgiu a corrente pós-moderna - pela forma aparentemente charlatanesca (charlatanesca, claro, para quem raciocina do lado das ciências duras) como empregam conceitos próprios de ciências como a Física e a Matemática. EPC na altura reduziu a nada todos os ignorantes, estúpidos e incultos deste lado - e penso que nestes incluindo os inventores dos conceitos apropriados por tais pensadores. Como pode um intelectual exibir tal grau de intolerância?

Interrogações

Voltando ao núcleo do nosso tema, e citando AMB, aquilo que sobretudo o parece impressionar no texto de BSS é o afirmar que «a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia».

E AMB teve boas razões para ficar preocupado ao ler uma frase como esta. O que não quer dizer que eu, por entender e também sentir um tal tipo de preocupação, partilhe necessariamente de tudo o que AMB escreve no seu livro. Mas a verdade é o conhecimento científico ensinar-nos coisas que, por outras vias, não as podemos alcançar.

Por exemplo, há uns quarenta anos, um de nós, um humano, Iuri Gagarin, foi até ao espaço exterior à atmosfera terrestre e viu com os seus próprios olhos a forma arredondada, esférica achatada nos pólos, da sua Terra. Confirmou o que aprendera da Ciência. No entanto, fora necessário à Humanidade um longo caminho para, tendo enveredado pela via da tal ciência moderna, chegar à conclusão que a Terra era um planeta como os outros e que rodava em torno do Sol. Para ficar a saber que não era o Sol que se movia, levantando-se à alvorada, descrevendo em seguida durante todo o dia uma trajectória curva, como se deslocasse sempre assente na abóbada de um Universo fechado por cima das nossas cabeças, e, finalmente, desaparecendo para lá do horizonte, deixando-nos na noite. E foi por via do conhecimento científico que se ficou a saber tudo isto e muito mais.

E, ao contrário dos nossos pós-modernos, que falam da falência da modernidade - e, na realidade, alguma razão não deixarão de ter -, os que ainda não eram modernos, ou que não queriam admitir as ideias modernos que começavam a nascer, tiveram bem a noção do perigo que representava para eles a lucidez nova que vinha aí. Foi por isso que apontaram as suas defesas contra uma pessoa como Galileu que defendeu ideias conducentes a não ser a Terra o centro do Universo, mas um planeta que rodava em torno do Sol. Por isso, a Terra, o lar onde surgira a Humanidade deixava, para sempre, de representar qualquer sítio especial no conjunto do Universo. E é bem sabido: Galileu bem foi aterrorizado pelas pressões da Igreja Católica para o levar a recuar nas suas ideias.

E agora, se nos reaproximarmos do texto de BSS acima citado, vem mesmo a propósito perguntar: é melhor, pior ou equivalente, ou é mais ou menos condizente com a realidade, a explicação científica de Galileu ou a visão prevalecente do Universo até essa altura?

E quantos outros exemplos com tal cariz não existem?

____________

(1) «O discurso pós-moderno contra a Ciência - Obscurantismo e irresponsabilidade».
(2) «Um discurso sobre as ciências».

«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002