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Um adeus
a Carlos Aboim Inglez
Urbano Tavares Rodrigues
A postura muito direita, que resultava
de antigos problemas ósseos e pulmonares mal resolvidos, coadunava-se
ao mesmo tempo com a sua invulgar rectidão de carácter.
Tudo abandonou, a Faculdade de Letras, de onde foi expulso, e as suas fontes
de saber, que ele prezava, a perspectiva de uma carreira profissional, o prazer
de viver descuidosamente a juventude e os seus afectos, porque todo ele se concentrava
num grande, firme e generoso projecto de transformação da sociedade
segundo o modelo marxista. 0 derrube da ditadura, com a instauração
das liberdades, era o primeiro alvo, que irmanava tantos jovens antifascistas.
Estudante, empregado, associativista, Carlos Aboim Inglez ia assumindo cada
dia maiores responsabilidades e acabou, dirigente do MUD e quadro comunista,
por passar à clandestinidade e conhecer a prisão, os longos e
dolorosos interrogatórios, dez anos de cárcere.
Conhecemo-nos melhor na minha primeira visita a Moscovo, como escritor, em companhia
do Fernando Namora e do Alberto Ferreira. Dias de profundo convívio,
de descoberta, de crescente amizade. Veio a revolução de Abril
e tive ocasião de muito privar com ele, em reuniões de sector
e de célula, manifestações, congressos, assembleias de
intelectuais.
Além disso, éramos vizinhos. Quantos sábados conversámos
diante do Expresso e de outros jornais portugueses e estrangeiros, que ele lia
e criticava, no seu jeito apaixonado, por vezes truculento, levantando a voz
indignada contra as coligações do poder e do dinheiro, contra
a falsificação do noticiário, o servilismo de certos media.
Tínhamos por vezes grandes discussões ideológicas, que
nunca entre nós criaram o menor rancor.
Respeitávamo-nos nas diferenças e sentíamo-nos irmanados
no combate ao capitalismo global, que ele nunca deixou de chamar imperialismo
americano, e na profunda ligação ao povo trabalhador, aos sem
terra e sem voz, tantas vezes sem trabalho, daqui e de todo o mundo.
Foi-se embora o Carlos Aboim Inglez, que tinha o pudor de falar em doenças
e males pessoais, que amava a poesia discretamente e até escreveu alguns
belos poemas, estimulado pelo Manuel Gusmão.
Nele vi sempre o brio sem vaidade, uma imensa vontade de ler, de se informar,
de entender o mundo, embora muitos dos novos conhecimentos que ele adquiria
esbarrassem amiúde no vidro de um passado mítico, cristalizado.
Era respeitado no nosso bairro creio que por quase todos os que o viam, o ouviam
e adivinhavam. Quase uma lenda. A sua sobriedade, a sua bondade, a sua força
nervosa, a sua combatividade por vezes estridente impressionavam.
Eu nunca o esquecerei, enquanto cá estiver. A sua camaradagem, os momentos
de partilha dos sonhos que sonhámos, as polémicas, as caminhadas
inesquecíveis, os telefonemas que, em horas ou muito boas ou muito más,
me trouxeram inesperadamente o calor amigo da sua voz.![]()
«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002