
Os novos cães de guarda
por Lino de Carvalho
"Os novos cães de guarda" constitui o título de um recente e interessante livro de Serge Halimi, jornalista do Le Monde Diplomatique, dedicado à situação dos media e de um certo "jornalismo de reverência" dominado "pelos grupos industriais e financeiros, por um pensamento de mercado, por redes de conivência". "Num perímetro ideológico minúsculo - diz Halimi - multiplicam-se as informações esquecidas, os intervenientes permanentes, as notoriedades induzidas, os afrontamentos fácticos, os serviços recíprocos. Um pequeno grupo de jornalistas omnipresentes - e cujo poder é fortalecido pela lei do silêncio - impõe a sua definição de informação-mercadoria a uma profissão cada vez mais fragilizada pelo temor do desemprego. Estes porteiros da ordem são os novos cães de guarda do sistema económico."
Sendo um livro de reflexão que arranca da experiência francesa, não podemos, ao lê-lo, deixar de alargar esta reflexão aos múltiplos exemplos idênticos que atravessam a imprensa portuguesa.
Também entre nós se pode dizer que "a censura é mais eficaz quando não tem necessidade de se afirmar, quando os interesses do patrão, miraculosamente, coincidem com os da informação".
O PCP, então, tem obviamente sido sistematicamente objecto e vítima desta informação, desta rede ideológica.
Alguns exemplos vêm-nos à memória.
Quando da realização das festas do Avante sempre os vários repórteres e editorialistas procuram ou minimizar ou inventar elementos de diversão que diminuam a grandiosidade e o significado político e social do evento. Este ano, estupefactos, lemos, na crónica do jornal de Belmiro de Azevedo, que o PCP tinha puxado para a frente o palco do comício para procurar reduzir o perímetro deste e, assim, esconder a pré-anunciada pelo Público pouca mobilização face à EXPO/98. Por azar, a jovem repórter esqueceu-se de verificar que o palco está assente, há alguns anos, numa estrutura de betão!!!
Exposto ao ridículo da notícia, o Público limitou-se, uns dias depois, a rectificar a notícia numa minúscula nota que, obviamente, poucos lêem.
Mas também noutras frentes de intervenção, todos os dias o PCP é alvo de clara discriminação que, muitas vezes, influencia mesmo os mais atentos e sinceros camaradas. Aqui há tempos, num mesmo dia, na Assembleia da República, o Grupo Parlamentar interveio em plenário, num debate quente, e realizou uma Conferência de Imprensa de apresentação do Projecto de Lei de Bases da Segurança Social. No telejornal dessa noite, na RTP 1, nada deu da intervenção do PCP no debate em plenário - apesar do seu interesse noticioso - e da Conferência de Imprensa passou imagem, sem som directo e com meras e rápidas palavras em off do repórter. No dia seguinte, eu próprio, tendo encontrado o repórter em causa nos corredores do parlamento questionei-o sobre as razões que levam a censurar o PCP dos telejornais. A reacção foi significativa da mentalidade de um censor: que não podia passar o PCP duas vezes no mesmo telejornal!!!
Outro exemplo: o PCP, através do seu Grupo Parlamentar, promove inúmeras iniciativas. Quando são noticiadas, na generalidade dos casos (e estou a falar em especial das televisões), omite-se que a iniciativa é do PCP.
Foi o que aconteceu recentemente com a audição sobre a situação da BSE.
Ou quando, após sucessivos protestos, não é possível esconder mais o PCP ou dar notícia da paternidade das iniciativas então reduz-se a intervenção comunista a trinta segundos ou duas linhas ininteligíveis e puxa-se o Governo para primeiro plano, dando-lhe o palco e desenvolvendo-lhe os argumentos.
Nada disto é casual. Nem é necessário que o membro do Governo que tutela a comunicação social ou o patrão do órgão em causa telefone ou exerça uma pressão directa sobre o(s) jornalista(s). Embora, isso, obviamente, também aconteça. Basta o caldo de cultura, de ideias feitas, de preconceitos e até de uma confrangedora mediocridade em que mergulha a educação e a formação de uma parte dos profissionais da comunicação social. Com, felizmente, evidentes excepções, que não cito para não embaraçar ninguém. Eu sei que não é avisado nem "politicamente correcto" falar nestes termos de quem é veículo do que dizemos. Mas é mais importante do que isso sermos coerentes connosco próprio e forçarmos o debate público destas questões tão sensíveis e tão importantes para uma democracia que se quer plural e que não silencie, censure ou manipule as várias opções constitucionais que atravessam a nossa sociedade. Tem razão Serge Halimi quando afirma que a censura é mais eficiente quando não tem necessidade de se afirmar.
Outro traço do comportamento dos media em relação ao PCP é o seu reconhecimento - não expresso depois no relevo que (não) lhe dão nas respectivas notícias ou reportagens - de que nós possuímos uma informação e uma análise séria e fundamentada dos problemas que questionam a sociedade e os trabalhadores. Vai daí, não há dia que dirigentes e deputados do PCP não sejam confrontados com pedidos de informação, documentação e reflexões sobre múltiplos temas. Que, por norma, depois não vêem a luz do dia ou são resumidos a duas linhas embora sirvam, sem se citar a fonte, para construir a notícia. É o PCP a trabalhar para a formação dos profissionais dos media e para a própria elaboração do jornal. Já não é mau, dirão alguns. Mas quando colocamos o nosso interlocutor perante a possibilidade, o interesse e a oportunidade de se transformarem por vezes longas conversas de informação em entrevistas formais onde, explicitamente, o PCP exponha essas ideias e propostas, aí fica lançado o pânico. Que sim mas talvez ... Que isso é matéria mais complexa que só o chefe ou o director do jornal podem resolver. Até corremos o risco de nunca mais vermos à frente o nosso interlocutor...
Não quero contudo deixar de reconhecer que nas últimas semanas, talvez sob o efeito Saramago e Fidel, os comunistas e o PCP tiveram mais espaço na informação. A cobertura das Jornadas Parlamentares do PCP, a divulgação de iniciativas na área da Saúde e do Orçamento de Estado, o acompanhamento de algumas iniciativas e entrevistas com o Secretário-Geral do PCP são disso exemplo, diga-se em abono da verdade.
Mas por quanto tempo assim será? Nada melhor do que seguir atentamente o futuro comportamento dos media em relação ao PCP, para distinguir a conjuntura de um comportamento sistémico. Oxalá me engane.
E não sofro nesta matéria nenhuma síndrome de perseguição, reconhecendo que também temos muito a melhorar na nossa política, na nossa capacidade de iniciativa e organização comunicacional. Mas também não tenho grandes ilusões e distingo a diferença entre momentos de maior notoriedade do PCP na comunicação social, entre sempre necessárias melhorias do nosso trabalho e um traço geral estrutural de discriminação. Antes não fosse assim. Aliás, um exemplo muito recente vem dar razão a esta tese: no passado sábado, o Telejornal da RTP 1 apresentou uma peça sobre o Orçamento de Estado onde o PCP apareceu como protagonista principal devido às propostas que apresentou para introduzir maior justiça fiscal no IRS e que o próprio primeiro-ministro foi obrigado a reconhecer como propostas sérias, dificilmente recusáveis. Mas qual foi a opção que, a seguir, a RTP tomou quanto ao debate em estúdio? Convidou representantes do PS e do PSD quando o que seria lógico era ter convidado o PCP e, em especial, o seu leader parlamentar. Se isto não é discriminação, então digam-me o que é... Mas há mais. Basta estar atento aos artigos, editoriais, questionários e outros eventos inquietos que, depois da Cimeira do Porto, já começaram a aparecer, comparando Pinochet a Fidel Castro, acentuando (a pretexto do lançamento de um livro anticomunista já há muito describilizado) os alegados «crimes do comunismo» e procurando-se, assim, reduzir ou anular os impactes do efeito Saramago ou Fidel. Temos que procurar responder a isto? Claro. Mas esta é que é a realidade sistémica que precisamos de trazer para o debate (e para o protesto).
Outro traço justificativo de reflexão tem a ver com a forma como os nossos órgãos de comunicação social se debruçam sobre a chamada globalização (mais rigorosamente, a mundialização do sistema económico e financeiro do capitalismo). Até há pouco, a liberalização dos mercados e a livre circulação das mercadorias e dos capitais eram condição de desenvolvimento e progresso. De repente, bum. A crise do sistema - e não só dificuldades de tal ou tal país, como bem fez notar Fidel Castro na Cimeira Ibero-Latino-Americana do Porto - obrigou os guardiões do capitalismo, a começar pelos Partidos da social-democracia e do "socialismo", a reinventar o discurso, a procurar afanosamente soluções de gestão do sistema, a recuperar Keynes (para o Estado poder socializar os prejuízos). Aí passámos a ter, também, os nossos analistas e jornalistas económicos a repetir o discurso e as receitas da social-democracia em contradição plena, aliás, com que muitos deles, estremes defensores das correntes do capitalismo liberal, defendiam meses antes. Ontem defendiam que o Estado saísse da economia e libertasse a "sociedade civil" - leia-se que a economia e as funções sociais do Estado fossem privatizadas. Hoje, defendem a necessidade do Estado intervir para aguentar, por exemplo, os capitais especulativos de alto risco (os hedge founds), os bancos e outras instituições financeiras. Isto é, depois dos lucros especulativos terem sido, durante alguns anos, embolsados pelo capital, agora têm de ser os cidadãos, através dos respectivos Estados, que têm de suportar a socialização dos prejuízos. E logo, obviamente, os nossos media fazem coro com os interesses do patrão.
Serge Halimi procura explicar esta adesão às teses do pensamento dominante e dos mais favorecidos da sociedade com a ideia de que os jornalistas que recebem salários anuais muito elevados proporcionando-lhes uma vida quotidiana de grande conforto "torna-os mais sensíveis aos problemas dos privilegiados que à sorte dos trabalhadores pagos com o salário mínimo". E é essa pequena coorte, feita de jornalistas e analistas bem pagos, que todos os dias atravessam os ecrãs, as ondas radiofónicas e os comentários da imprensa escrita - "que se encontram, frequentam-se, apreciam-se, citam-se" - que dão o mote para a repetição das mesmas teses pelo resto dos profissionais de comunicação social, a generalidade deles presos a um emprego precário, a recibo verde, onde a competição é cada vez mais violenta.
Desse meio, em Portugal, também se pode dizer o mesmo que um sindicalista americano, citado por Halimi, dizia dos jornalistas do seu país: "Há vinte anos, eles almoçavam connosco nos cafés. Hoje, eles jantam com os industriais."
«Avante!» Nº 1300 - 29.Outubro.1998