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Economistas de 49 países reflectem em Havana
A globalização
e a crise mundial

• Miguel Urbano Rodrigues

O IV Encontro Internacional de Economistas sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento atraiu ao Palácio das Convenções de Havana durante cinco dias mais de um milhar de participantes, entre os quais quase 400 estrangeiros, vindos de 49 países. Integraram a constelação de personalidades dois Prémios Nobel de Economia, os norte-americanos Joseph Stiglitz, ex-chefe dos economistas do Banco Mundial, e Robert Mundell, professor da Universidade de Columbia, e o argentino Perez Esquivel, Prémio Nobel da Paz. Uma estrela do mundo do cinema, o realizador Oliver Stone, compareceu na sessão de encerramento, ocupando uma cadeira do anfiteatro, em gesto de solidariedade com o povo cubano.

O Encontro reflectiu a gravidade e a complexidade da crise mundial.

A presença de representantes de alto nível do FMI e do Banco Mundial motivou um dos debates mais interessantes do evento. Cuba, bloqueada e agredida, não teme que na sua própria casa destacados dirigentes daquelas organizações façam a defesa e a apologia da globalização neoliberal e das políticas de ajuste estrutural impostas aos países do Terceiro Mundo. Na confrontação de ideias os porta-vozes do sistema imperial perderam por knock out. O cubano Alfredo Gonzalez, de modo especial, com suavidade, pela força dos argumentos e dos factos, estilhaçou a mascara dos porta-vozes do sistema imperial. Desmontou-lhes o discurso e iluminou bem o cenário de destroços económicos, financeiros e culturais que aí está como herança do Consenso de Washington.

O Encontro abriu praticamente com as conferências de Stiglitz e Mundell. Outros pratos fortes foram as mesas redondas sobre a crise Argentina e a ALCA e a que envolveu o debate sobre a relação entre a crise económica globalizada e a corrida às armas e a guerra imperialista. Todas elas foram valorizadas pela participação de dezenas de delegados de muitos países

Compreensivelmente, o tema da ALCA suscitou um interesse especial. A intervenção do cubano Osvaldo Martinez foi uma lição de economia política, de ideologia, e de história. Ao abordar a temática das alternativas, o director do Centro de Estudos da Economia Mundial chamou a atenção para o facto de que a construção da alternativa à ALCA principia na luta pela sua rejeição. A alternativa dos povos da América latina não pode nascer magicamente como construção intelectual acabada e definida. Será o resultado de um processo, do combate tenaz contra o projecto norte-americano. Osvaldo Martinez - um economista de fulgurante talento e de prestígio continental - tornou transparente que os EUA pretendem introduzir na ALCA o essencial do Acordo Multilateral de Investimentos - AMI - derrotado na Europa. Que significaria isso? A recolonização da América Latina pelos EUA, a sua anexação virtual. Os Estados seriam transformados em instrumentos das transnacionais e garantes da sua impunidade. A ALCA, se fosse implantada, aniquilaria a esperança de integração dos povos da América Latina, fazendo desta um amontoado de países neocoloniais desprovidos de soberania.

Osvaldo Martinez apelou ao apoio militante à Aliança Social Continental que coordena o processo de luta e emerge como alicerce e instrumento na procura da alternativa. O grande desafio, o maior obstáculo a remover é o desconhecimento que as grandes massas têm da ameaça mortal que o projecto imperial da ALCA carrega no ventre.

Argentina e guerra

A mesa redonda que mais intervenções provocou foi a da crise que atinge a Argentina. A tragédia que transformou uma das nações mais ricas da América Latina num país arruinado, com a maior dívida per capita do mundo, sensibiliza hoje todo o Continente. Durante anos exibida como paradigma do êxito do neoliberalismo ortodoxo, a pátria de Sarmiento e Borges aparece agora como o paradigma da falência irremediável das receitas do FMI e do Banco Mundial, como exemplo do caminho que não se deve trilhar.

A mesa redonda consagrada à crise económica e à corrida às armas suscitou também debates muito participados. Foi unânime a condenação da agressão imperial dos EUA ao povo do Afeganistão e sublinhados os perigos implícitos da ameaça de Bush de alargar a guerra a países por ele definidos como «O Eixo do Mal».

Além das sessões plenárias, o IV Encontro para abrir o leque da discussão, seleccionou um feixe de assuntos muito diversificados, que foram tratados em seis comissões. Os participantes tiveram assim a oportunidade de debater questões de grande actualidade relacionadas com a promoção do desenvolvimento, as relações comerciais internacionais, temas monetários e financeiros, a integração e cooperação económicas, os recursos humanos e os mercados de trabalho, a ciência e a tecnologia em função do desenvolvimento, etc.

Acompanhei entre muitas outras uma interessante comunicação sobre o comércio internacional da China (actualmente sexta potência exportadora) apresentada por um economista daquele país, um debate acalorado sobre as perspectivas do euro, e a conferência de um académico russo que, dissertando sobre «A América Latina no contexto da globalização», em pouco diferiu, pelo conteúdo e linguagem, de qualquer académico conservador norte-americano.

Um economista da Universidade Nacional da Colômbia falou durante meia hora sobre a reforma económica e as mudanças estruturais no seu país sem pronunciar uma só vez a palavra guerra. Perguntei-lhe se a luta armada das FARC-EP, o Plano Colômbia imposto pelos EUA, os ataques aos oleodutos e a existência de uma Zona Desmilitarizada não tinham influência no desempenho da economia. O professor deu uma resposta embrulhada, reconhecendo que, sim, havia uma guerra que afectava a economia e que a situação era, afinal, muito confusa...

O optimismo de Fidel

É significativo que os representantes do FMI e os três directores do Banco Mundial presentes tenham expressado satisfação pelo nível do debate e pela atmosfera que o envolveu. Foi essa uma maneira indirecta de admitirem que dificilmente seria possível noutro país uma confrontação tão serena de ideias entre defensores de projectos de sociedade tão antagónicos.

O povo cubano - ficou transparente - tem consciência das novas ameaças que resultam da irracionalidade da estratégia imperial dos EUA. Mas tão seguro está da superioridade do seu projecto de sociedade que não temeu convidar dois Prémios Nobel de Economia norte-americanos para que expusessem no Encontro de Havana as suas concepções, como defensores do capitalismo globalizado. O debate travado fez ruir a sua argumentação, evidenciando que aqueles cientistas colocam a inteligência a serviço de

de estratégias que contribuem para aprofundar a desigualdade, a pobreza, o desemprego entre uma minoria da humanidade e a esmagadora maioria que sofre as consequências da globalização neoliberal.

Ao encerrar o IV Encontro, Fidel Castro chamou a atenção para as profundas diferenças entre ele e o I. O mundo mudou muito em três anos.

O Japão hoje não consegue sair de uma crise pantanosa. Os países da União Europeia encaram com apreensão o futuro, os EUA entraram numa recessão de contornos difusos e a sua política exterior parece apontar para a imposição de uma ditadura militar planetária.

O neoliberalismo exibia uma confiança no futuro que não ousa mais alardear. As suas receitas fracassaram na Ásia, na Rússia, no Brasil, agora na Argentina, também na África. E foram os acontecimentos que determinaram a mudança de conteúdo e estilo deste IV Encontro de Internacional de Economistas, de Havana. A nova ordem económica mundial é hoje um fracasso indesmentível.

O discurso de Fidel foi um discurso humanista. Partindo sempre do concreto, do temporal, utilizou os factos, inseridos no dramático tabuleiro da crise mundial, para uma reflexão sobre a nossa época, que é simultaneamente um tempo de prodígios e grandes conquistas e um tempo de barbárie, inseparável da ambição de domínio universal de um império arrogante.

Fidel, meditando sobre este panorama tempestuoso, conserva o optimismo que o acompanhou sempre na sua trajectória de revolucionário. E como cubano confia no seu povo, na capacidade dos cubanos para responder aos desafios e ameaças do presente.

Na crise de civilização que vivemos as leis da história, acredita, acabarão uma vez mais por prevalecer. E «os sonhos de hoje - essa é a sua previsão - serão as realidades do amanhã».

«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002