GRANDE JORNADA POPULAR
EM MEMÓRIA DE CATARINA*

Na porta do túnel sombrio, atravessado por 48 anos de fascismo, surge, radiosa, uma imagem de mulher, envolta na luz alentejana, símbolo do heroísmo camponês, da sua resistência e do seu martírio. Catarina Eufémia, militante do Partido Comunista Português, caiu, na flor da vida, em Baleizão, à frente de uma greve. Depois, o seu nome tornou-se bandeira e chegou aos confins do mundo, a toda a parte onde o proletariado trava a sua luta pela instauração do socialismo.

A jornada épica e comovente de 19 de Maio tomou evidente a adesão maciça do povo alentejano à longa batalha do Partido Comunista Português, ao seu programa político, à firmeza e ao rigor da sua estratégia. As classes trabalhadoras do Alentejo já estavam de há muito emocionalmente ao lado do Partido Comunista Português. Agora, após aquele dia de sol e sorriso, de bandeiras vermelhas, de esperança desfraldada, de punhos erguidos, de homenagem a Catarina tomada em maravilhosa festa do povo, este sabe, sem dúvidas nem ilusões, quem serve os seus interesses de classe, quem se bate por ele até à morte, quem sacrifica tudo à sua causa. Aqueles trabalhadores humildes, privados há tantos anos de quase todos os direitos humanos, tornaram-se agora, com os olhos bem abertos, conscientemente comunistas.

Portugal viveu um dos dias grandes da sua história, pagando à memória de Catarina o tributo que se deve aos melhores dos portugueses. O nome de Catarina Eufémia entra definitivamente na história - na verdadeira história, não na dos seus falsificadores - ao lado dos cabecilhas populares da revolução patriótica de 1383, ao lado dos heróis sem nome que caíram às balas castelhanas, antes e depois de 1640, na batalha pela independência nacional, ao lado do Partido Comunista, que agora o descobre à claridade do dia para todos, em alvoroço e em triunfo, no «poster» onde ressurgiu o rosto belo e puro de Catarina, que o descobre nas palavras serenas e determinadas de Álvaro Cunhal, aclamado em Baleizão, no terrível sofrimento e no constante orgulho de cada obscuro militante comunista dos que em Pias, em Baleizão, em Beja, em Grândola, em Aljustrel, em Serpa, em Moura, na Vidigueira, por todo o Alentejo, reagiram sempre à opressão, encabeçaram a luta de classes, estimularam a união dos trabalhadores e de todos os antifascistas contra o regime sanguinário de Salazar, contra o farisaísmo não menos cruel de Caetano, manejado pelo capitalismo e pelo imperialismo internacional.

Catarina Eufémia - sentiu-o bem o povo alentejano, que, numa fraterna emoção, acompanhou a trasladação dos seus ossos do cemitério de Quintos para o de Baleizão, que foi em espontânea marcha até à courela onde a assassinou o tenente Carrajola, instrumento do fascismo -, Catarina Eufémia dizia: «O baraço quebra sempre pelo lado mais fraco».

Agora está à vista a verdade profunda das suas palavras. A força é o Povo Português quem a tem: a força da justiça, a força do seu trabalho, a força dos seus direitos, a força da humanidade, a força da História, a força do futuro. Sim, o baraço quebra pelo lado mais fraco.

Não teria sido possível derrubar o monstro fascista, de que a PIDE-DGS era o executante atroz, sem a gloriosa arrancada do Movimento das Forças Armadas. Como não teria sido possível sem a resistência e as campanhas de esclarecimento do Movimento Democrático e sem o persistente combate e sacrifício, sem a politização das massas empreendida pelo PCP, mau grado o número dos seus militantes que a doença prostrou, que a prisão aniquilou, que as balas homicidas derrubaram.

Unidos, o povo e as Forças Armadas venceram a primeira grande batalha da dignificação e da ressurreição de Portugal. E isso foi notório em Baleizão, no abraço sincero e ideal dos militares e do povo, dos briosos oficiais e dos dirigentes comunistas, que há tantas décadas reivindicam, como Catarina o fez, o pleno direito à sua cidadania, à sua Pátria, ao pão e à cultura para todos.

 

 

 
«Avante!» de 24 de Maio de 1974