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Um intelectual comunista

• Manuel Gusmão

Militante e dirigente do PCP, Carlos Aboim Inglez era um intelectual comunista. Membro do Partido desde 1946 - tinha então 16 anos - , a sua formação política enquanto jovem ter-se-á feito entre anos de esperança e de desastres da esperança, anos de combates exaltantes, mas também anos duros e terríveis para os comunistas portugueses e não só. Julgo que há uma conexão entre a idade que temos e o período histórico em que a vivemos. Por exemplo, para além das diferenças de origem, situação e experiência sociais, não é também o mesmo ter 20 anos em 1950, em 1975 ou hoje. Essa conexão implica uma determinação histórica daquilo que fomos, ou vamos sendo, uma determinação das configurações concretas dos nossos valores e convicções, da nossa experiência da vida e do mundo, da nossa experiência e cultura políticas. Essa determinação não é mecânica nem total, não actua como uma fatalidade, o que dialecticamente permite que não fiquemos presos do que já fomos, e possamos, designadamente, continuar a aprender.

Serve isto para dizer duas coisas sobre o camarada que perdemos. A primeira é que ele é um daqueles que trouxe até nós, os de sucessivas gerações mais novas, o partido que, por várias razões, escolhemos, o partido a que por vários caminhos viemos. No meu caso, e porque é o testemunho que posso dar, não basta dizer que durante anos trabalhei muito de perto com ele. Eu era portador não só de uma experiência muito mais reduzida, mas de uma outra experiência, de uma outra cultura, de outros gostos, e até de uma diferente avaliação de determinadas referências teóricas no campo do marxismo. E, entretanto, posso e devo dizer que parte significativa da minha formação política a fiz com ele. O que significa que foi possível um processo de integração, que não é um simples processo de assimilação.

A segunda coisa é que, até ao fim, ele nunca deixou de estudar e, porque não dizê-lo, de investigar. Lembro-me de como se manifestava essa sua aguda compreensão da necessidade do estudo, num partido como o nosso, para o qual transformar e conhecer se unem de forma concreta, e imprescindível. É certo que, no quadro do trabalho e da discussão colectivas, são estudos e trabalho seus que tiveram, a seguir ao 25 de Abril, um significativo papel não só na compreensão da evolução social da intelectualidade em Portugal, mas na adopção de determinadas formas orgânicas para responder a essa evolução. Nos últimos tempos, entre outros problemas que o solicitavam, lia e estudava, voraz e meditadamente, a bibliografia internacional sobre uma questão central, a da globalização, procurando pensá-la na sua articulação com a noção de fases na mundialização do capitalismo e a noção de imperialismo.

Lembro-me de como ele dizia que o Partido não devia trabalhar com os intelectuais na base da lisonja, mas da exigência e do rigor, ao mesmo tempo que criticava o que considerava serem formas de instrumentalização dos intelectuais ou, designadamente, da sua redução a um papel ornamental. Aprendi com ele e a partir dele, a enorme tensão que é necessária para procurar travar em certos momentos o confronto em que a arrogância intelectual e o preconceito anti-intelectual mutuamente se alimentam. Aprendi com ele a ser, sem complexos, um intelectual comunista no «partido político do proletariado», diferente como todos os comunistas o são, mas um igual entre iguais, naquele sentido e horizonte de concreta igualdade de que nós nunca abdicaremos, e sem a qual a liberdade, a democracia, a justiça, a cidadania não são inteiras. E ele compreenderia justamente que, de entre os nomes de muitos outros já desaparecidos, com quem também isso aprendi, eu cite o nome de Dinis Miranda.

A dedicação de uma vida

De algumas pessoas que o conheceram e que, não sendo hoje comunistas, mantiveram uma grande estima por ele, ouvi com largos intervalos de tempo e agora que morreu, algo de parecido com isto: «É/era um intelectual que sacrificou as suas capacidades intelectuais à classe operária e ao partido.» Como é preciso cuidado com o vocabulário religioso e com um certo modo de entender a frase, é preciso «traduzir» e acrescentar algo: «É/era um intelectual comunista que dedicou a sua vida e realizou pessoalmente as suas capacidades intelectuais nessa dedicação à causa da classe operária e de todos os trabalhadores, ou seja à causa internacional da emancipação social e ao partido que em Portugal a assume.» Ele representava de facto um determinado modo (não o único modo possível, mas seguramente um modo importantíssimo) de se ser um intelectual comunista: é que ele optou desde 1953 (tinha 23 anos) por ser um revolucionário profissional, ou seja, um funcionário do Partido, o que significava, nessa altura, e durante mais de duas décadas ainda, passar à clandestinidade.

Dessa dedicação sem preço, ele não se arrependeu. E as limitações que implicou não apagaram nele o homem apaixonado pelo que chamamos em sentido restrito, a cultura. Contava-nos, por exemplo, como estando preso se dedicou a tentar traduzir a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, sem entretanto conseguir ir além da «Introdução». Falava-nos de como gostava particularmente de Sá de Miranda e talvez isso tenha algo a ver com o «estranho» facto de um «pequeno» jornal clandestino, órgão central do Partido Comunista Português, o Avante!, trazer num dos seus números de 1953, um pequeno artigo a duas colunas com o título «Há 400 anos morreu Sá de Miranda» (como aliás trouxe outros, sobre Camões ou Gil Vicente, por exemplo). Assim como terá a ver com o facto de, ao longo de décadas, intermitente e compulsivamente, ele escrever poemas, trabalhando-os longamente na procura do rigor. Ele podia referir-nos argumentos sobre o modo como a tradição do pensamento materialista passava pelo interior do nominalismo, nas querelas medievais entre realismo e nominalismo. E, entretanto, lia e encomendava livros, queixava-se de não ter mais tempo para ler, para poder compreender rigorosamente e ajudar o seu Partido a acertar colectivamente. E a vários de nós, quando lhe falávamos de determinados problemas com os quais andávamos às voltas, muitas vezes ele lembrava-se de um texto que nos emprestava: podia ser um livro sobre Heraclito; um ensaio que ele próprio achava demasiado limitado sobre o papel da arte nos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844; um livro sobre um problema de matemática a propósito da teoria da mais-valia; um número muito recente de uma revista da esquerda norte-americana sobre a questão da História. E, no movimento da reciprocidade, procurava discutir, criticar (às vezes desabridamente) e integrar aquilo que produzíamos.


O voo do pensamento

Segundo a sua vontade expressa, o seu corpo foi cremado, enquanto os que o acompanhavam ouviam o coro dos hebreus em cativeiro («Va, pensiero...»), também referido como «coro dos escravos» ou dos «cativos», no III acto da ópera de Verdi, Nabucco. Dizem-me, entretanto, que discutia se o sublime estava mais aí, ou no segundo andamento da 7.ª Sinfonia de Beethoven, aquela que Wagner disse ser a apoteose da dança, ou no terceiro andamento da 9.ª Sinfonia, do mesmo Beethoven, aquele em que furiosamente se canta a «Ode à Alegria» de Schiller. É e não é uma mera questão de gosto, de cultura socialmente herdada e individualmente apropriada. Diz algo mais, sobre quem escolhe e hesita na escolha. Diz, desde logo, a capacidade de se comover com a arte, e com a mais abstracta e a mais sensível das artes, a música. Mas diz também o vínculo entre essa capacidade, o indeclinável compromisso com os explorados e oprimidos, na luta contra a exploração capitalista, e a intuição de que a experiência artística pode ser uma espécie de antecipação provisória ou diferida do que é para nós, comunistas, a emancipação do trabalho, ou mesmo, nos próprios termos de Marx, o fim do «trabalho condicionado pela necessidade e pela conveniência exterior», o tempo a vir do livre jogo das faculdades humanas, o tempo em que «começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si, o verdadeiro reino da liberdade». Estas citações de Marx têm tradução no actual Programa do PCP. E, no texto de Marx que utilizo, a última frase opera uma espécie de regresso ao presente, ao «reino da necessidade», e numa poderosa deflação da ênfase, diz: «A redução do dia de trabalho é a condição fundamental.» Nada a confundir com as várias «flexibilizações» e «fins» que os nossos adversários ameaçam.

O texto cantado pelo referido coro da ópera de Verdi começa assim:

Va, pensiero, sull’ali dorate;
va, ti posa sui clivi, sui colli,
ove olezzano tepide e moli
l’aure dolci del suolo natale!

Vai, pensamento, nas tuas asas douradas;
vai, poisa-te nos outeiros e nas colinas,
lá, de onde se evolam, tépidas e húmidas,
as doces brisas desse nosso chão natal!

Talvez não me engane muito se imaginar que, para além do mais, o Carlos Aboim, sendo, enquanto militante e dirigente comunista, também um homem de acção e organizador da acção, reparou que o texto começa com um apelo a um «voo do pensamento», feito por humanos em cativeiro.

Ele era um ser humano complexo. Como todos os seres humanos? Sim, mas há alguns em que tocamos mais de perto a vibração dessa complexidade. Era um homem apaixonado, e a veemência em que se incendiava aparecia a alguns como um traço autoritário, quando não era disso que se tratava, mas sim de ser um homem da razão apaixonada. Não era, como se diz, «de trato fácil»; tinha um ar severo, «bolchevique» (ou como imaginávamos os bolcheviques), mas era também capaz da grande amizade e da ternura. Seria teimoso, mas não era arrogante; e exaltava-se, mesmo com camaradas que particularmente estimava. Tratava-se então de saber lidar com isso: ou nos exaltávamos nós com ele, ou então deixávamos passar as primeiras vagas da sua exaltação, e avançávamos com o que tínhamos a dizer. Nos dois casos, ele então ouvia. Se o convencíamos ou não, isso dependia, mas é assim que a vida é. Sei que era meu amigo e eu era amigo dele, mesmo quando tínhamos de discordar. A que vem isso, aqui e agora? É que é verdade; e é também porque este é um texto de homenagem ao camarada que todos nós perdemos. 

«Avante!» Nº 1473 - 21.Fevereiro.2002