Debate de urgência sobre "Defesa Nacional
e Forças Armadas"
Intervenção do Deputado João
Amaral
Reunião Plenária do dia 10 de Abril
de 1997
Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Senhor Ministro,
Ainda ontem V. Exa. aqui esteve, a jogar ao ataque, como Ministro da Presidência,
e hoje, aqui está de volta, como Ministro da Defesa, para se explicar
acerca da sua política para Defesa Nacional e acerca do seu relacionamento
com as Forças Armadas. V. Exa., um civil civilista, o que lhe havia de
suceder! Tudo por causa de um imprevidente tiro no navio almirante ...
Bem se pode dizer que o Ministro da Presidência estava aqui ontem com
muito melhor aspecto do que está hoje o Ministro da Defesa ...
Compreende-se muito bem o embaraço de V. Exa.. Veja-se a situação:
O Ministro da Defesa do Governo PS a ser questionado pelo PSD, que fez no Governo
exactamente a mesma política que V. Exa. agora faz. Pior ainda: V. Exa.
a ser questionado pelo PSD nos mesmos exactos termos que o PS usava quando era
oposição para questionar o PSD quando este era Governo!
Mesmo para uma personalidade como V. Exa., inteligente, trabalhadora e habituada aos jogos mais refinados da política, a coisa, temos de confessá-lo, é confusa e difícil.
É certo que V. Exa. acrescentou a esta continuidade de política
um toque muito pessoal. Certamente lembrado das críticas que lhe fizeram
quando anunciou ao País que andava com o Comissário Cardoso e
Cunha ao colo, V. Exa. entendeu ter com as Forças Armadas uma atitude
diametralmente oposta. Fez bem, Senhor Ministro da Defesa, em não andar
ao colo com os militares. Ficava-lhe mal e as Forças Armadas não
aceitavam!. Mas tomar a atitude diametralmente oposta, e praticar a política
do empurrão, francamente, também foi um exagero. Foi pouco saudável,
e pouco adequado à consideração devida às Forças
Armadas como instituição.
Eu sei que V. Exa. já aprendeu com este incidente. É a vantagem
da "formação em exercício", que V. Exa.
está a fazer nestas questões da Defesa Nacional e Forças
Armadas. Como vai apreender com as consequências das afirmações
de hoje, quando transforma os jovens oficiais no suporte para uma política
de ataque aos postos superiores. Vai ser bonito!
Assim, Senhores Deputados, será que espanta alguma coisa que nas Forças
Armadas exista desgosto com a situação vivida, e já muito
desalento?
Faço três perguntas:
Como quer, o Senhor Ministro, Forças Armadas motivadas se continua
sem dar resposta a questões instantes de carreira e estatuto profissional
dos militares? Por exemplo. Para quando a resposta aos problemas colocados aos
sargentos por causa do novo sistema retributivo?
Outra pergunta: Como é que as Forças Armadas hão-de encarar
a secundarização a que tem sido votada a indústria nacional
no processo de reequipamento militar? É aceitável o que se está
a passar com a encomenda de 4 lanchas da classe "Argos" para as quais
se abre concurso internacional, em vez de adjudicar à indústria
naval portuguesa, Arsenal e Estaleiros de Viana? E a nova arma para a INDEP?
Terceira pergunta: entendeu V. Exa. nomear um novo Director do Instituto de
Defesa Nacional. Ao arrepio da tradição desde que existe o Instituto
de Defesa Nacional, V. Exa. nomeou um civil. Porquê? O que é que
tornava imperioso e inadiável fazer tal tipo de mudança que as
Forças Armadas não podiam deixar de sentir? Diz o ditado que "quem
não se sente, não é filho de boa gente". Que se esperava
então?
O problema, Senhor Presidente e Senhores Deputados, não é este
Senhor Ministro da Defesa Nacional ser mal jeitoso para se relacionar com as
Forças Armadas. O problema não é este Senhor Ministro da
Defesa Nacional não ter política. O problema é a política
que este Governo tem para a Defesa Nacional e para as Forças Armadas.
O problema é que o país gasta hoje mais de trezentos milhões
de contos, mas não com o objectivo de ter umas Forças Armadas
aptas a defenderem a independência nacional, a integridade do território
e a garantia das ligações entre o Continente e as ilhas atlânticas.
Não, o objectivo é o de que as Forças Armadas integrem
as Forças NATO, e eventualmente, as Forças da UEO, para aí
realizarem, subordinadamente, as missões que interessem à NATO,
aos Estados Unidos e às potências da União Europeia.
É por essa razão que a profissionalização das
Forças Armadas foi posta em marcha, concomitantemente com a extinção
do Serviço Militar Obrigatório. Para missões defensivas
e com as características do País, o Serviço Militar Obrigatório
era lógico e necessário. Para o tipo de missões externas
que o Governo privilegia e que não têm a ver com a defesa dos interesses
nacionais, a opção é evidentemente o profissionalismo.
O Senhor Ministro da Defesa vai dizer que nessa matéria não
inova nada, que se limita a continuar a política que o PSD já
seguia. Nem sequer quanto à politiquice: assim como se dirá que
o PSD quer aproveitar a actual conjuntura de incomodidade nas Forças
Armadas, também o PS aproveitou casos como o das OGMA apesar de aí
estarem em jogo graves problemas externos e significativos interesses da empresa.
Mas, eu quero ser justo, Senhor Ministro. Aos que lhe dizem que se limita
a continuar a política do PSD, eu digo que o Senhor Ministro o faz da
forma melhor que sabe.
O que já é de assinalar.
Disse,