Zillah Branco
Quem
tiver a capacidade de sentir a vida brasileira nas suas múltiplas manifestações
sociais, económicas, políticas e culturais, não deixará
de notar que o país atravessa um momento de transformação
profunda que poderá lançá-lo no caos - com acentuada dependência
e sacrifício da dignidade nacional - ou no caminho da consciência
popular e da resistência à exploração imperialista
(globalizante). Temos todos os ingredientes em praça pública,
da reconhecida cordialidade da gente brasileira e da criatividade que a leva
a enfrentar e resolver os problemas diários da miséria e do abandono
institucional, às formas perversas de humilhação próprias
do sistema, de abuso de poder e de violência que ameaçam todos
os cidadãos.
Durante o ano de 2001 esteve em gestação um processo lento de consciência popular da falência dos recursos institucionais que formam a estrutura do Estado, com a perda de credibilidade na política nacional. O poder autoritário de uma elite que dispõe dos recursos públicos como sua propriedade, o esbanjamento dos recursos nacionais, a incapacidade de figuras políticas para manter a dignidade dos altos cargos que ocupam mentindo ou cometendo crimes como reles marginais, a inércia ou incompetência de organismos responsáveis pela segurança pública, pela saúde, pela previdência social, a multiplicação de fraudes e corrupções ou até mesmo crimes de morte, que ficam sem punição graças ao uso habilidoso e cínico de uma legislação inadequada.
Paralelamente, e em consequência, foram fortalecidas as iniciativas que se têm mantido e crescido ao longo dos anos apesar das adversidades, com a criação de soluções imediatas para salvar a população da fome, do desespero, do desemprego e da criminalidade: o Movimento dos Sem Terra, dos Sem Tecto, a Pastoral da Criança, os programas de formação para os meninos de rua, o Movimento de Cidadania, o Movimento pela Paz. Tomou forma um Estado, voltado para o povo, dentro do Estado oficial, que devolve ao cidadão a confiança em formas de organização social não apenas para a sobrevivência como para o seu desenvolvimento e o da comunidade que o cerca.
Apesar de se reconhecer que o grande território brasileiro é utilizado pelas redes criminosas mundiais e dominado por poderosos oligarcas, com a velha consciência escravocrata, ou por intermediários do capital multinacional que só visam o próprio lucro e desprezam tudo o que se refere à ética, aquelas organizações de base restauraram a confiança no trabalho colectivo e no conceito de pátria que confere identidade à população. Dedicam-se às questões mais prementes e deixam de lado a estrutura política oficial que só recorre a eles com interesses eleitorais, mas lentamente evoluem para a compreensão de que as grandes questões nacionais, e internacionais, merecem a sua participação. A visão integrada dos fenómenos que afectam a sociedade, e os indivíduos que a compõem, não é imediata para os que sentem o desespero das questões de sobrevivência. Mas, na medida em que descobrem o valor da união das forças e da organização para consolidar o caminho do desenvolvimento, percebem que o distante FMI e todo o jogo economicista mundial, assim como a aparentemente invencível rede internacional do crime, têm a ver com os seus problemas imediatos.
Tal situação dificulta a ação dos partidos e mesmo do movimento sindical, formados em outra situação histórica, mas não lhes é adversa. Impõe que a estrutura política voltada para a defesa popular se adapte a uma realidade que escapa aos modelos teóricos tradicionais. Os que pretenderem impor uma determinada forma de pensar e agir que não tenha vínculos com as necessidades sentidas pela população, inclusive com a peculiaridade da sua cultura e crenças, não poderão evoluir com o povo e ficarão tão externos como a elite que se bate pelo poder autoritário. É exactamente esta tremenda dificuldade de acção política que constitui o maior desafio e o maior estímulo aos que insistem em construir um futuro digno para o Brasil.
Unir as diferenças
Vemos a todo momento surgirem debates que aprofundam conceitos filosóficos, sociológicos, económicos e políticos trazendo, do meio académico e do seio do povo, intelectuais que confrontam com modéstia e sem medo os fundamentos do seu conhecimento. No plano das ideias vive-se um momento revolucionário onde a meta é a soma dos esforços na difícil tarefa de unir diferentes posições em torno do bem comum.
Um debate televisionado sobre a situação de impotência em que as forças de segurança no Brasil viveram nos últimos meses com o aumento em flecha da onda de sequestros, crimes de morte, violência nas ruas e fugas das cadeias, reuniu três parlamentares de partidos opostos: um deputado do PT (esquerda), um do PFL(direita) e um senador também do PFL que ficou conhecido no período da ditadura por chefiar a polícia política de São Paulo (DOPS). Para espanto e satisfação popular, não havia divergências entre eles que sustentaram com coragem uma posição de crítica veemente à perda de credibilidade das forças de segurança devido à inércia, falta de vontade política, corrupção e infiltração da rede criminosa entre os seus quadros. E foi o senador, antigo chefe de polícia da ditadura, que apontou os resquícios do poder ditatorial como causa de tais problemas e da falta de coragem superior para eliminá-los. A repercussão foi tal que o Presidente da República fez suas as palavras dos oradores (sem citá-los, como devia) exigindo que o Parlamento fizesse um «mutirão» para oferecer com urgência os recursos legais que agilizem a correcta acção dos organismos policiais e jurídicos na luta contra o crime.
O facto de estarmos em ano de eleição presidencial certamente contribui para que surjam posições mais valorosas a favor da população, mas não se trata de mera demagogia quando os políticos pedem a participação popular para pressionar os seus pares nos mais altos postos do Estado. E o crescimento de um Estado popular voltado para a defesa do bem comum e do património nacional, dentro de outro Estado que cada vez mais estala como uma velha casca inútil e podre, leva os agentes da estrutura política a repensarem os seus compromissos e os seus caminhos.
Não se alcança a convergência de adversários políticos por simples oportunismo. Isto poderia ser considerado se a convergência fosse a favor do poder constituído. Mas não, a união se dá sob o lema da luta popular, pelo desenvolvimento nacional e não pelo crescimento económico que enriquece alguns. São debatidos os conceitos éticos, assunto desconhecido para os oligarcas e demais elites poderosas. Propõe-se a união entre forças políticas até então adversárias, entre polícias que estão separadas em diferentes feudos, entre pessoas que despertam para a defesa dos direitos humanos por razões religiosas ou materialistas. A gravidade da situação exige a aceitação de que o colectivo é prioritário, que o individualismo é um entrave à solução dos problemas nacionais.
O despertar da consciência popular em políticos até então voltados para os interesses particulares e corporativos surgiu diante do medo de que as redes internacionais do crime organizado assumisse as rédeas das instituições nacionais. Quando foi sequestrado e assassinado o prefeito do PT de uma importante cidade industrial de São Paulo, levantou-se um protesto veemente da população e de vários organismos que há anos a defendem, como a Ordem dos Advogados e os Promotores Públicos, tal como os partidos de esquerda, as igrejas que trabalham com a população, e todos os que se batem pela paz. Foi preciso que morresse mais este defensor do povo, para que o poder governamental acordasse da sua inércia que deixara no esquecimento os outros 14 representantes do PT que foram mortos sem que a polícia encontrasse qualquer pista dos assassinos. Foi preciso que a onda de crimes crescesse, também com o assassinato de um promotor público de Belo Horizonte que desvendara a acção da mafia dos falsificadores de gasolina, para que se somassem os esforços das polícias civil e militar por cima das suas divergências particulares, agindo com rapidez e competência na prisão dos responsáveis.
Uma das afirmações comuns aos entrevistados na televisão, políticos e especialistas nas questões de criminologia, foi a de que a defesa civil no Brasil anda a reboque da acção criminosa, chega sempre atrasada tanto no tempo como no conhecimento das técnicas. Isto porque não existe uma estratégia preparada para defender a sociedade. Tudo se pretende resolver com aumento de verbas, compra de equipamentos, frotas de carros, etc., sem cuidar da selecção e preparo dos agentes policiais que, em alguns casos, têm apenas um mês de curso antes de assumirem as suas funções.
Consciência e fraternidade
A cordialidade dos brasileiros foi reconhecida como qualidade por colonizadores, grandes senhores e turistas. Era um traço complementar da humildade de quem se reconhece como dependente. Diferente é a fraternidade que hoje se expande entre os que lutam por um país melhor, contra as formas de discriminação que separam os ricos dos pobres. Este sentimento implica na consciência social, na ideia de povo, de colectivo, e de nação. A partir da descoberta de que existe identidade, caminha-se em busca da história do povo, das diferenças que nos une e que, todas elas, são discriminadas por quem explora. Daí nasce a primeira consciência, de povo brasileiro.
Para qualquer pessoa lúcida e isenta, a fraternidade funciona como um propulsor da solidariedade. Impossível ficar inerte diante do quadro de injustiças que abre caminho para o crime organizado. Mesmo que o despertar se deva ao medo de ser a próxima vítima, a aproximação fraterna em relação à grande maioria desprotegida já é um caminho para activar a consciência. De coração e olhos abertos, aprende-se. Só os mais egoístas, os que se alienam por auto-defesa, permanecem insensíveis.
O Brasil enfrentará dias difíceis porque o inimigo é forte
e violento. Mas não haverá outra saída para o caos que
se instalou nas entranhas da sociedade, não haverá maneira de
combater as ameaças - do crime organizado e da destruição
da autonomia nacional - se não houver consciência de cidadania.
E muito já foi construído para isto com a solidariedade que deu
origem ao Estado popular dentro do velho Estado oligarca e elitista.![]()
«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002