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O Encontro de Havana
A terra é a pátria de Cuba!

• Miguel Urbano Rodrigues

«Toda a Terra devia ser um grande abraço».
Essas palavras de José Martí, gravadas num gigantesco painel no palco do Teatro Karl Marx, expressaram com felicidade o espírito de fraternidade do II Encontro Mundial de Amizade e Solidariedade com Cuba.
Numa época dramaticamente marcada pela desumanização da vida este Encontro foi, antes de mais, um comovente acontecimento humanista.

4664 participantes vindos de 118 países trouxeram ao povo cubano a sua solidariedade. Foram cinco dias, de 10 a 14 de Novembro, de uma corrente de solidariedade que fez de Havana o lugar de um grande abraço entre gente progressista dos cinco Continentes.

Nas sessões plenárias e nas comissões houve 318 intervenções. Cito o número por ser elucidativo da impossibilidade de uma síntese do que foi dito, tal a riqueza e a diversidade das contribuições trazidas.

Do lado cubano três comunicações ao plenário chamaram a atenção. Foram complementares.

Felipe Perez Roque, chegou correndo do aeroporto, vindo de Nova Iorque, para evocar, entre 4000 amigos, o que se havia passado na Assembleia Geral das Nações Unidas durante o debate que concluiu pela condenação do bloqueio pela esmagadora maioria de 167 votos contra três (EUA, Israel e Ilhas Marshall) e quatro abstenções.

O ministro dos Estrangeiros de Cuba recordou a cena quase grotesca em que o embaixador dos EUA implorou nervosamente que não votassem a resolução sobre o bloqueio, porque era um assunto bilateral entre Washington e Havana...

Perez Roque é um jovem, a imagem da continuidade da Revolução. As aclamações dirigiram-se para além da sua pessoa ao povo que a 90 milhas do gigante imperial prova, dia após dia, que é possível resistir ao bloqueio e defender um projecto socialista num mundo hegemonizado pelo neoliberalismo globalizado.

Perez Roque comoveu o plenário ao lembrar que 500 000 cubanos atravessaram o Atlântico para lutar em terras africanas pela liberdade de Angola e contra o apartheid e o colonialismo.

Ricardo Alarcon, presidente da Assembleia Nacional do Poder Popular, fez do seu discurso uma peça científica sobre as relações Cuba-EUA, procedendo a uma autêntica anatomia do bloqueio, tornando evidente que cada vez que em Washington aprovam novas leis para suposta suavização deste, na realidade esses diplomas introduzem medidas que o agravam e endurecem.

Carlos Lage, secretário executivo do Conselho de Ministros, pronunciou o discurso sobre a recuperação económica. Foi outra peça de fundo. Os argumentos que apresentou são irrefutáveis. Os factos da história desmentiram as previsões de Wall Street. Quando em Washington anunciavam que o afundamento de Cuba estava iminente, a Ilha revolucionária iniciou uma recuperação económica que decepcionou os sábios de Harvard e Berkeley. Nos últimos cinco anos Cuba apresenta a mais alta taxa média de crescimento da América Latina. Lage colocou ênfase também no aperfeiçoamento empresarial, a fórmula que define a opção cubana para sobreviver, avançando. No seu relacionamento complexo com um sistema que pretende destruí-la, Cuba procura e encontra as sínteses que lhe permitem o aprofundamento do diálogo com o capitalismo sem renunciar aos seus princípios.

Atmosfera internacionalista

Não me foi possível acompanhar a cascata de intervenções nas três Comissões do Encontro, onde as temáticas eram obviamente diferentes.

Um momento que me tocou nasceu de um impulso de Odete Santos. Um espanhol havia lamentado o silêncio dos deputados comunistas europeus na defesa da Revolução Cubana. Odete pediu a palavra e da tribuna, naquele seu jeito simples e comunicativo, esclareceu que a crítica não era válida para os comunistas portugueses. O Parlamento português fora na Europa o primeiro a aprovar uma resolução contra o bloqueio e o primeiro também a enviar uma delegação sua a Cuba, com deputados de todos os partidos. Por iniciativa também do PCP a Assembleia do Conselho da Europa condenou o bloqueio.

Uma constante nos cinco dias do Encontro foi a atmosfera internacionalista.

O discurso de Cuba ao mundo fundiu-se no discurso e no abraço solidário ao povo cubano dos milhares de participantes vindos dos quatro cantos do planeta.

Naturalmente os povos que mais sofrem no momento, que aparecem pelas suas lutas como símbolo da resistência a agressões imperiais, foram saudados com especial carinho e entusiasmo. A Palestina à cabeça. Cada vez que a palavra era pronunciada, um rio de aplausos subia do plenário.

Na América Latina, o combate dos revolucionários colombianos contra a intervenção norte-americana, com destaque para as FARC-EP, foi saudado repetidamente com ovações que transmitiam um apoio fraternal.

Sensibilidade similar manifestou-se sempre que falaram representantes da Venezuela bolivariana. O nome de Hugo Chavez foi aclamado a cada vez que o citaram.

Entre outros países cujas lutas foram e são assumidas pela humanidade progressista, suscitando solidariedade calorosa, é de justiça mencionar Angola e Porto Rico.

Os relatórios das três Comissões - Bloqueio, Troca de experiências e Informação e Desinformação - são espelho e síntese de projectos, propostas, sugestões nascidos da criatividade e do amor que brotavam da grande vaga de solidariedade.

Uma tribuna livre planetária

Na manhã do último dia do Encontro os participantes reuniram-se na grande praça fronteira ao Escritório de Interesses dos EUA numa Tribuna Livre inédita pelo seu caracter e pela sua dimensão planetária. Foi festa e comício. De uma varanda lateral do edifício funcionários da potência imperial puderam ver, sentir e escutar o protesto dos povos contra a política de cerco e agressão.

Houve poesia, dança, música, canções belíssimas. Fidel presidiu, sentado na primeira fila. Dos discursos pronunciados dois emocionaram particularmente as delegações presentes: o do dominicano brasileiro Frei Beto e o do reverendo norte-americano Lucius Walker, presidente da organização Pastores para a Paz. O último pronunciou um autêntico discurso de acusação contra o sistema de poder dos EUA, colocando-o no banco dos réus, como inimigo da humanidade. Fustigando a dramática farsa das eleições norte-americanas, sugeriu ironicamente que as crianças cubanas sejam enviadas à Florida para fiscalizarem as urnas numa futura eleição democrática.

A confiança de Fidel

A Declaração Final, aprovada por aclamação, é um documento breve mas incisivo no qual está presente o espírito de solidariedade activa, militante, que caracterizou o II Encontro.

«A mobilização constante da solidariedade - afirma-se na conclusão - será a nossa resposta perante esta intolerável situação. Globalizemos o respeito, a fraternidade e a amizade com o heróico povo cubano. Cada dia de atraso na justiça a que Cuba tem direito é um dia mais de vergonha para toda a humanidade. Redobremos a nossa luta para eliminar definitivamente o bloqueio genocida!

Fidel encerrou o Encontro. Falou no seu estilo coloquial, quase íntimo. Começou por esboçar o retrato do mundo actual submetido ao neoliberalismo globalizado. Ao demorar-se na análise dos mecanismos da engrenagem económica e financeira que tritura mais de quatro quintos da humanidade, chamou a atenção para a vitória colectiva representada pela sobrevivência da Revolução Cubana, transcorrida quase uma década sobre o afundamento da União Soviética e do socialismo na Europa Oriental.

O dirigente cubano deixou muito claro que a luta pelos ideais do socialismo é mais do que nunca uma necessidade. Mas não escondeu que esse combate exige também uma inesgotável paciência e uma firmeza inquebrantável.

A mensagem ajustou-se bem ao espírito do Encontro. A tenaz Resistência de Cuba confirma a cada dia que é possível dizer NÃO ao imperialismo e que, mesmo sob um bloqueio cruel e total, um pequeno país fiel aos ideais socialistas pôde crescer mais do que qualquer outro na América Latina submetida às exigências do Consenso de Washington. Outra lição importante de Cuba numa época de desorientação ideológica e de apologia de alternativas fantasistas e de diatribes contra os partidos comunistas (não falta quem os pretenda destruir de dentro para fora) é a de que a defesa da Revolução não teria sido possível sem o partido marxista-leninista que nela tem cumprido um papel insubstituível.

***

Troquei impressões com centenas de pessoas de dezenas de países Reencontrei nestes dias camaradas queridos que não via há muitos anos.

Creio expressar uma opinião muito generalizada entre esses veteranos de muitas revoluções e contra-revoluções que se mantêm firmes na primeira linha de combate, sublinhando que todos se identificam com a definição feliz que Perez Roque deu do internacionalismo cubano.

Repeti-a eu próprio numa breve intervenção. Se há um povo que considere a Terra sua pátria e assuma a humanidade como a sua cidadania esse povo é hoje o de Cuba. Apesar de tudo o que existe de imperfeito e negativo na revolução possível que ele levou à vitoria e defende.


A «bomba»
de Fidel
no Panamá


Perdi a conta das tentativas de atentados contra Fidel. Mas foram mais de 600. Parece coisa milagreira; todas fracassaram.

A CIA e a Fundação Cubano Americana, de Miami conceberam a maioria, quase sempre em íntima cooperação.

A última teve por cenário o Panamá. Acabou mal: o autor do plano e o seu grupo de mercenários estão na cadeia.

Tudo correu da pior maneira para a mafia de Miami. Os serviços de Inteligência cubanos estavam ao corrente da conspiração, montada naquela cidade dos EUA e em El Salvador. É caso para dizer que o feitiço se virou contra o feiticeiro.

Ao desembarcar no Panamá, Fidel Castro convocou uma conferência de imprensa e pôs tudo em pratos limpos. A declaração oficial que leu, informando as autoridades panamenhas do atentado em preparação, passou a ser o grande acontecimento da X Cimeira Ibero-Americana, secundarizando os discursos dos chefes de Estado e governo.

Desta vez a mafia de Miami confiou a preparação do plano criminoso a um veterano terrorista, Luis Posada Carriles.

Fidel soube criar a atmosfera de um filme de suspense. Ninguém esperava por uma bomba política tão explosiva. Os jornalistas mal acreditavam no que ouviam. Fidel, muito calmo, dizia-lhes que naquele momento, num hotel da cidade, Carriles e os seus muchachos, três experientes mercenários, davam os últimos retoques no plano cujo objectivo era assassiná-lo. Informou que Carriles estava no Panamá desde o dia 5. Introduzira no país armas e explosivos. Viajava com um passaporte de El Salvador, emitido em nome de Franco Rodriguez Mena.

O dirigente cubano achou oportuno apresentar um currículo sintético do homem incumbido pela mafia de organizar o seu assassínio.

Carriles foi o autor intelectual do atentado que destruiu em Outubro de 1976, em Barbados, um avião da Cubana de Aviación (73 mortos). Preso na Venezuela, evadiu-se da cadeia. Reside habitualmente em El Salvador onde obteve dois passaportes com nomes falsos. Nos últimos anos, usando essa documentação entrou e saiu mais de 70 vezes daquele país. Nos EUA a televisão e os jornais dão-lhe um tratamento vip. Foi um destacado participante do Iran Gate, no âmbito da guerra suja contra a Nicarágua sandinista. Em 1998 concebeu e dirigiu os actos terroristas contra hotéis de Havana.

Carriles sentiu sempre fascínio pelas Cimeiras Ibero-Americanas. Por ocasião da IV, em Cartagena de Índias, na Colômbia, pretendia matar Fidel a tiro de bazooka, quando este viajava num carro de cavalos com Garcia Marquez. Não teve sorte. Em 1997, durante a Cimeira da Ilha Margarita, na Venezuela, ideou novo plano terrorista. O projecto não funcionou. Os explosivos e as armas com mira telescópica foram apreendidos no mar. Por duas vezes tentou obter mísseis para abater aviões em que Fidel viajava, para as cimeiras do México e da Espanha.

Carriles - que em inesquecível entrevista ao New York Times declarou ter aprendido com a CIA tudo o que sabe em matéria de terrorismo - não teve desta vez tempo para escapar. A polícia panamenha, informada pelos cubanos, prendeu-o - e aos seus rapazes - no hotel onde estava hospedado. As armas e os explosivos foram encontrados. O plano previa que a durante o encontro de Fidel com os estudantes na Universidade seria detonada no anfiteatro uma potente carga explosiva através de um sistema de controlo remoto. Admite-se que o atentado, a concretizar-se, poderia causar mais de 100 mortes. A Inteligência cubana sabia tudo. Posada Carriles não imaginava que estava a ser filmado no hotel do Panamá enquanto conspirava. A TV cubana transmitiu o vídeo dias depois.

Somatório de hipocrisias

O debate sobre o tema da Cimeira, a Infância e a Adolescência, foi, com raras excepções, um somatório de discursos hipócritas. Outra coisa não seria de esperar num plenário em que a maioria dos presidentes são responsáveis pela trágica situação de dezenas de milhões de crianças.

Nenhum chefe de Estado ou de governo tomou a iniciativa de levantar na Cimeira a questão do malogrado atentado criminoso contra Fidel Castro. Mas o mexicano Ernesto Zedillo cometeu o erro de interpelar Fidel, embora cortesmente, quando a delegação cubana - pela palavra do ministro dos Estrangeiros Perez Roque - informou que não assinaria uma proposta de El Salvador que condenava o terrorismo da ETA de uma forma unilateral, como se o terrorismo fosse um mal exclusivo da Espanha, inexistente na América Latina. Nesse documento não havia qualquer referencia à tentativa de atentado contra Fidel Castro.

O presidente de El Salvador, Francisco Flores, um político de extrema direita, tipo his master voice, teve a infeliz ideia de intervir no debate para acusar grosseiramente Cuba, usando a linguagem do anticomunismo cavernícola.

A resposta de Fidel foi uma lição de história, demolidora. Reduziu a pó o presidente teleguiado de El Salvador.

Após o encerramento, na tradicional conferência de imprensa dada pela troika, o presidente de Cuba teve a oportunidade de recolocar a problemática do terrorismo na perspectiva correcta, lembrando que nenhum outro povo tem sido vítima de tantos e tão repugnantes actos de terrorismo, com a peculiaridade de serem concebidos, financiados e comandados a partir dos Estados Unidos.

Uma Cimeira que, ainda há poucos dias, era olhada como um acontecimento político inexpressivo, acabou por se tornar tema de manchetes em todo o mundo em consequência de um plano criminoso contra Cuba, ideado pela mafia terrorista de Miami.

«Avante!» Nº 1409 - 30.Novembro.2000