Debate de relevante interesse político sobre política
energética
Intervenção do Deputado Carlos Carvalhas
5 de Abril de 2000
Sr. Presidente,
Srs. Deputados,
Srs. Membros do Governo,
Sr. Ministro das Finanças
Este debate confirmou que houve, da parte do Governo, de facto, uma condenável política marcada pelo eleitoralismo, política que colocou os interesses do PS à frente dos interesses das pessoas e da economia nacional. Com efeito, ficou claro neste debate que o Governo, primeiro, manteve, durante cerca de dois anos, o preço do crude quando este descia sucessivamente, e, depois, no ano passado, fugiu a qualquer moderada actualização antes das eleições de Outubro, não apenas por recear o seu impacto eleitoral mas, sobretudo, por estar interessado em condicionar a discussão do Orçamento do Estado e as actualizações salariais através da ilusão de uma taxa de inflação de 2% no corrente ano.
Isto é, o Governo não agiu de boa fé!
Negociou as tabelas salariais, nomeadamente as da administração pública, com base numa taxa de inflação que, manifestamente, sabia que não iria, como não vai, cumprir, e fez o mesmo em relação ao salário mínimo e às pensões e reformas. Aliás, contrariamente ao que aqui foi dito, o aumento destes preços não está em contraciclo com os preços do crude, o que esteve em contraciclo foi apenas a data das eleições legislativas, porque se ela tivesse sido outra, também a política teria sido outra, os aumentos teriam sido outros e em outros momentos diferentes.
Por isso, o Governo tem o dever ético de actualizar as tabelas salariais dos trabalhadores da administração pública bem como as pensões mais degradadas.
Tanto o Sr. Ministro da Economia como o Sr. Ministro das Finanças
sabem que faltam à verdade quando dizem que estes aumentos não
vão comer os já fracos aumentos nominais! E o tom arrogante
permita-me que lho diga com que o Ministro das Finanças
afirmou que o Governo rejeita o projecto de resolução do PCP
mostra a verdadeira postura deste Governo sobre a distribuição
do rendimento nacional e o que significa para o Ministro governar com consciência
social, pois, na nossa resolução, apresentámos várias
medidas no sentido de minimizar os efeitos sociais, económicos e energéticos!
A consciência social vê-se também, por exemplo, nos aumentos
anunciados do gás para consumo doméstico, do gás em garrafa,
em 8%, quando os aumentos salariais da função pública
foram de 2%; vê-se nas orientações intransigentes, insensíveis
e até mesmo arrogantes dadas às empresas públicas de
transportes em relação às negociações salariais
em curso! O Governo, com esta política de concentração
da riqueza, com a sua política autista e arrogante, é o responsável
pela conflitualidade social e mostra que (passe a expressão) «se
está nas tintas» não só para os trabalhadores como
também para os problemas incómodos que as greves dos transportes
causam a todos os utentes!
Este é um Governo que, no Orçamento do Estado, manteve os privilégios
à banca e os benefícios fiscais, nomeadamente às actividades
financeiras e especulativas, mas que se recusa a actualizar as tabelas salariais
mesmo na margem que já concede para o aumento da taxa de inflação!
É a política de «dois pesos e duas medidas», ou
a «lei de ouro económica» do Ministério das Finanças,
também conhecida pela «lei do funil»: larga para os boys,
para as girls e outra clientela; estreita para os trabalhadores, para os reformados
e para os pensionistas!
Sr. Ministro das Finanças, ponha de lado essas leis de ouro e vá
ao concreto! E, no concreto, avance na actualização dos salários,
nomeadamente quanto à administração pública, bem
como das pensões e reformas, faça um estreito acompanhamento
e controlo das repercussões do aumento dos combustíveis nos
preços de outros produtos, de outros bens e serviços
não tenha a atitude da avestruz em relação ao aumento
do gás! , e faça também uma política de
contenção de novos aumentos de preços dos transportes
públicos, muito em especial no que diz respeito aos passes sociais,
porque, com estes aumentos e com o aumento das taxas de juros, muitas e muitas
famílias vão ver o seu orçamento degradado. Ou seja,
vai aumentar o número de famílias que são excluídas
de um nível de vida digno, do acesso à habitação,
ao ensino.
Por isso, Sr. Ministro, se quer governar com consciência social, «meta
a mão na consciência» e diga, claramente, que não
só errou mas também teve uma atitude de reserva mental quando
fez a negociação das tabelas salariais com a administração
pública. Estenda a mão à palmatória e aumente
agora os reformados e os trabalhadores da função pública!